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Alberto Bresciani

Literatura por Selmo Vasconcellos em 2015-11-23 23:01:57

                


Alberto Bresciani nasceu no Rio de Janeiro e passou a infância e a adolescência entre o Rio de Janeiro, Paraíba do Sul – RJ e Juiz de Fora – MG. Graduado em Direito pela Universidade Federal de Juiz de Fora, é magistrado desde 1988, aprovado em concurso público do Tribunal Regional do Trabalho da 10ª Região, com sede em Brasília – DF, onde foi juiz substituto, juiz titular e desembargador. Em 2006, foi nomeado ministro do Tribunal Superior do Trabalho. Publicou os livros “Incompleto movimento”, em 2011, e “Sem passagem para Barcelona”, em 2015, ambos de poesia, pela José Olympio Editora. Tem poemas e contos em blogues, portais da internet, jornais e revistas especializadas.


SELMO VASCONCELLOS – Quais as suas outras atividades, além de escrever?

ALBERTO BRESCIANI – Eu sou juiz do trabalho, de carreira. Hoje, componho o Tribunal Superior do Trabalho, em Brasília. É também um trabalho de escrever. De escrever e de ler muito, aliás. Recebemos processos do país todo, o que representa, para cada um de nós, mais de mil por mês. Além disso, tenho muitas bromélias e suculentas, plantas que são resistentes e não demandam tanta atenção.

SELMO VASCONCELLOS – Como surgiu seu interesse literário?

ALBERTO BRESCIANI – Desde muito pequeno, ganhei livros. Os livros sempre estiveram comigo. E as histórias. Lápis e papel, ímãs irresistíveis. Uma leitura se seguiu à outra, criando essa obsessão por ler e ler, que nos enriquece e castiga a todos. Tantos livros, chamando por leitura e o tempo tão escasso.

SELMO VASCONCELLOS – Quantos e quais os seus livros publicados  

ALBERTO BRESCIANI – Publiquei já bem tarde. Tenho dois livros de poemas publicados, Incompleto movimento, de 2011, e Sem passagem para Barcelona, de 2015, ambos editados pela José Olympio. Também participo de algumas coletâneas: Hiperconexões: realidade expandida, da Editora Patuá, organização do Luiz Brás; Outras ruminações, da Dobra Editorial, organização de Reynaldo Damazio, Ruy Proença e Tarso de Melo, Littérature bresilienne contemporaine, publicação conjunta da Revista Pessoa e da Sorbone, de Paris, algumas outras. Também tenho poemas e pequenos contos em revistas impressas e eletrônicas, jornais, portais e blogues da internet.

SELMO VASCONCELLOS – Qual (is) o(s) impacto(s) que propicia(m) atmosfera(s) capaz(es) de produzir poesias ?

ALBERTO BRESCIANI – Antes de mais nada, a leitura, que traz o desprendimento da rotina e do chão. Quanto mais leio, mais escrevo. A vida, seja ela muita, seja pouca, com suas perplexidades, suas “surpreendências”, roubando o neologismo de Evandro Affonso Ferreira. Impulsos não classificáveis.

SELMO VASCONCELLOS – Quais os escritores que você admira ?

ALBERTO BRESCIANI - Admiro todos aqueles que se aventuram pela literatura. Aqueles que trazem a inimitável chama do talento, que é deles, mas também de seus leitores. Esses artesãos do novo, do estranhamento, dos impactos e deslumbramentos. Aqueles que talvez não possuam esses presentes dos deuses, mas insistem e moldam suas vidas pelo fazer literário. Tantos bons nomes, em todos os séculos, gêneros, idades.

SELMO VASCONCELLOS – Qual mensagem de incentivo você daria para os novos poetas ?

ALBERTO BRESCIANI – A eles diria que nunca deixem de ser jovens poetas. Que não fechem os olhos ao presente, ao tempo em que estão vivos, com todas as suas belezas, contradições e horrores. Que leiam. E que escrevam muito. E sempre.

 

QUANDO ELA FOI PARA BREMEN

 

I

 

No último dia

ela disse eu te amo

não posso engolir o desejo

por mais cinco milhões de anos

Foi então como se tudo descansasse

as sombras se levantaram

e cada cor estava nua

em sua própria luz

 

II

 

Brevemente

 

III

 

Com a cabeça ainda apoiada

os ombros ardiam

eram carvão chama ácido

o corpo queimava

e esmagou-o a rocha

 

Já não podia tocar seu rosto

embora o visse

em janelas fechadas

nas coisas que caem racham

não se curam e matam

 

HENRIETTE D’ANGLETERRE

 

I

 

O poema terminado

falo de gravatas novas

da armação que comprei

depois de ir ao cinema

Henriette d’Angleterre

no conto relembra

três dedos de prosa

 

II

 

Imagino o poema

suficiente em forma

Talvez o pudesse ler

em voz alta

e me diria que sim

é isso

Faço assim

insisto

não quero aprender

o silêncio

o seu

tão vasto

sob os nós

de uma noite

sem volta

 

ESTRANGEIRO

 

Você tece uma corrente

de desejos e a deixa

ao longo do labirinto

esperando encontrar

qualquer caminho

capaz de apagar

medo erros vazio

 

Você cava trincheiras

e se esconde se cobre

de trapos poeira lama

Quer que esqueçam

insultos e armas

Quer que lembrem

seu nome seu grito

 

Você se tranca no banheiro

e abre a torneira

Você chora mil rios

um mar de monstros

Você dá com o espelho

Só encontra

o mesmo estrangeiro

 

SAFRAS

 

Quem confirma

se a consciência

um dia

escapará

 

e com ela

os registros holográficos

das violências recusas traições

das mortes da avó

e do galo de estimação

 

Talvez se apague o terror

do suplício público

e dos enforcamentos

no patíbulo do quarto

 

Pode ser que um dia

fique apenas

este sussurro

bom por dentro

 

Saber a identidade

da planta suculenta

e se há de florir

 

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