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“Cacau Leal, Poeta do Sal” (pseudônimo de Cláudio Leal)

Literatura por Selmo Vasconcellos em 2016-01-26 12:50:20

                

Jornalista, poeta, compositor, dramaturgo, artista plástico e empresário. Publicou “Utopia doce utopia”, em 1980; “Além das Muralhas”, em 1995; “Cabo Frio: o vento fala”, em 2005 e o “O inferno cronológico”, em 2011. Participou também de várias antologias, das quais se destacam: “Antologia Ponte de Versos – 8 Anos, Ed. Ibis Libris; Antologia “Um Brinde à Poesia”, Edição Histórica; “Antologia Rio de Janeiro 450 Anos de Verso e Prosa”, União Brasileira dos Escritores e “Antologia II Encontro de Poetas da Língua Portuguesa”. Recebeu vários prêmios literários, entre eles: 1º lugar do Concurso Stanislaw Ponte Preta de Poesia, da Rio Arte, edição 1994, Menção Honrosa do mesmo concurso, edição 1995 e o Prêmio Nacional de Poesia do Sindicato dos Escritores do Estado do Rio de Janeiro, com o livro “Raízes do Imaginário do Povo da Terra Brasilis”, inédito. Cacau é filiado à SBAT (Sociedade Brasileira de Autores Teatrais), à AMAR (Associação de Músicos, Arranjadores e Regentes), ao SEERJ 9Sindicato dos Escritores do Estado do Rio de Janeiro) à APPERJ (Associação Profissional de Poetas do Estado Rio de Janeiro). Em 2006 foi eleito membro da Academia Cabo-friense de Letras e a convite da nova presidência, passará a integrar, em 2015, o quadro de autores filiados à UBE (União Brasileira dos Escritores).

Contato: claudiodcleal@gmail.com

SELMO VASCONCELLOS – Quais as suas outras atividades, além de escrever?

“CACAU LEAL, POETA DO SAL” -Sou jornalista, pós-graduado em “Jornalismo Cultural” e “Didática do Ensino Superior”. Tenho aproximadamente 150 poesias (ou letras) musicadas por diversos compositores; algumas já gravadas e outras em processo de gravação. Tive dois textos teatrais encenados, um no Teatro Gláucio Gill, outro no Teatro do Planetário; e um terceiro, “Eu me chamo Julia”, lida na “Casa da Gávea” sob a direção de Fernando Reski, dentro do projeto “Ideias em Cena”, do dramaturgo Rogério Blat. Passei a me dedicar ainda, de uns cinco anos pra cá, à Pintura. Além dessas atividades ligadas à Música, ao Teatro e à Pintura, sou empresário na área fotográfica, desenvolvendo um trabalho de divulgação e comercialização das fotos do Rio antigo, do fotógrafo Augusto Malta – acervo de família.

SELMO VASCONCELLOS – Como surgiu seu interesse literário?

“CACAU LEAL, POETA DO SAL” -Surgiu da necessidade de expressar sentimentos que me incendiavam os pensamentos; e não encontravam um modo de vir à luz, uma linguagem que retratasse concretamente os conflitos existenciais. O vazio causado pela falta de uma forma narrativa apropriada deixava corpo e alma à deriva e gerava o desespero subjetivo de não saber o que fazer com o lado precário da vida. A linguagem prosaica, da comunicação cotidiana entre as pessoas não bastava. Então como pôr ordem no caos da alma? Como iluminar o lado escuro do rio subterrâneo que corria dentro de mim? No ensino secundário havia um professor de “Português e Literatura”, que tinha veneração obsessiva por Luís de Camões, a ponto de saber de cor e salteado, da frente pra trás e de trás pra frente, todos os versos do livro “Os Lusíadas”; e nutria ele, ainda, admiração estratosférica pelos poetas parnasianos, principalmente Olavo Bilac. Achava aquilo nele admirável, mas ficava à ver navios, sem compreender o significado de muitos termos eruditos. Dei de tentar escrever como aqueles poetas e percebi que estava desperdiçando energia e perdendo noites sem dormir. Mas ele, o professor, foi importante, porque despertou em mim a vontade de saber mais sobre literatura e, especificamente, sobre poesia. Então, o ponto de partida do meu interesse pela literatura vem desse primeiro contato com a poesia parnasiana, cujo rigor estrutural era impiedoso. Eu estava com 13 ou 14 anos e passei a ler outras coisas, pondo, de certa forma, um ponto final na façanha de colocar a linguagem poética a serviço do meu caos existencial. Mas tal período não durou muito, uma vez que eu já estava contaminado pelo vírus da poesia. E voltei, coisa de dois anos depois, a buscar noutros poetas outras formas de linguagem. Fui indo às cegas, porque não havia quem me orientasse; e fazer poesia era coisa de quem não quer nada com nada, está acima do chão e, como algo que perdura desde sempre, é coisa de quem está “assim-asssim” mais pra lá do que pra cá. Um “assim-assim” moral, conceito sombrio, mas que influenciava e continua a influenciar os sentidos de quem não tem coragem. Então, com ou sem coragem, é preciso decidir e pôr os pés na estrada. E foi o que eu fiz, assumi que queria a poesia em mim, na alma, e fim.

