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Gilberto Mendonça Teles

Literatura por Selmo Vasconcellos em 2015-11-10 11:28:27

                

Possui graduação em Letras pela Universidade Católica de Goiás (1956) , graduação em Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidade Federal de Goiás (1957) , especialização em Curso de Especialização pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1974) , especialização em Língua Portuguesa pela Universidade de Coimbra (1965) e doutorado em Linguística e Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (1969) . Atualmente é Professor Pleno Emérito da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Cadeira nº 44 da Academia Brasileira de Filosofia, Professor do Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora e Membro de corpo editorial do Coleção Ensaios (Rio de Janeiro). Tem experiência na área de Letras , com ênfase em Literatura Brasileira.

SELMO VASCONCELLOS – Quais as suas outras atividades, além de escrever ?

GILBERTO MENDONÇA TELES - Toda a minha vida está ligado ao ato de escrever, pois sou poeta, crítico e professor de literatura. Mas veja uma síntese das minhas atividades na semana, a partir das 6 da manhã. Tomo café às 7, almoço às 12 e trabalho à tarde (leio,escrevo, atendo pessoas e dou uma saidinha à noite, por uma hora, por aí). A mesma coisa na terça, sendo que, nas terças e quintas, das 7 às 8, faço hidroginástica. Assim, nos demais dias úteis, seleciono os convites a que devo comparecer, e a que raramente compareço.No sábado vou para meu apartamento na Barra da Tijuca, onde quase sempre fico relendo o que escrevi durante a semana. Domingo vejo jogo do Flamengo, se o Flamengo joga.

SELMO VASCONCELLOS – Como surgiu seu interesse literário ?

GILBERTO MENDONÇA TELES – Penso que foi dos livros que minha mãe lia e dos textos de antologia nas aulas de português. A partir deles fui-me aventurado nos livros de uma biblioteca pública perto do Liceu. Matava as aulas de ginástica (ou alguma outra chata, desenho, por exemplo) e ficava lendo romances na biblioteca. O resultado é que, pela primeira e única vez na minha vida, fiquei para exame de segunda época, por falta às aulas. Houve também uma vizinha (mulher de um médico) que, nos meus 17 anos, me paquerava e me oferecia livros para ler em casa.

SELMO VASCONCELLOS – Quantos e quais os seus livros publicados dentro e fora do País ?

GILBERTO MENDONÇA TELES - No país, 20 (vinte) de poesia e 19 (dezenove) de crítica; no estrangeiro: 19 (dezenove) de poesia e 5 (cinco) de crítica. Juntando tudo, já publiquei cerca de 70 (setenta) livros, pois há alguns para sair.

SELMO VASCONCELLOS – Qual (is) o(s) impacto(s) que propicia(m) atmosfera(s) capaz(es) de produzir literatura ?

GILBERTO MENDONÇA TELES – Tranquilidade: estar em dia com a sua vida exterior para que possa descobrir a paz criadora da vida interior.

SELMO VASCONCELLOS – Quais os escritores que você admira ?

GILBERTO MENDONÇA TELES – Brasil: são muitos, entre os poetas: Gonçalves Dias, Casimiro de Abreu, Castro Alves, Bilac, Augusto dos Anjos, Raul de Leoni, Mário de Andrade, Drummond, João Cabral. Entre os prosadores: José de Alencar, Machado de Assis, Lima Barreto, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa e José J. Veiga. No estrangeiro, são todos os que li e venho lendo e que já não sei bem dizer quais.

SELMO VASCONCELLOS – Qual mensagem de incentivo você daria para os novos poetas ?

GILBERTO MENDONÇA TELES – O que Baudelaire disse: “Tenho dó dos poetas que não conhecem a sua arte – eu os julgo incompletos”. Portanto: ler, estudar, aprimorar o seu conhecimento e, assim, a sua autocrítica.

Meus Outros Anos

Eu me lembro, eu me lembro, Casimiro,
no meu São João, no meu Goiás, na aurora
da minha vida, eu li o teu suspiro,
li teus versos de amor que leio agora.

E que meu filho lê, e todo mundo
sabe de cor, de coração, de ouvido,
desde que sinta o apelo mais profundo
de tudo que tem força e tem sentido.

Contigo comecei a ver e vi
as coisas mais comuns – o natural:
o rio, a bananeira, a juriti
e a tarde que cismava no quintal.

Contigo descobri a travessia
do tempo na manhã, no amor, no medo,
nos olhares da prima que sabia
a dimensão maior do meu brinquedo.

E até este confuso sentimento,
esta ideia de pátria, que persiste,
veio de teus poemas, no momento
em que tudo era belo e apenas triste

era pensar no exílio e ver no termo
um motivo de doença e de pecado;
triste era imaginar o poeta enfermo,
tossindo os seus silêncios no passado.

