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Janny van der Molen responde às perguntas dos leitores brasileiros.

Cultura por Alberto Araújo em 2015-08-26 00:14:22
                

Os desafios de escrever sobre Anne Frank

A autora Janny van der Molen responde às perguntas dos leitores brasileiros.



Quando começou a trabalhar em O mundo de Anne Frank – Lá fora a guerra, a holandesa Janny van der Molen achou que seria uma missão impossível para ela – uma mulher livre, feliz, saudável, mãe protestante – recontar a história que se tornou símbolo dos horrores do nazismo pela perspectiva da jovem judia: “como eu poderia fazer isso de forma honesta e respeitosa?”.

Janny não desistiu e mergulhou de cabeça no universo de Anne, viajando aos campos de Bergen-Belsen e Auschwitz e usando todos os recursos oferecidos pela Fundação Casa de Anne Frank para chegar ao belo resultado que encontramos em O mundo de Anne Frank, um delicado e comovente retrato da jovem.

Em entrevista aos nossos leitores, a autora conta um pouco sobre a pesquisa para o livro – viagens, entrevistas, desafios, curiosidades – e suas expectativas para o encontro com Nanette Blitz Konig durante o Café Amsterdã, evento do qual as duas participarão nas próximas semanas, no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Qual foi sua maior dificuldade ao pesquisar sobre a vida da jovem Anne Frank? (Marcel Koury)

O maior desafio para mim, na verdade, não foi a pesquisa. Tive grande ajuda da Fundação Casa de Anne Frank. Eles têm inúmeras fontes e conhecimento. Nós gastamos muita energia para acertar nos detalhes. Como se pareciam os telefones em 1941, por exemplo, e como funcionavam? Este tipo de detalhe. Mas o verdadeiro desafio, para mim, foi escrever pela perspectiva de Anne. Quando pensamos pela primeira vez neste livro, achei que isso seria impossível (e, de certa forma, ainda penso que é). Como uma mulher livre, feliz, saudável, de (então) 43 anos, mãe protestante, poderia escrever pela perspectiva de uma amedrontada garota judia? Como eu poderia fazer isso de forma honesta e respeitosa? Este foi o maior desafio. As viagens a Bergen-Belsen e Auschwitz foram extremamente importantes para que eu pudesse chegar o mais próximo possível de Anne Frank.

Durante o evento Café Amsterdã, você irá se encontrar com Nanette Blitz Konig, que foi colega de classe de Anne Frank no colégio e que também passou pelos campos de concentração nazistas e que atualmente vive no Brasil. Antes desse encontro, você e Nanette já se encontraram durante suas pesquisas para escrever “O Mundo de Anne Frank”? Além de Nanette, houve outras pessoas ligadas à vida de Anne Frank que você encontrou fora da Europa durante a pesquisa? (Leticia Ramos de Mello Oliveira)

Nunca me encontrei com Nanette.  A Fundação Casa de Anne Frank entrevistou a maioria das pessoas que sobreviveram a Segunda Guerra e eram ligadas à Anne. Nós usamos essas entrevistas. Por exemplo, a história de Anne jogando Banco Imobiliário vem das entrevistas com Ab Rinat e Sal Kimel. A última vez em que Nanette (Nanny, no livro) viu Anne em Bergen-Belsen também vem de uma dessas entrevistas. A única amiga de Anne que encontrei, muito rapidamente, foi Jaqueline van Maarsen. Hannah Goslar (Hanneli, no livro) mora em Israel. Estou feliz por ter a chance de encontrar Nanette agora. Ouvi dizer que ela escreveu sobre suas próprias experiências na guerra e espero poder ouvir um pouco mais sobre isso. Ouvi dizer que, recentemente, ela deu uma entrevista sobre o livro e disse algo sobre a impossibilidade de imaginar o que aconteceu e de encontrar as palavras certas para descrever isso. Tenho grande respeito por ela por tentar achar as palavras certas. É extremamente importante que a historia seja contada.


Como foi escrever sobre Anne? O que você sentiu quando começou a visitar os lugares por onde eles viveram e qual a maior e melhor experiência você pode tirar disso tudo? O que você diria para Anne, caso tivesse a oportunidade de conhecê-la? (Jhanyfer Carvalho)

Foi difícil. Primeiro pensei que seria impossível porque minha vida é tão diferente da dela. Quando passei a “conhecê-la”, fui ficando com mais e mais raiva. Tenho filhos da idade dela… Quando cheguei em Oswiecim, cidade conhecida como Auschwitz, o meu quarto no hotel ficava de frente para a entrada do antigo campo de concentração. Pensei que não seria capaz de dormir, mas consegui. Estranhei isso, mas percebi que precisava de certa distância emocional para conseguir enxergar e depois descrever a minha experiência ali.

Gostaria de contar uma pequena anedota. Viajei primeiro para Bergen-Belsen. Já estava no caminho do meu hotel ao campo quando percebi que não tinha nada para colocar em sua lápide, que, na verdade, é simbólica (as covas contém milhares de corpos – é impossível saber exatamente onde ela foi enterrada). Dirigi até uma floricultura e comprei duas peônias (lindas rosas com muitas folhas), uma para Anne e outra para Margot. Elas eram da cor fúcsia, muito bonitas. Quando achei a lápide, me senti uma burra. Judeus deixam pedras em túmulos, não flores! Eu sabia aquilo! De volta ao hotel, abri o diário de Anne e li sobre como ela havia ficado feliz com as flores que recebeu de Peter e acabei deixando de lado um pouco daquele sentimento de tolice. Quando cheguei em Auschwitz, algumas semanas depois, levei uma pedra de minha casa e a pus perto de um monumento. Mais tarde, naquele mesmo dia, decidi andar até a cidade de Oswiecim. Eu estava cheia de impressões e emoções. Então a coisa mais peculiar aconteceu. Quando andava perto da cerca do campo de concentração, vi grama por todos os lados. De repente, no meio de toda aquela grama, vi peônias de cor fúcsia e comecei a chorar.

