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O segredo da Casa do Rio Vermelho

Literatura por Thiago de Menezes em 2016-01-22 01:59:50

Minha carreira e atuação me fez amigo de personalidades e gente simples, com as quais aprendi e muito. Zélia Gattai, que reputo como uma das melhores memorialistas do Brasil e que viveu com o escritor Jorge Amado durante 56 anos, foi uma dessas personalidades, que embora eu tenha convivido pouco, muito aprendi com seus conselhos e conversas. Foi anarquista, e eu falando de meu lado bandeirante a ela. E Zélia, mãe de Luís Carlos (de seu casamento com Aldo Veiga), Paloma e João Jorge, tinha um sorriso querido, um coração maternal e um dom para aconselhar os neófitos, incentivando-os em suas aptidões, preferencialmente na literatura ou na pintura.

No ano de 1994, depois que eu havia publicado um livro com dois irmãos poetas de Itapira, Adilson e Denilson Bosso, a Editora Scortecci deu a sugestão para que continuássemos todos juntos e, por minha indicação, convidasse a veterana escritora Odette Coppos para integrar um novo livro. Porém, era uma época de crise no mercado editorial e depois de tudo acertado, lançamento, o boneco em mãos para as revisões finais, o mesmo não vingava. Dai Odette, supersticiosa e aberta a muitas religiões, sabendo de minha simpatia pelo candomblé, incentivou-me a enviar uma cópia do mesmo para um velho conhecido seu, em Salvador da encantada Bahia, mais precisamente para o bairro do Rio Vermelho, onde morava seu amigo Jorge Amado. E ele, um dos mais famosos e traduzidos escritores brasileiros de todos os tempos, foi gentilíssimo me respondendo e disse para eu oferecer a obra a meu Orixá de cabeça, que era Oxumarè. Entretanto, na segunda página do livro, pequeno e escondido abaixo, deveria ter um Exú, como ele fazia, para afastar toda a negatividade e os maus agouros de uma empreitada cultural. Assim o fiz e deu tudo certo, tendo esgotado todos os exemplares da primeira e modesta edição, apresentada por Helena Rudge Miller (enteada de Menotti Del Picchia) e lançada num memorável cultural nas dependências do Senac em Itapira, no mesmo prédio onde no passado, funcionou a conhecida Sociedade Operária.

 Como os amigos bahianos, Odette, tinha conhecidos que o casal Amado prezava no Candomblé, como a mãe-de-santo Menininha do Gantois, qual famoso terreiro foi fundado em 1849 por sua bisavó, Maria Júlia da Conceição Nazaré (do Candomblé da Barroquinha), cujos pais eram originários de Agbeokuta, sudoeste da Nigéria. E sempre que eu chegva no museu da Fantasia Criativa, onde Odette morava, a encontrava entoando, sozinha: “A beleza do mundo, hein / Tá no Gantois / E a mãe da doçura, hein / Tá no Gantois...”, de autoria de Dorival Caymmi, que eternizou essa linda "Oração de Mãe Menininha", composta em 1972.

Mesmo com a saúde debilitada e com alguns problemas financeiros, os Amado não pararam de produzir a partir dos anos 90, assim como tinham correspondência farta com amigos de muitas épocas e admiradores de seus livros. Eram atenciosos, educados. Ele escreveu sobre meus livros de poemas, porém não sei se foi para me incentivar ou se foi por consideração à velha amiga Odette, uma praticante da Umbanda e do Candomblé, que foi mais conhecida por seus casos amorosos na Bahia, do que propriamente por sua obra literária. Os varões da tradicional família do comendador Carlos Catharino que o digam.

Em 2001, mesmo ano em que o marido faleceu, Zélia foi eleita para a Academia Brasileira de Letras, para a cadeira 23, anteriormente ocupada desde 1961 pelo próprio Jorge Amado, que teve Machado de Assis como primeiro ocupante e José de Alencar como patrono. No mesmo ano, Zélia foi eleita para a Academia de Letras da Bahia e para a Academia Ilheense de Letras. Em 2002, tomou posse nas três e tive o prazer de estar em sua posse na ABL, que foi marcante depois de uma eleição controversa. Mesmo assim, houve quem a considerasse mais uma homenagem ao escritor do que propriamente mérito literário de sua viúva. Um tempo depois, escrevi um belo artigo sobre o lançamento do livro 'Jorge Amado: um baiano romântico e sensual’. Ela, que não era uma "mulher-sombra", aquele tipo submissa ao marido famoso estava radiante com o livro e suas conquistas naquele momento no mundo da literatura, já que muitos de seus livros foram traduzidos para o francês, o italiano, o espanhol, o alemão e o russo. Era uma alegria agradá-la!

E ela, que teve presença marcante na elite cultural de sua época, me disse uma vez que me sentia um jovem humanista. Eu fiquei refletindo, pois sempre soube que o verdadeiro humanismo acabou com todas as reviravoltas politicas que o Brasil teve nas últimas décadas. Elas apagaram o fulgor dos salões, dos verdadeiros saraus, com grandes valores. E encerrando as reflexões disse à mesma, que havia aprendido que na vida, não devia rejeitar tudo o que me era sumariamente novo ou moderno no meu cotidiano. Tive, em muitas situações, que estar disposto a mudar. Até de paladares culinários quando comparo alguns momentos que vivi e outros que vi. Nunca temi o estranho, creio... e o segredo da Casa do Rio Vermelho, foi desvendado com o passar dos anos: Fé no misticismo que embebia a literatura que abrochou de lá, da Bahêa de todos os santos, encantos e amores!


(Dedico essa crônica a Maria Luiza d'Orey Lacerda Soares, que tinha apreço e carinho pelos Amado e ao casal Luiz dos Passos Bangel e sua elegante Vera, tão tradicionalmente 'bahiana' como a maioria dos amigos aqui lembrados!)

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emiliafroes

Amei ..... a magia da Bahia contagia e prende leitor e autor de todos os lados. Fascinante ! ! !

vera bangel

NOSSO QUERIDO AMIGO THIAGO, HONRADO ESTAMOS COM O SEU ESPECIAL E TALENTOSO CARINHO PARA CONOSCO NESTA CRONICA SOBRE OS IMORTAIS ACADEMICOS JORGE AMADO E ZELIA GATTAI. Beijos beijos e mais beijos nossos, Vera e Luiz.

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