Rede Mídia de Comunicação | Rede Sem Fronteiras

Você está em: Início > Notícias > Literatura > José Nêumanne Pinto

José Nêumanne Pinto

Literatura por Selmo Vasconcellos em 2015-10-06 11:35:37

                

José Nêumanne Pinto, poeta, jornalista e escritor paraibano.

http://www.neumanne.com/

 

ENTREVISTA

SELMO – Como surgiu seu interesse literário ?

 

JOSÉ NÊUMANNE PINTO - Minha mãe dizia de cor poemas de Castro Alves quando o motor da luz era desligado em Uiraúna, no sertão da Paraíba, antes da chegada da eletricidade de Paulo Afonso. Aquele ritmo me encantou. A fonte de minha vocação literária foi minha mãe, que derramou poesia no Livro do Bebê, no qual ela anotou detalhes de meu primeiro ano de vida.

 

SELMO – Quantos e quais os seus livros publicados dentro e fora do País ?

 

JOSÉ NÊUMANNE PINTO – Só publiquei livros no País. Foram, ao todo, dez, até agora: Mengele, a natureza do mal (romance-reportagem sobre o criminoso nazista); Erundina, a mulher que veio com a chuva (perfil biográfico da ex-prefeita de São Paulo); As tábuas do Sol (poesia); Atrás do palanque (bastidores da eleição presidencial de 1989); Reféns do passado (coletânea de artigos políticos e ensaios); Barcelona, Borborema (poesia); A República na lama (a história da República de Alagoas e da queda de Collor); Solos do silêncio (poesia reunida); Veneno na veia (romance a clef sobre o escândalo dos anões do Orçamento); e O silêncio do delator (romance laureado com o Prêmio Senador José Ermírio de Moraes, da Academia Brasileira de Letras, em 2005, como o melhor livro brasileiro de 2004). Além disso, foi lançado o CD As fugas do sol, pelo CPC da Umes, com poemas meus e trilha sonora do maestro Marcus Vinicius de Andrade.

 

SELMO – Qual a atmosfera propicia aos seus impactos literários ?

 

JOSÉ NÊUMANNE PINTO – Não sei. Até agora não produzi nenhum.

 

SELMO – Quais os escritores que você admira ?

 

JOSÉ NÊUMANNE PINTO – Albert Camus, José Lins do Rego, J. D. Salinger, Castro Alves, Augusto dos Anjos, Walt Whitman, Fiodor Dostoievsky, Guimarães Rosa, William Shakespeare, Juan Rulfo, Panaït Istrati – não necessariamente pela ordem.

 

SELMO – Qual mensagem de incentivo você daria para os novos escritores?

 

JOSÉ NÊUMANNE PINTO – Loucura pouca é bobagem.

 

POESIAS

Ode ao pó

 

Açúcar é assim:
brilho vermelho na melancia,
mancha verde na uva-itália
e na maçã verde,
mas todo branco quando só
e branco inteiro enquanto pó
(força de fortes
droga de débeis).
Gelado e molenga
no sorvete de açaí;
a cara-metade do caramelo,
embebido em compressas,
tostado em fogo lento.
Há açúcar na polpa
e açúcar na papa.
Há açúcar do engenho,
de forno e fornalha.

Açúcar é assado:
o suor do camponês pulverizado,
sacos de cristal na prateleira,
valendo ouro no mercado,
virando merda no organismo,
bela merda,
doce merda,
…merda…

Açúcar é assombro:
à sombra do Hades,
as águas do Ganges;
panaceia do avesso
e dor das paixões
e cor das paixões
se esparramando, líquida,
na esclerose de minhas veias,
minhas veias velhas.
Veneno e garapa,
a mó, o mel, o mal,
a morte feito gosto
invade meu sonho,
me habita o pesadelo
num aviso de sol morno:
o passo lerdo,
o pinto casto,
o cuco morto.
E dá sinais de olho posto:
a vida breve,
a arte curta,
o gole brusco,
a cinza fria,
um dó de peito
e o pó sem fundo,
ao qual haveremos
de tornar
- todos.

 

São Paulo, manhã de 18 de novembro de 2000
José Nêumanne Pinto

 

Poeira das estrelas

 

Do norte do norte
as águias decolam
para voos sem volta.
Lá, tudo começa:
a voz do mudo,
a vez do mundo.
No norte do norte
as águas brotam do solo
e o fogo se consome,
queimando a cera do tempo.
No norte do norte,
mora Deus,
o dono da sorte,
pelo menos à noite.
Lá se consuma o pecado
de cada um,
surgido do zero.
No norte do norte,
da terra é soprado
o barro humano,
bafo de vida.

Ao sul do sul
as águias sempre voltam
de vôos sem ida.
Lá se chega sempre ao nada,
ao nenhum talvez,
decerto a ninguém.
No sul do sul,
as águas se lavam
em si mesmas.
E o fogo se extingue
em cinza morna.
No sul do sul,
Deus vive de dia,
na casa de sempre,
erguida sobre ocos do vazio.
Lá, se colhe
a semente da morte
na seara das virtudes
de todos,
abrigados no sem fim
do infinito.
No sul do sul,
o último sopro,
matéria divina,
solfeja adeuses
em lábios selados.

Entre o sul do sul
e o norte do norte
a leste e oeste, o medo
traça o destino parco
de quem se sente imenso.
Entre o começo do fim
e o fim do começo,
o compasso do verso.
Lá Deus repousa
a sesta do guerreiro da paz
à sombra da luz das estrelas.
O sono divino
vela a angústia do homem
de não se saber
apenas um sonho,
nem sempre um pesadelo,
mas inevitavelmente
uma miragem de fumaça,
uma nuvem opaca
de pó seco
e denso mistério.

Deixe seu comentário, ele é muito importante para nós

* Seus dados não serão exibidos a terceiros.

Publicidade

Veja também