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O Regresso - A última viagem de Rimbaud de Lúcia Bettencourt pela Editora Rocco do Brasil.

Literatura por Alberto Araújo em 2015-10-14 21:46:18
O regresso - A última viagem de Rimbaud - de Lúcia Bettencourt, é o encontro da ficção com a poesia. O romance trata do retorno do poeta Arthur Rimbaud (1854-1881) à França, em seus últimos meses de vida, depois do longo e misterioso período em que passou na África, trabalhando como comerciante de café, traficante de armas e mercador de escravos, entre outras ocupações.

A narrativa revela a trajetória repleta de angústia e rebeldia de um artista atípico, um gênio precoce que escreveu toda a sua obra na adolescência (o “Barco ébrio” e outros poemas fundamentais) e antes dos 20 anos já havia abandonado a escrita. Mesmo assim, influenciou a literatura moderna e também a contemporânea, influência que perdura até os dias de hoje.

A escolha de personagem tão fascinante e contraditório confirma a sensibilidade e ousadia do projeto romanesco da autora, que mistura a primeira e a segunda pessoa num texto de prosa nervosa e, em seus pontos mais altos, poética. É um Rimbaud virado ao avesso, em sua busca particular pela liberdade e pela verdade, aquele que surge das páginas do livro.

O romance inicia com a frase “Não há partida”. Cabe lembrar que Rimbaud foi um andarilho famoso, tendo percorrido boa parte da Europa a pé – Inglaterra, Áustria, Alemanha, Itália, Suécia: “Desde cedo fui especialista em partir. Ensaios a que me levaram minhas longas pernas camponesas, habituadas aos terrenos mais ásperos, e minha eterna inquietude. Começava a andar e era como se o mundo, do qual apenas conhecia a versão por escrito, me chamasse. E, mesmo quando imóvel, viajava.”

Na epígrafe do livro, uma citação – “Silêncio, exílio e engenho” – que traduz a concepção do romance, sua engenharia em dois blocos, uma dupla exposição que é perfeita para retratar um personagem tão ambíguo. Tudo nos é lembrado e contado por um homem no limiar da loucura, sofrendo as dores de um câncer ósseo na perna. Em outro plano, um leitor apaixonado folheia os versos do poeta, como quem os reescrevesse, e refaz a sua biografia. Conjugando de maneira notável História e ficção, Lúcia Bettencourt convida o leitor a um privilégio que só a literatura é capaz de proporcionar: viajar no tempo e penetrar a intimidade de um artista genial.



Queridos leitores


Talvez alguns de vocês já tenham experimentado arrebatamento igual ao que, às vezes, a leitura de um livro me proporciona. Nem todos os livros me deixam assim envolvida, é verdade, mas as cartas do poeta francês Arthur Rimbaud me provocaram uma paixão fora do habitual.

Cheguei a essas cartas por acaso. Estava me preparando para orientar o grupo de leitura que mantenho, há algum tempo. Geralmente lemos clássicos da literatura mundial. Desta vez, no entanto, tínhamos acabado de fazer uma leitura longa, não literária. Tratava-se da biografia de Henrique VIII, escrita por Antonia Fraser. Estava, portanto, faminta por alguma coisa indiscutivelmente literária, algo que me desse um prazer rápido e intenso, que não demorasse a engrenar. Pensei em poesia, só que não costumo trabalhar com poesia. Aos poetas sempre me achego com respeito e devoção, sem discuti-los, para não acontecer comigo o descrito por Machado de Assis, em seu poema “A mosca azul”. Ao deparar-se com a mosca de asas de ouro e granada, o homem curioso quis saber a causa de seu mistério, e assim:

“Dissecou-a, a tal ponto, e com tal arte, que ela

rota, baça, nojenta, vil,

Sucumbiu; e com isto esvaiu-se-lhe aquela

Visão fantástica e sutil.”


Foi então que, numa livraria, encontrei um pequeno livro (em tamanho, mas não em conteúdo) chamado Rimbaud, o filho, de Pierre Michon. Era justamente o que precisava: um livro curto, de transição, que me desse a ocasião de ler poemas fascinantes de um poeta absolutamente enigmático. O romance e os poemas me levaram às cartas, sua única produção escrita após abandonar, radicalmente, a literatura. Descobri, assim, que o final da vida do jovem e lindo adolescente rebelde tinha sido solitário, e que, enquanto ele expirava, enlouquecido de dor num leito de hospital em Marselha, seus poemas, finalmente, começavam a ser publicados.

Aquele fim de vida tão doloroso e angustiado, sem o consolo de ilusões, nem o amparo da família, me deixou enlutada. E também indignada. Por que o talento tinha recebido apenas o desprezo de seus contemporâneos? Por que tantas provações, tantos fracassos? Como testemunhar, daqui, das margens dos livros lidos, o meu respeito por esse viajante que rompeu todos os limites e ousou todos os desafios? Obedeci ao impulso e resolvi recriar sua viagem de volta à França. Ele mostrou-me seu lado de herói falhado, tal como Odisseu, outro náufrago, que nos dá a maior das lições de todas: falhar é permitido, pois nossa história é a narrativa de nossos naufrágios, desvios e descaminhos. E que o regresso é encontrar o caminho de volta para nosso verdadeiro eu.

Neste mundo de “paraísos artificiais”, palavras de outro poeta, Baudelaire, que já anunciava a modernidade, Rimbaud nos mostra todas as cores do inferno em nosso caos de cada dia, em nossas inevitáveis falhas, em nossos desregramentos morais que nos põem a nu num planeta que, assim como nós, mostra os sinais de sua própria destruição. Rimbaud resgata nosso direito à falha, à imperfeição, à incoerência e ao erro. Ele nos leva ao desafio e ao desespero. Ele nos traz, de volta, o zumbido da mosca que, apesar de azul e linda, ainda se deixa atrair pelo lixo.

Terei muito prazer caso desejem me acompanhar nesta viagem. E, sobretudo, neste novo funeral que organizo com o respeito e a emoção devida a Arthur Rimbaud.


Lúcia Bettencourt.



 


Lúcia Bettencourt é escritora e ensaísta. Recebeu o Prêmio SESC por seu livro de contos A secretária de Borges (Record, 2005), o prêmio de ensaio da Academia Brasileira de Letras pelo volume O Banquete: uma degustação de textos e imagens (Vermelho Marinho, 2012), além dos prêmios Josué Guimarães e Osman Lins pelas histórias depois incluídas em Linha de Sombra (Record, 2008). O regresso é sua estreia na Editora Rocco.


O regresso - A última viagem de Rimbaud

Autor: Lúcia Bettencourt

Editora: Rocco

192 pp. | 14 x21 cm

ISBN: 978-85-325-3012-7

Assuntos: FICÇÃO – ROMANCE/NOVELA, FICÇÃO NACIONAL


 visite o site:

 http://www.rocco.com.br/index.php/blog/lancamentos-de-outubro-2/ 


 

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