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RICARDO RAMOS FILHO - seriedade e compromisso com o texto.

Literatura por Sandra Hasmann em 2015-12-02 14:41:09

Entrevista RICARDO RAMOS FILHO

Segundo Friedrich Nietzsche, em 'Humano, Demasiado Humano’,numa humanidade tão altamente desenvolvida como é a atual, cada um, por natureza, recebe em dote, acesso a muitos talentos. Cada qual tem talento inato, mas só a poucos é dado por nascença e por meio da educação o grau de tenacidade, persistência e energia, para que o indivíduo se torne, realmente, um talento, para que, portanto, venha a ser aquilo que é; ou seja, traduza isso em obras e ações”.

Lendo isso, pus-me a pensar nos mais diversos talentos e virtuoses das artes/literatura/ciência desse nosso mundão afora, e seus herdeiros. A grande maioria deles sofreu ( e continua sofrendo...) cobranças por conta dessa herança muitas vezes tida como maldita ( e em muitos casos é isso mesmo...), e isso é algo que esses herdeiros acabam por perpetuar através de gerações, criando um estigma.

Felizmente não é regra geral. Temos filhos, netos e demais descendentes de pessoas notáveis, que perpetuam as virtudes de seus ancestrais tendo como primícias seu próprio esforço, seu dom inato, agregando, portanto, valor à história familiar. E esse é o caso do notável Ricardo Ramos Filho...

Escritor, com livros editados no Brasil e no exterior, Ricardo Ramos Filho é Mestre em Letras no Programa de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Desenvolve pesquisa na área de literatura infantil e juvenil, aonde vem trabalhando academicamente Graciliano Ramos, privilegiando o olhar sobre seus textos escritos para crianças e jovens. Ministra diversos cursos e oficinas literárias: como aprimorar o texto, literatura infantil, roteiro de cinema, poesia, conto, crônica, romance, assim como encontros de grupo que tenham como foco a leitura, a literatura e o desenvolvimento pessoal por meio das diferentes manifestações artísticas.

É roteirista de cinema com roteiros premiados. Atua como Coach Literário, orientando clientes na elaboração de seus livros. É cronista do Escritablog, publicando no espaço “Palavra de Cronista”. Participa como jurado de concursos literários como Proac, Portugal Telecom, Prêmio São Paulo de Literatura.  É vice-presidente da União Brasileira dos Escritores (UBE), São Paulo. Como sócio proprietário da Ricardo Ramos Filho Eventos Literários, cria e produz eventos culturais. Possui graduação em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1986).

Segundo Ricardo, “todas as atividades colocadas são importantes. Gosto de ser considerado escritor de livros para crianças e jovens em primeiro lugar. A atividade de Coaching Literário também é importante. Ajudar quem deseja escrever é estimulante. Tenho uma empresa de eventos literários. Ela está crescendo muito. Ser neto de Graciliano é circunstancial, mas sempre provoca curiosidade. Respondo com paciência sobre o fato. Cada vez trabalho menos com roteiro”.

Entre seus inúmeros livros, destacam-se:

*  Computador sentimental (vencedor do prêmio Adolfo Aizen de melhor livro juvenil em 19930,

* O pinguinho de letra,

* Se eu não me chamasse Raimundo (a ideia para esse livro  surgiu após o pedido do Instituto do Câncer Infantil do Agreste, em Caruaru, para batizar o bloco de quimioterapia do hospital com o nome de "A Terra dos Meninos Pelados". As crianças da instituição tinham acabado de ler o primeiro livro infantil de Graciliano, que conta a história de Raimundo, um menino careca que tem um olho preto e outro azul e que se refugia na imaginação para construir um mundo onde todos são como ele);

* O livro dentro da concha;

* A nave de Noé.

Encontrei-me com Ricardo e sua linda esposa Maristela quando cobria, com a colega Betty Silberstein, a festa de aniversário da Scortecci Editora, para o Jornal Sem Fronteiras. Como não poderia deixar de ser, solicitei uma entrevista, a qual ele gentilmente concedeu, falando sobre sua  família de escritores, sua relação com a obra do avô, e seu brilhante trabalho.

Confiram abaixo:

 

1)      Inevitável, sendo você neto do renomado escritor Graciliano Ramos, não associarem teu talento, tua obra e tua personalidade à dele. Isso o incomoda?

 

É verdade, acabam associando. Já me incomodou mais.  Depois de muito tempo de estrada, meu primeiro livro foi publicado em 1992, consigo encarar com maior naturalidade. Até por compreender, achar normal quererem encontrar similaridades. Afinal, sou a terceira geração de escritor, fizeram com meu pai, continuam fazendo comigo. Talvez por atuar na área de livros para crianças e jovens, segmento não tão explorado por Graciliano, possa seguir mais à vontade, sem tantas comparações. O incômodo maior se dá quando percebo que o único interesse está em minha ascendência. Tenho uma obra grande, prêmios literários, e prefiro ser reconhecido primeiramente como escritor, não como neto de um escritor famoso.

 

2)      Consta que você não conheceu teu avô, tendo nascido um ano após a morte dele. Qual a influência dele em tua vida, mesmo não o tendo conhecido?

