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Eduardo Tornaghi

Literatura por Selmo Vasconcellos em 2015-11-03 22:40:33

                

Cheguei aqui em 1951, no RJ. Família grande, me ensinou a brincar com as artes. É o que tenho feito desde então. Nesse ínterim, me formei em Psicologia (que não pratico), fiz militância política, social e pedagógica, trabalhei com vendas, computadores (antes de haver comp. pessoal), teatro, televisão, fui empresário (fali todas as vezes que tentei) e, principalmente, dei aulas. Pra população de rua, em presídios, em acampamento de sem-terra, prostíbulo e nos endereços elegantes da elite e da classe média. Há quinze anos me juntei à Selma e, com ela, minha melhor obra: Kalu e Bibi, que você já deve ter visto no blog http://papopoetico.blogspot.com/

ENTREVISTA

SELMO VASCONCELLOS – Quais as suas outras atividades, além de escrever ?

EDUARDO TORNAGHI – Agitação cultural em geral. Dou aula de interpretação, dirijo e coordeno grupos de cultura na periferia, milito no Mov. Humanos Direitos (Mhud), e principalmente, crio duas lindas filhas

SELMO VASCONCELLOS – Como surgiu seu interesse literário ?

EDUARDO TORNAGHI – De família. Cresci vendo todo mundo à minha volta lendo, literatura era conversa comum, brincávamos de “tirar versos”, foi um espanto quando descobri que não era assim em todas as famílias.

SELMO VASCONCELLOS – Quantos e quais os seus livros publicados ?

EDUARDO TORNAGHI – Só o “Matéria de Rascunho”. Só fui me atrever a escrever de verdade há pouco tempo, uns 5 anos. Antes era só leitor. Cheguei a colaborar em revistas e jornais com artigos, mas sempre de uma forma fortuita.

SELMO VASCONCELLOS – Qual (is) o(s) impacto(s) que propicia(m) atmosfera(s) capaz(es) de produzir seus trabalhos poéticos ?

EDUARDO TORNAGHI - Isso não sei responder. Da solidão à euforia, tudo serve. Honestamente, o que me faz trabalhar mesmo é algum tipo de encomenda, senão não passa pro papel. O livro só saiu quando eu me encomendei e marquei uma data limite.

SELMO VASCONCELLOS – Quais os escritores que você admira ?

EDUARDO TORNAGHI - Todos. Admiro a coragem de escrever. Gosto até de literatura ruim, sempre expressa uma alma. Pra não deixar de citar uns favoritos (todos eu não consigo), Guimarães Rosa, Mario de Andrade, Bandeira, Jorge de Lima, Graciliano Ramos, Cervantes, Pessoa, Cortázar, Murilo Mendes, Cecilia, Hilda Hilst, Nelson Rodrigues, Borges, todos os russos, Lima Barreto, Joyce, Montaigne etc.

SELMO VASCONCELLOS – Qual mensagem de incentivo você daria para os novos poetas ?

EDUARDO TORNAGHI – Vai fundo! Se expressar demanda coragem, mais que se imagina, portanto escreva até chegar ao ponto em que seja natural tocar o mistério. A verdadeira expressão, a que vale realmente à pena, sempre nos provoca um certo medo e vergonha, já que revela. Antes disso ainda estamos arranhando a superfície. Enfrentar esse medo é que nos liberta.

POEMAS

MMC

MuriLeminskiano

Cada poema uma face
dentre as quase mais de mil
cada rosto um pé de alface
tomate alcaparra abio
Cada cara uma faceta
das tantas que a gente tem
óculo lente luneta
não decifram quem é quem
Já o poema que nasce
no que se viu ou ouviu
como um espelho se faz
alfarrábios ponto til

***

Hélas

Maria Fernanda
Ô vida engraçada
sem dor vale nada

***

I

Deixar correr pelo papel a mão

solta
sem ciência
sem direção

curtir mais
a cor da tinta
a curva da linha
o sentido do traço

Que
o sentido do troço
o ângulo do logos
o brilho da oclusão
Deixar pelo papel correr a mão

II

Deixar pelo papel a mão correr

e ver depois
se desenhos
ou palavras

se riscos
ou recados

Lembrar sempre
que desenhos são palavras
palavras são desenhos
e todos são riscos
todos são recados
Depois respirar fundo
mergulhar na inspiração
até calar a Babel
então ao expirar

Deixar correr a mão pelo papel

III

Deixar pelo correr a mão papel

e que a mágica se repita
mil e tantas e muitas vezes
até que a mão se solte
ligando-se assim à fonte
à cascata do aguadeiro
que generosa se derrama
levando o que é vivo a brilhar
até ser capaz
de passar a luz adiante
Deixa

***

Viva Odete Lara

Quem cansa não é a ladeira,
é a pressa.
Do lado de fora a primeira,
a outra, de dentro,
é que estressa.

Questão de saber:
a quem o cansaço interessa

***

Hedonismo

À minha frente à esquerda,
A minha frente, esquerda.
Imagem invertida,
apenas um duplo,
amor limitado,
coisa pouca.

Espelho só se pode beijar na boca

***

Pôr-de-sol

-em tempo de luz elétrica-

Vendo
Lendo
pela primeira velha vez
a mesma luz antiga

sente-se a lenda amiga
ancestral
desvanecer-se

antes verdades / visão ambígua
Urano negado em neon

***

Agrade
à grade

É tempo de
agradar
à grade

Tempo de
agradecer
à grade
Agro tempo
agora
Hora de
fugir do vadio
encarar o vazio
Nosso Tempo
Nossa chance

***

Pobres carentes

Alguns de comida
outros de caráter
muitos de carinho
todos de respeito
nós
cada um do seu jeito
todos iguais

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REGINA ALTO

que poetemos juntos infinitamente embriagai-vos-de poesia

Denise Moraes

Uma entrevista que transmite o lado humano do ator tão carismático, e cito que sua beleza e encenação nas novelas, passavam sempre tudo isso. Parabéns Selmo, por nos proporcionar essa entrevista, para conhecermos um pouco mais sobre Eduardo Thornaghi.

SANDRA

Suas entrevistas são sempre muito agradáveis de se ler, e os entrevistados sempre são pessoas com grande bagagem cultural e lições de vida que só vem a acrescentar, agregando mais e mais valores à vida da gente. Parabéns!!

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