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Jose Midlin, o maior bibliófilo do país!

Literatura por em 2014-09-09 12:11:27

Um dia, as lupas espalhadas pela casa dos Mindlin não funcionaram mais. Por um problema progressivo na visão, José foi apartado de seu grande prazer: a leitura. Na casa dos 90 anos, o maior bibliófilo do país precisou de olhos emprestados. Parentes e amigos sentavam-se a seu lado e liam em voz alta os autores prediletos dele, ou os jornais do dia, enquanto o homem ouvia em silêncio. Ele não ficou cego, mas teve lesões na área da retina responsável pela visão central. Perdeu a capacidade de ler. Em seus últimos anos, os olhos de Mindlin lhe pregaram uma peça.

O que não deixa de ser uma ironia. Triste. José Mindlin (1914-2010), que completaria 100 anos amanhã, era o dono da maior coleção privada de livros raros do país — acervo que começou a construir ainda menino, com 13 anos, percorrendo os sebos de São Paulo. Mindlin doou em 2006 sua brasiliana — parte da biblioteca com livros sobre o Brasil — para a Universidade de São Paulo. A transferência dos 32 mil títulos foi concluída no ano passado. Apaixonado pela leitura, claro que ele não leu tudo, mas leu muito — cerca de 1.500 páginas por mês, cem livros por ano, durante muitos anos, até o problema de saúde brecar a paixão.

Desde cedo, Mindlin lia nos trajetos, nas salas de espera, entre um compromisso e outro. Por isso, sentia-se injustiçado pelo destino com o problema na visão. Seus leitores, porém, ajudavam a passar pela fase difícil. Alguns iam até ele com regularidade, outros só de vez em quando; mas nenhum esqueceu as histórias do homem.

“Em busca do tempo perdido”

Cristina Antunes, por exemplo, é uma decana: há 35 anos tornou-se a bibliotecária do acervo de Mindlin. E continua à frente dele na USP. Ela se lembra de quando alternou com outros a leitura dos sete tomos de “Em busca do tempo perdido”, de Marcel Proust, um dos autores prediletos de Mindlin. Foi a quinta “leitura” que o colecionador fez do autor. Proust, aliás, tinha uma estante cativa, só dele, na casa do bibliófilo. Cristina, que em outras tentativas já havia desistido da obra do francês, diante de seus períodos labirínticos, finalmente se encantou pelo livro, ao perceber pela primeira vez a musicalidade de cada frase.

— Doutor José! Se o senhor tivesse me dito antes para ler em voz alta, eu teria gostado muito mais! — Cristina lembra de ter dito (até hoje, ela guarda um broche com os dizeres “Eu leio para José”, feito pela sobrinha do bibliófilo).

Moradora do Rio, a tradutora Estela dos Santos Abreu, de 82 anos, sempre que ia a São Paulo passava pela casa dos Mindlin, a fim ler para o amigo. Levava novidades da Europa, sobre as quais ele ouvia com interesse. Às vezes, ela lia em francês. E também chegou a ler trechos de Proust.

— Acho que, para o Mindlin, era mais um momento de relembrar. Porque ele sabia Proust de cor — afirma Estela, lembrando a honra do momento em que um livro sobre o francês trazido por ela foi parar na “proustiana” de Mindlin.

Falando de “Em busca do tempo perdido”, quem teve um momento proustiano ao entrar na lendária biblioteca foi a atriz Ana Luísa Lacombe, que também leu para Mindlin. O cheiro de encadernação a transportou para a infância na biblioteca do avô, o historiador Américo Lacombe, amigo do colecionador. Ana Luísa tremia de nervoso quando chegou à casa dos Mindlin, na Rua Princesa Isabel, em São Paulo, com o conto “O pequeno sapateiro”, de Isaac Bashevis Singer, na mão. Ela recorda um ritual antes de cada leitura: primeiro “uma sopinha”, depois uma conversa sobre amenidades e só então o livro.

