Rede Mídia de Comunicação | Rede Sem Fronteiras

Você está em: Início > Notícias > Literatura > Grecianny Cordeiro

Grecianny Cordeiro

Literatura por Selmo Vasconcellos em 2015-10-20 22:18:22

    

 

SELMO VASCONCELLOS – Quais as suas outras atividades, além de escrever?


GRECIANNY CORDEIRO –Sou Promotora de Justiça do Ceará e atuo em uma vara criminal em Fortaleza. Também escrevo semanalmente artigos para o Jornal O Estado, em Fortaleza.


SELMO VASCONCELLOS – Como surgiu seu interesse literário?


GRECIANNY CORDEIRO –Por meio de intensa leitura ainda na adolescência, foi surgindo o interesse em escrever livros. Aos quinze anos já iniciava a escrever meu primeiro romance. A paixão pelos livros, pela leitura, foram decisivos.


SELMO VASCONCELLOS – Quantos e quais os seus livros publicados?


GRECIANNY CORDEIRO – Ao todo, tenho cinco livros já publicados. Os dois primeiros são jurídico: PENAS ALTERNATIVAS – UMA ABORDAGEM PRÁTICA e PRIVATIZAÇÃO DO SISTEMA PRISIONAL BRASILEIRO,editora Freitas Bastos – RJ, ambos na 2ª edição. Os demais são romances: ANJO CAÍDO, TROIA – UMA VIAGEM NO TEMPO e MARCAS DA INOCÊNCIA. Agora em setembro estarei lançando o livro POEMAS A QUATRO MÃOS, em parceria com o poeta carioca Luiz Gondim.


SELMO VASCONCELLOS – Qual (is) o(s) impacto(s) que propicia(m) atmosfera(s) capaz(es) de produzir literatura?


GRECIANNY CORDEIRO –O escritor é um eterno observador e ele geralmente se volta para um tema que desperta sua atenção e interesse. Vario bastante os temas que escolho abordar, mas procuro sempre levar uma mensagem de alerta ao leitor, de mostrar-lhe realidades muitas vezes desconhecidas para a maioria, questões como o tráfico de mulheres, o tráfico de órgãos, por exemplo. Para aquele que não vive apenas da literatura, como eu, qualquer ambiente deve se mostrar propício para escrever. Havendo tempo, a inspiração chega. E quando o tempo parece não existir, a gente arranja tempo para escrever, nem que seja a conta gotas.


SELMO VASCONCELLOS – Quais os escritores e poetas que você admira?


GRECIANNY CORDEIRO –São tantos escritores e poetas que fica difícil: os clássicos: Homero, Shakespeare, Emily Brönté, Machado de Assis, Érico Veríssimo, Rachel de Queiroz, Fernando Pessoa, Carlos Drummond… Ken Follet, Dan Brown, Günther Grass… Gosto muito de literatura contemporânea, de conhecer novos autores, como a safra de autores policiais escandinavos, os brasileiros Eduardo Spohr, Chico Buarque e Ediney Silvestre… São tantos que certamente acabarei cometendo muitas injustiças por não citá-los. Adoro conhecer novos gêneros literários, novos estilos e narrativas, ficção, não ficção, ficção extraordinária, enfim, leio tudo.


SELMO VASCONCELLOS – Qual mensagem de incentivo você daria para os novos escritores?


GRECIANNY CORDEIRO –Escrever exige disciplina, entrega, amor, perseverança. O caminho é árduo mas vale a pena, porque o que importa é o amor pela escrita, o resto é pura consequência.

 

ABANDONO

 

Um dia fui criança.

Mas era diferente de todas as outras.

Para começar, fui abandonado logo ao nascer pela minha mãe, que disse às enfermeiras da maternidade que eu deveria ser “dado” para alguém, senão ela mesma me mataria.

Nunca soube quem foi meu pai, desconheço qualquer informação a seu respeito. Nunca imaginei seu rosto ou sua voz. Nunca me foi dada a oportunidade de imaginar como ele seria.

Com poucos meses de vida fui adotado por uma mulher que tinha duas filhas e desejava muito um filho varão.

Fui amado e querido por essa nova mãe, aliás, a única mãe que conheci, a única a quem amei. E como a amei!

Mas a sorte nunca pareceu estar mesmo ao meu favor.

Quando estava com quatro anos de idade, minha mãe adotiva conseguiu engravidar e pariu o desejado um filho homem, cujo lugar ocupava até então.

Como um computador ultrapassado ou uma bicicleta velha, fui deixado de lado e não demorou a que minha mãe adotiva quisesse me passar adiante.

Fui maltratado, desprezado e humilhado.

E eu que achava que amor de mãe era para sempre, era o amor mais puro que existia.

Perambulei pelas ruas feito um renegado, feito gato doente, feito o criminoso mais vil.

Minha mãe simplesmente me deixou de lado e não me dedicou mais um minuto de sua atenção, não recebi mais um carinho seu, um sorriso, um afago sequer.

Conheci a fome, a miséria, o frio, o medo, dormi ao relento.

Conheci a vida nas ruas, as drogas e a prostituição.

Quando fui resgatado por um programa do governo que ajuda crianças abandonadas, já não tinha quase nenhuma vontade de viver.

Queria apenas sobreviver, por puro instinto.

No abrigo para crianças abandonadas conheci pessoas bondosas, de sorriso meigo, de gestos amáveis que muito me fizeram lembrar a mãe que um dia tive, embora provisoriamente.

Ali descobri ter talento para a pintura e logo me vi no meio de telas e aquarelas, de tintas acrílicas, de estiletes, de pincéis.

Entre os rabiscos que tracei e as cores que pintei, lá estavam sempre paisagens idílicas, sorrisos de mulher e crianças brincando, recriei um mundo que nunca tive, recriei em quadros os meus sonhos de um garoto amado e com um lar de verdade.

Na pintura recriei sonhos e esperanças, curei minhas dores e temores.

No marulho das ondas batendo num penhasco mergulhei minhas lágrimas nas opacas tintas que misturei.

Nas flores de um imenso jardim que desenhei e colori com as mais vivas cores, procurei semear o perdão,

Pelo abandono,

Pelo sofrimento,

Pelas dores na alma.

Se perdoei, não sei, pelo menos, tentei.

 

*****

CANTO DE SEREIA

 

Habilidade no falar

Quase encantamento, canto de sereia, suave distração

Tão envolvido estavas

Não percebeu sequer

O quanto deixou de ouvir

Os segredos incontáveis, mais profundos

Que me enchi de coragem para revelar

Não soubestes ouvir

O barulho da batida fraca de um coração sangrando

Não soubestes ver

A tristeza do olhar

Tão encantado estava com o teu próprio falar.

*****

Deslumbres

 

Caras, bocas, cabelos

Roupas, sandálias, bolsas

Beleza, sensualidade

Máscaras nada sutis

Nem por isso reprovadas

Ao contrário, incentivadas, desejadas, copiadas

Que importa o ser? Basta o aparecer

Sem que o saibas

Sem que ninguém esperasse

A discrição passou na rua

E roubou a cena

Simplesmente chamou a atenção.

 

   

Deixe seu comentário, ele é muito importante para nós

* Seus dados não serão exibidos a terceiros.

Publicidade

Veja também