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Nas Esporas de um Raio - O Olhar do poeta Diego Mendes Sousa

Literatura por em 2015-08-23 22:27:23

Jean Cocteau salienta, com razão, que se “reconhece um poeta - não pelo estilo - mas pelo olhar”. E o olhar de Diego Mendes Sousa é o fogo de suas metáforas. E se pelas mãos do verso se reconhece um autor, seu olhar está nas mãos, “por ter fogo em suas mãos”. E a frase é do andaluz García Lorca.

Esse olhar, todavia, assinala uma posição romântica no tratamento do amor e certo Simbolismo que permeia as metáforas (lembro dois títulos de livros anteriores: Fogo de Alabastro; Candelabro deÁlamo), que mostra o retorno das escolas com nova face, dentro do Modernismo.

Mas este livro fala de uma viagem. Ela vai de texto em texto e de autor em autor (os poemas todos dedicados). Não é uma viagem, como a de Céline,“para o fim da noite”, mas como se vagasse em rodas de palavras, percorrendo em verso curto, quase atomizado, a busca do coração da terra,  da  pessoa que ama (e tem nome de estrela) e o da poesia. O núcleo central deste palpitar é a volta à Altaíba, lugar imaginário, que vislumbra a Parnaíba, no Piauí, núcleo da infância e o sagrado lugar do nascimento.

Por isso, o poeta salienta, em beleza e profundeza: ”Penetro/ no chão/ abismal/ do grito/ da terra// no escuro / fundo/ da linguagem/ de Deus.//”

Este é o sexto livro do poeta, que demonstra maturidade     conquistada, com que amor se infiltra nas paredes dos poemas. E ser poeta é redescobrir a infância no sonho, pois criar é estar na infância.

Sim, tal poesia é andarilha, tendo um “passar com os pés no escuro”. Com litania suave, andar de silêncios. E as imagens que brotam, uma das outras, como pegadas no chão do desconhecido. E se o sentido da poesia para Borges é “translação”, ou viagem de símbolos, Diego tem nessaromaria, seus próprios mitos, com uma imagética peculiar, original. E a linguagem não retira a realidade, mas a desvenda. Usando a analogia como operação combinatória, em que se elabora como ato de inocência. 

Diz Octavio Paz que “a poesia se ouve com os ouvidos mas se vê com o entendimento”. E essa criação, auditiva e visual se desloca no espaço do tempo.  Tendo o poeta a memória do coração, como queria Kierkegaard.

Diego Mendes Sousa é forasteiro de si mesmo, por ser sua fronteira ou divisa, a alma. E tenta repetir no ritmo “o lado do raio”. O raio da velocidade com que a luz se move entre as palavras. E uma velocidade que assusta. Por ser a verdade assustadora.

Paul Valéry afirmava que “a poesia é o desenvolvimento de uma exclamação”. Ou seja, o espanto diante do universo. Permitindo o aparentedescaminho, para inventar seu próprio som, hibernando dentro da palavra. É ali, o ninho, a cavidade, a miragem, o carretel, a voz de chilreante passarinho. Com entonação singular, voz que identifica um rosto.

E são tocantes e novas as metáforas, a roupa dos poemas: “Assemelhou-se à neblina/ a doce lágrima da avó”... “O coração é uma tempestade/ a própria/ geada”... “Aprendeu a alma/ nas esporas de um raio”... “Morrer:/ o longo dormir// O carretel do coração:/ o pássaro/ a tornar-se ausente.//”... “Estampilhar a alma/ de sinos”... “O mar nunca bate/seus pesados cristais”... “sal /epifânico/ e purificado/ de nome” (...) (A luz) se apaga/na vaga/ do clarão/ e foge”... “A universalidade /sela as estrelas” ... “A sublimação dos animais/ é secreta”...

E secreta é a voltagem do ritmo, as elipses, cintilações, o andar defaca  do  verso  e o verso de faca na alma.

Diego Mendes Sousa é um dos expoentes da poesia na Nova Geração geração, com aguda percepção crítica. Tem vocação de humanista, com sede do universal, que ele próprio acentuou, “a universalidade (que) sela as estrelas”.

E seu livro, Viagem à Altaíba é invenção  generosa, a Pasárgada deste    bardo   da     Parnaíba . Se é vertigem dos sonhos, vertigem da infância que se recupera, também prova que os poetas inventam a realidade, como é a realidade que inventa os poetas.     

Morada do Vento, Vitória, Espírito Santo, 05 de janeiro de 2014.

Carlos Nejar é jurista e escritor.

Da Academia Brasileira de Letras

Da Academia Brasileira de Filosofia

SOBRE O AUTOR

Diego Mendes Sousa é bacharel em Direito, escritor, jornalista, empresário, documentarista, roteirista, promotor cultural e blogueiro literário.

Escreveu os livros DIVAGAÇÕES (2006); METAFÍSICA DO ENCANTO (2008, Prêmio Nacional de Poesia da UBE-RJ); 50 POEMAS ESCOLHIDOS PELO AUTOR ( 2010, Edições Galo Branco); FOGO DE ALABASTRO (2011, Coleção Madrugada); CANDELABRO DE ÁLAMO (2012, Coleção Madrugada); O VIAJOR DE ALTAÍBA (2013, posfácio de Carlos Nejar); ALMA LITORÂNEA (2014);  GRAVIDADE DAS XANANAS (2015) e TINTEIROS DA CASA E DO CORAÇÃO DESERTOS (2015).

Participante do POEMÁRIO (2008, Biblioteca Nacional de Brasília) da I Bienal Internacional de Poesia, que reúne os maiores nomes da poesia nacional e estrangeira.

Recebeu o Prêmio Castro Alves da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro (UBE-RJ) em 2013, pelo conjunto da sua obra.

Como jornalista, tornou-se editor literário de O BEMBÉM, jornal fundado por ele, Benjamim Santos e Tarciso Prado.

Idealizou e dirigiu os documentários O CLARÃO DA EXISTÊNCIA (2010) e ENCENADOR DE FUGA (2011). É de sua autoria, o roteiro de A SENDA E A ALAMEDA DE ASTRID CABRAL (2011) e OS TIGRES DE PRIMAVERA (2011, inspirado na poesia de Lêdo Ivo).

Em seu blog de Artes, no portal www.proparnaiba.com apresenta ensaios e crítica literária.

Promove em sua cidade natal, a Festa da Poesia, homenageando grandes escritores contemporâneos.

É membro titular correspondente da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro (UBE-RJ), da Academia Carioca de Letras (ACL) e membro titular efetivo da Associação Nacional de Escritores (ANE).

Nasceu na Parnaíba, no Piauí, em 1989. Casou-se com Altair Marinho, seu sopro diário de poesia.

FOTOS: Divulgação / Acervo Diego Mendes Sousa

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