SELMO VASCONCELLOS – Quantos e quais os seus livros publicados?

“CACAU LEAL, POETA DO SAL” -Tenho quatro livros de poesia publicados. E como quase todos os poetas, as primeiras publicações são bancadas pelo próprio autor. E em muitos casos, toda a produção. Pertenço, até o momento, a estes e tornei-me autor-editor dos meus livros. Embora o último tenha o nome de uma editora, o dinheiro saiu do meu bolso. Economizei no que pude e até no que não podia para bancar a produção e impressão do meu trabalho poético até agora. São eles: “Utopia doce utopia”, 1980; “Além das Muralhas”, 1995; “Cabo Frio, o vento fala”, 2005 e “O inferno cronológico”, 2011. Em “Além das muralhas”, meu segundo livro, incluí um poema que tirou o primeiro lugar no “Concurso de Literatura Stanislaw Ponte Preta, 1994, da Rio Arte”, na categoria poesia. A comissão julgadora era composta por Antônio Carlos Secchin, atual Primeiro-Secretário da ABL (Academia Brasileira de Letra), Bernardo Vilhena e Barrão. Antes de publicá-lo, eu o submeti a avaliação de alguns escritores e recebi comentários críticos importantíssimos do próprio Secchin e dos poetas Moacyr Félix e Carlos Henrique Escobar. “Cabo Frio: o vento fala”, meu terceiro livro, recebeu capa do pintor “Carlos Scliar” e prefácio do presidente da Academia Cabo-friense de Letras, Demócrito Jonáthas Azevedo e foi distribuído em escolas, bibliotecas e espaços culturais de Cabo Frio – município onde fiquei conhecido como “Poeta do sal”. O quarto livro, ”O inferno cronológico”, fiz o lançamento no “Teatro Gláucio Gill” e no “Museu da República”. Para 2015 ou 2016 já tenho dois livros escritos e estão em fase de preparação para publicação. Além dessas publicações, participei de várias antologias de expressiva importância no cenário poético, tais como “Ponte de Verso – 8 Anos”, da Ed. Ibis libris; da “Antologia “Um Brinde à Poesia”, organização da poeta Lucília Dowslley; da Antologia Rio de Janeiro 450 anos de Verso e Prosa ”- UBE (União Brasileira dos Escritores) e da Antologia “II Encontro dos Poetas da Língua Portuguesa”, que reunirá, em setembro (2015), em Niterói e no Rio de Janeiro, poetas dos países que falam o Português. Entre os prêmios que recebi destaca-se ainda “I Concurso Nacional de Poesia Prêmio SEERJ de Literatura”, com o livro “Raízes do Imaginário do Povo da Terra Brasilis”, inédito, com publicação prevista para 2015 ou 2016. Sou filiado à AMAR (Associação de Músicos, Arranjadores e Regentes), à SBAT (Sociedade Brasileira de Autores Teatrais) ao SEERJ (Sindicato dos Escritores do Estado do Rio de Janeiro) à APPERJ (Associação Profissional dos Poetas do Rio de Janeiro e, desde 2006, faço parte da Academia Cabo-friense de Letras. Convidado pela nova diretoria da UBE-RJ (União Brasileira dos Escritores), eleita em 2015, passarei a integrar o quadro de autores que dela já são membros.

SELMO VASCONCELLOS – Quais os impactos que propiciam atmosferas capazes de produzir poesia?