— Um dia, cheguei para ler e era aniversário de morte da dona Guita (mulher de Mindlin, morta em 2006). Ele não me contou, mas alguém ligou para prestar apoio. Ele chorou, eu dei a mão para ele — diz Ana Luísa.

Todos os leitores lembram como José Mindlin ficou fragilizado com a morte da mulher. Os dois foram casados por 70 anos — e era ela a grande incentivadora de sua “loucura mansa”, como ele chamava sua paixão pelos livros. Tanto que Guita se tornou restauradora e encadernadora para ajudá-lo, e a biblioteca na USP leva nome do casal. Pouco depois de ficar viúvo, Mindlin pediu que lessem para ele “As brasas”, de Sándor Márai. Como no romance o protagonista reflete sobre envelhecimento, amor e morte, Cristina Antunes achou que não devia. E deu um jeitinho de fazer outro livro passar à frente.

Na casa da Rua Princesa Isabel, além das leituras, os almoços também eram antológicos, e frequentemente os leitores ficavam para experimentá-los. A professora de psicologia Débora Ferreira Leite de Moraes se lembra bem deles:

— Mindlin pedia que me trouxessem suco de pêra. Dizia que fazia bem para a voz. Ele também me contou a história de todas as plantas no jardim. Sempre havia flores ali. E ele conhecia a época em que cada uma florescia.

Quando Débora chegava, muitas vezes o colecionador estava ouvindo música clássica na sala, outra de suas paixões. Ela também leu trechos de Proust para ele. O bibliófilo, conta a professora, às vezes queria ler de mãos dadas.

— Acho que, além da voz, ele precisava do contato humano — ela diz.

Débora só estranhou quando precisou ler para Mindlin no hospital, em duas de suas internações (ele morreria na segunda delas, aos 95 anos). O ambiente era impessoal, havia barulho, os enfermeiros interrompiam. A experiência provocou algumas mudanças: sua tese de mestrado, que seria sobre escrita e psicanálise, passou a ser sobre leitura. E ela começou a ler em voz alta para o marido, quando voltava para casa.

Durante os anos em que o colecionador não conseguiu ler, vários candidatos a leitores passaram pela sala dos Mindlin. A imensa maioria voluntários. Alguns ficaram muito tempo, outros ele logo dispensou — sem que o motivo ficasse muito claro. A única preferência confessa era pela voz feminina. O bibliófilo dizia que ela causava “menos interferência”.

Memórias da ditadura

Mesmo assim, é curioso que o leitor que passou mais tempo a seu lado, depois de Cristina, tenha sido o doutorando Márlio Silva. Formado em História, Márlio ficou marcado pela leitura de um livro do qual não lembra o nome, mas que falava sobre a ditadura. Um dos poucos empresários que se opuseram ao regime militar, tendo inclusive ajudado perseguidos políticos a sair do país, Mindlin interrompia a leitura a todo momento para contar suas lembranças.

— Foi um testemunho histórico, tentei até anotar algumas coisas. Quando ele falou do (jornalista Vladimir) Herzog, vi que ele ficou emocionado — relembra Márlio.

Quando Herzog foi morto nos porões da ditadura, em 1975, Mindlin era secretário de Cultura de São Paulo. Fora ele que nomeara o jornalista para a direção da TV Cultura. Mindlin logo se opôs à tese de suicídio e defendeu o profissional publicamente. Como consequência do episódio, abandonou a secretaria.

— Ele me disse que só aceitou o cargo porque haviam dito que a abertura política ocorreria em breve, e que ele participaria disso — conta Márlio.

Com tantos olhos emprestados, Mindlin renovou uma experiência que sempre cultivou: a leitura em voz alta. Já criança, ele podia passar horas lendo para a mãe. E fez o mesmo para os filhos. Talvez ele se lembrasse também de Guita. Era um hábito do casal. Nas noites da Rua Princesa Isabel, um lia poesias para o outro antes de dormir. Quando não as sabiam de cor.

Fonte: O Globo

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