Eu me lembro, eu me lembro! e quis de perto
ver o teu rio, teu São João, teu lar;
ler a poesia desse céu aberto
que continuas a escrever no mar.

CHÁ DAS CINCO
para Jorge Amado

Chá de poejo para o teu desejo
chá de alfavaca já que a carne é fraca
chá de poaia e rabo de saia
chá de erva-cidreira se ela for solteira
chá de beldroega se ela foge ou nega
chá de panela para as coisas dela
chá de alecrim se ela for ruim
chá de losna se ela late ou rosna
chá de abacate se ela rosna ou late
chá de sabugueiro para ser ligeiro
chá funcho quando houver caruncho
chá de trepadeira para a noite inteira
chá de boldo se ela pedir soldo
chá de confrei se ela for de lei
chá de macela se não for donzela
chá de alho para um ato falho
chá de bico quando houve fuxico
chá de sumiço quando houver enguiço
chá de estrada se ela for casada
chá de marmelo quando houver duelo
chá de douradinha se ela for gordinha
chá de fedegoso pra mijar gostoso
chá de cadeira para a vez primeira
chá de jalapa quando for no tapa
chá de catuaba quando não se acaba
chá de jurema se exigir poema
chá de hortelã e até amanhã
chá de erva-doce e acabou-se

(pelo sim pelo não
chá de barbatimão)

PERCEPÇÃO

O mundo te rodeia de cercas e desejos,
te comprime no refúgio de teu quarto
e te restringe à lâmina das coisas
no seu fino acontecer.

Todavia, o amor é para toda a vida,
é para sempre e um dia e mais talvez:
o amor te prende às palavras e te liberta
na invenção de alguns códigos e silêncios.
É possível que a tua cota de realidade
seja agora por demais excessiva
e
apenas te deixe perceber os possíveis
de outros planos e subversões.

Vê como as cortinas disfarçam o teu olhar,
como as ruas se enrodilham aos teus pés
e como algumas veredas vão desaparecendo
nos teus desertos e viagens.
Que seria de ti sem os teus espelhos?
sem a jarra-de-flores que guarnece
o espaço dessa mesa de pernas para o ar,
com velhas catacreses da gaveta?

É para ti que as águas vão polindo
os sentidos desse único sentido
ainda vulnerável, mas perdido na cena,
no espetáculo obsceno de ti mesmo.

CONVITE

Vem comigo para dentro
da palavra multidão:
de mãos dadas somos vento,
somos chuva de trovão.
Se uma andorinha sozinha
não pode fazer verão,
vem comigo mais ainda
para dentro da expressão.
Cada letra tem seu ninho
de palavras no porão:
vem tirá-las de seu limbo,
vem fazer tua oração.
Dentro de cada palavra,
no seu timbre e elocução,
saberás de peixe, cabra,
de liberdade e quinhão.
E até na palavra nova,
bliro, ilhaval e zirlão
alguma coisa se dobra,
tem sentido a sedução.
Pega portanto uma letra,
pega a palavra invenção
e transforma em borboleta
um risco arisco no chão.
É no centro da linguagem,
no seu silêncio e pressão,
que se dedilha uma casa,
que se desenha a canção.

TEATRO DE ARENA

Estou desempenhando o meu papel-
carbono: aqui está o seu nome
como uma tatuagem no meu peito.
Aqui, o acetinado para as suas mãos
e o aéreo para uma viagem clandestina.

Já fui como um papel almaço
muito bem pautado e com margens
para as emendas e correções.

Amanhã serei algum papel de embrulho
se não for um desses papéis de oficio
com timbre e protocolo para comunicar
oficialmente a seu marido

que entrei em gozo de férias
ou de licença-prêmio com você.

Hoje eu sei me transformar
nos papéis mais difíceis:
ser bufão como um papel bouffant,
faminto como um papel de arroz,
discreto como um papel de alcova,

fino como um papel de linha,
sensual como um papel de rolo
para as nossas abluções.
Mas também um autêntico linha-d’água
só para ver você na contraluz.

Já representei papéis estrangeiros:
China, Índia, Holanda, Japão.
Você pode fazer de mim o seu correio,
o seu papel-moeda ou papelão.

Quando você me receber, não me olhe de soslaio,
apesar de ser muito bonita esta palavra.
Me olhe de banda, que é a coisa mais linda,
e me guarde no bolso da calça, bem em cima
daquele sinal na coxa esquerda.
Depois, antes que alguma coisa aconteça,
me tire da cabeça.

Um dia,
quando a roupa voltar da tinturaria
e este poema perder seu significado,
você me encontrará todo enrugado:

— Que papel será este? E por capricho
me deitará no lixo.

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