 

A influência se fez indiretamente. Conheci Graciliano via minha avó, papai, mamãe, tios, a crônica familiar. A gente ouve as histórias repetidas, cada um conta de um jeito, e quando percebemos estamos repetindo como se também tivéssemos observado o fato. Apropriamo-nos daquele passado, que no fundo também é nosso, independentemente da possibilidade cronológica. Tornamo-nos íntimos, parece termos conhecido de fato a pessoa. Mais tarde veio o que considero realmente importante. Com a leitura dos seus livros pude entender a importância de meu avô. Perceber tratar-se de alguém fora do comum. Foi então, checando com meu pai algumas conclusões tiradas, que a influência se fez mais presente. Considerei importante cuidar do texto, buscar a melhor palavra, procurar dizer as coisas com precisão. Repeti leituras feitas por ele, Graciliano, prestando atenção, querendo entender porque meu avô achava aquele texto tão bom. Aos poucos, conforme minha personalidade se formava, pude perceber traços de meu pai, de meu avô, como sombras repetidas em mim. Talvez a seriedade e compromisso com o texto seja o que de mais importante ficou, sempre de pai para filho, até me alcançar.

 

3)      Como foi teu ingresso no mundo mágico das Letras? Deu-se de forma espontânea ou houve uma cobrança sua, ou expectativa da família e próximos mais próximos, por ser filho de Ricardo Ramos e neto de Graciliano Ramos?

 

Deu-se de forma indesejada. Eu tinha medo de escrever, considerava um risco muito grande tornar-me também escritor. Iriam me comparar, seria ridicularizado, nunca aceitariam que também pudesse ter alguma qualidade. Meu raciocínio era simples. Escrever na família Ramos, depois de meu avô e de meu pai, seria falta de imaginação. Impossível escrever sem ter imaginação. Fugi o quanto deu. Estudei Matemática, trabalhei com informática, fui me distrair desentendendo-me com computadores, convivendo com pessoas que não liam. Mais tarde, um pouco mais maduro, entendi que precisava me expressar por escrito. Era imperioso. A gente não foge de uma necessidade como essa. Escrevemos não por opção, mas por um impulso de vida. Se dependesse de minha vontade, sinceramente, eu não escreveria. É solitário demais, penoso, muito mais agradável passar as manhãs de domingo ao ar livre do que isolado, brigando com as palavras, trabalhando emoções tantas vezes difíceis. Mas no final, quando finalmente a obra nos satisfaz, a alegria é grande. Ficamos orgulhosos e vaidosos. Escrever acontece em uma relação direta com a vaidade. Todo escritor é um pouco exibido, quer ser lido, adora quando elogiam seus textos. Afinal, estamos inteiramente no que escrevemos.

 

4)      Como roteirista, quais trabalhos lhe trouxeram mais realização profissional? Por que se afastou dos roteiros?

 

Escrevi um curta com o Daniel Obeid, meu parceiro no trabalho de escrever roteiros e ganhamos um prêmio. O Paisagem Muda pode ser realizado. Foi muito bacana ver o trabalho na tela, o script transformado em filme. Fizemos dois longas. Um inspirado em uma novela de meu pai, Os Caminhantes de Santa Luzia, e outro original, O Homem da Noiva.  As duas obras estão lá, esperando a difícil oportunidade de serem filmadas. Recentemente conversei com um escritor chinês. Ele contou-me que na China são realizados cerca de 600 filmes por ano. Aqui no Brasil a gente depende de verbas que não chegam nunca. Quanto os filmes são realizados e entram em circuito concorrem e fracassam frente ao lixo produzido em Hollywood. Perdem para qualquer Quarteto Fantástico.  Continuo roteirista, é divertido trabalhar em dupla, mas adoraria sentir que os esforços feitos na área têm possibilidade de serem recompensados. Acho que atravesso uma crise de impaciência.

 

5)      Algum novo projeto artístico/Literário em andamento?

 

Acabo de ganhar uma bolsa do PROAC para desenvolver um projeto literário. Trata-se de um livro de poemas infantis intitulado PATACOADA. Algumas poesias já foram escritas. Ao mesmo tempo estou escrevendo muito vagarosamente, e com prazer imenso, um livro juvenil. Trata-se da história de uma jovem adotada que vive em uma família de classe média. Estou gostando muito de colocar-me na pele de uma menina, tentar sentir o que ela sente. O exercício tem sido bacana. Ao mesmo tempo estou cuidando muito do texto. Acho que é o meu livro mais cuidadoso na escolha das palavras.

 

6)      Um conselho para jovens escritores que sonham em ingressar no mundo da Literatura.

 

Eu sempre digo a mesma coisa. Leiam! Leiam muito, obsessivamente. Da mesma forma que um jogador de futebol precisa treinar a parte física e técnica para poder jogar, o escritor precisa ler. Somente lendo com uma frequência bem acima da média poderá melhorar o texto, aprender, tornar-se apto a arriscar sua própria produção. Se não gostar de ler é melhor ir fazer outra coisa.

 

·         Fica aqui, portanto, o conselho de quem entende da arte de escrever.

Maiores informações sobre Ricardo Ramos Filho visite o site do autor: http://www.ricardoramosfilho.com/#!cursos/cbvo


*Fotos - Ricardo Ramos Filho em foto de Jonathan Wilkins

 

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Solange Berard Lages Chalita

Caro Ricardo,foi um prazer muito grande ler sua consistente entrevista. Ela transpira uma simplicidade comovente. Entretanto, não se pode deixar de reconhecer que, no caso dos Ramos, o talento é parte integrante da genética familiar. Seu avô dispensa comentário.Seu pai deixou uma obra literária bastante importante, ainda à espera de uma maior e justa divulgação. Você nasceu nesse berço privilegiado,mas foi,com a força de seu talento e da sua inteligência,que conseguiu encontrar o seu próprio caminho no Paraíso das Letras.Parabéns!

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