Reviver Anne Frank é se sentir personagem daquele contexto em que ela viveu? Foi possível manter distanciamento daquela realidade ou a pesquisa se tornou mais profunda quanto mais você mergulhava de cabeça na história real? (Flavia Pinheiro Guimaraes)

Não, não me senti como um personagem, mas fiquei cada vez mais encantada por Anne. Ela deve ter sido uma garota incrível (e, às vezes, um desafio para seus pais…). Manter uma distância foi, de certa forma, necessário para poder escrever o livro, mas ao mesmo tempo, é claro, é impossível não ficar chocada e com raiva. E nós DEVEMOS ficar chocados, alarmados e com raiva. Essa é a única forma de garantirmos que não esquecemos o que aconteceu. E isso é absolutamente necessário, sempre sermos críticos quanto ao “aqui e agora” e nosso papel em tudo isso.


Qual a importância de Anne Frank para você, a ponto de decidir escrever um livro sobre ela? E como é a Janny van der Molen antes e depois de “O Mundo de Anne Frank – lá fora a guerra”? O que Anne mudou em sua vida? (Carolina Ordonha)

Em 2009, meu livro Heroes foi publicado. É um livro de história para crianças sobre pessoas que mudaram o mundo por causa de sua coragem e ação. Pessoas como Gandhi, Martin Luther King e Nelson Mandela. Anne Frank também foi uma dessas pessoas. Por isso minha editora e a Fundação da Casa de Anne Frank pensaram em mim quando eles planejavam um livro sobre Anne Frank. Antes de 2009, eu já tinha escrito sobre Etty Hillesum, uma adulta que também escreveu um diário e é conhecida no mundo todo. Então a história da Segunda Guerra Mundial não era nova para mim. No entanto eu nunca havia estado em Auschwitz. Quando eu parti para esse verdadeiro campo de concentração, uma funcionária da fundação me disse que o mundo jamais seria o mesmo para mim depois de ter estado lá. E ela estava certa. Quando eu visitei Birkenau, o campo de mulheres perto de Auschwitz onde Anne (e também Etty Hillesum) esteve, eu vi o quão eficientemente os trens chegavam ao campo. A distância para as câmaras de gás era muito pequena, então as pessoas morriam quase imediatamente após a chegada. Eu entendi (é claro que eu sabia, mas lá eu realmente entendi) que havia um grupo de homens, sentados à uma mesa de reunião, discutindo como matar pessoas de forma mais simples possível. A maldade da organização me deixa doente. Então eu acho que eu nunca fui ingênua, mas depois disso me tornei ainda menos ingênua… E acho que estou ainda mais determinada a contar a história. Então, estou convencida de que é necessário manter nossos olhos e corações sempre atentos ao que acontece em nossa sociedade.

Lendo “O Diário de Anne Frank” é perceptível que Anne é uma garota inteligente e muito à frente de seu tempo. Costumo acreditar que Anne teria se tornado uma grande escritora, conhecida não apenas por sua história e possíveis livros escritos, mas por ser também uma defensora ativa dos direitos das mulheres. O que você imagina que Anne Frank seria se tivesse sobrevivido ao Holocausto? (Thayná)

Eu acho que você está absolutamente certa. Ela tinha um grande talento para refletir, observar e descrever. Ela possivelmente teria se tornado escritora ou jornalista. Ela também poderia ser uma ativista. Eu acho que Anne gostaria de estar no ‘palco’. Acho que ela tinha uma personalidade carismática, as pessoas iriam gostar de ouvi-la e ela ia gostar de estar sob os holofotes. Nem todos os escritores são bons oradores, mas acho que ela se sairia bem nas duas coisas. Então, sim: ela provavelmente escolheria um certo tema e se tornaria uma defensora verdadeira e enérgica que as pessoas gostariam de ouvir.

Qual foi o fato (ou situação) mais impressionante ou marcante com o qual você se deparou durante suas pesquisas e entrevistas para esta obra? (Stéphanie Sarli Marconi)

Eu aprendi muito com um comentário de Otto Frank numa entrevista disponível na Fundação Casa de Anne Frank. Nesta entrevista, ele conta que tinha uma excelente relação com Anne, mas que após ler o diário dela ele percebeu que não a conhecia tão bem quanto pensava. Eu estava nervosa por escrever um livro a partir da perspectiva de Anne. Eu achava que isso seria impossível pelo fato de a minha vida ser completamente diferente da dela. Mas quando eu ouvi Otto dizendo isso, eu entendi que nós devemos ser sempre muito modestos e realistas em relação ao que achamos que sabemos sobre outras pessoas. Mesmo como pais (meu marido e eu temos dois filhos, de 13 e 16 anos) nós não sabemos o que está no coração e na cabeça do outro. Uma vez eu disse à minha filha de 16 anos que pensar é de fato a nossa única e fundamental liberdade. Entender isso me fez de alguma forma menos ansiosa sobre Anne. Eu fiz da melhor e mais respeitosa maneira que pude. Espero que isso faça sentido pra você…




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