“CACAU LEAL, POETA DO SAL” -Há impactos internos e externos. Uns e outros levam neles alto teor de complexidade, de origem psicofísica, metafísica, transcendental, etc. Ninguém sabe ao certo. Mas é uma estranha confluência de fatores fonéticos, morfológicos, sintáticos e semânticos. É isso que se sabe. O resto é conversa de botequim. De qualquer modo, esses impactos nascem do imprevisível, do “espanto”, como diz o poeta Ferreira Gullar. Quando a substância encontra uma forma, é surpreendente; a forma que a revela e que fica e que fixa o que se quis externo vai, aos poucos, definindo um estilo próprio de dizer algo. Aí o poeta encontrou uma fonte preciosa de questionar e tentar responder a pergunta da vez. Essa resposta é que é, sob todos os aspectos, impactante.

SELMO VASCONCELLOS – Quais os escritores que você admira?

“CACAU LEAL, POETA DO SAL” – Todos. E cada um pela coragem de não esmorecer e de superar uma série de obstáculos até se firmar como artífice da palavra, recebendo ou não o reconhecimento público ainda em vida. E não me refiro aqui aos elogios da própria classe, que às vezes são muitos e nem sempre verdadeiros. A leitura de dois livros me marcou definitivamente: “A luta corporal”, de Ferreira Gullar e “Grande sertão: veredas”, de Guimarães Rosa. Dois trabalhos de impressionante profundidade, de beleza formal impactante. Ao ler e ouvir, posteriormente, a poesia de Caetano Veloso, me vi dentro de um manancial poético como poucos. Mas têm por aí uns teóricos que teimam em enquadrá-lo como letrista, em vez de poeta, por conta da estrutura musical. Bobagem! Caetano é um poeta de primeira grandeza, primoroso, questionador incansável, construtor de belíssimos versos. A poesia de Caetano entrou na alma do povo, está lá em versos de extrema percepção social e existencial. Seus versos, assim como os de Drummond, ganham a dimensão do exemplo e são citados pelas pessoas, quando a dor ou a alegria da existência quer a palavra exata, certeira, clara e reveladora. Assim como em Drummond nos versos “E agora José?”, “Tem uma pedra no meio do caminho”, “Mundo mundo vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo seria uma rima, não seria uma solução”, alguns versos de Caetano também fazem parte do imaginário coletivo. E é assim que “Beleza pura”, “Você é linda”, “como dois e dois são cinco”, “Sampa” e tantos outros ganham o coração da nação e tornam-se referências de algo que se quer dizer ou externar. O que importa mesmo, de verdade, no escritor, no poeta, no letrista – ou sei lá quantas outras denominações sinonímicas inventadas ou por inventar – é o espírito da coisa que se incorpora no gosto popular e no coração do leitor solitário.

SELMO VASCONCELLOS – Qual mensagem de incentivo você daria para os novos poetas?

“CACAU LEAL, POETA DO SAL” –  Saiam do casulo, poetas! Uma mensagem: sugiro que os novos candidatos à tarefa de escrever poesia leiam, participem de eventos, saraus, reuniões e demais encontros de poesia e assuntos ligados à arte de escrever. Como disse Drummond “Escrever é a arte de cortar palavras.” Mas para chegar à conclusão acima, Drummond leu muito, estudou, pesquisou e consultou amigos de ofício e estudiosos da poesia daqui e de além-mar. Tola ilusão pensar que ele chegou aonde chegou… sozinho, sem a dedicação do estudioso, a precisão do ourives e o conhecimento dos que lhe antecederam e dos contemporâneos de literatura. Outra mensagem: poesia não é sinônimo de salário, nem de dinheiro em muito caindo do céu ou vindo do inferno, nem do enervante ato de bater ponto. A pressa de pôr a poesia no mundo e a necessidade do elogio e do aplauso são as maiores inimigas do poeta e do fazer poético, porque em vez de fazer do artesão da palavra “antena da raça”, expressão cunhada por Ezra Pound, pode, sim, transformá-lo em rádio amador de uma guerra interna, que só cabe nele e o que o torna um lírico em si e para si. E, por fim, quantidade não é sinônimo de qualidade. Não foi, não é e nem será. Um livro, só um apenas, pode levar um poeta à reduzida lista dos que ficam para a “eternidade”, como é o caso de “Augusto dos Anjos”. Em outros casos um só verso, em meio a uma obra vasta, pode determinar a estrada a tomar. E vai aqui o que me serviu de exemplo: “Caminhos não há, mas os pés na grama os inventarão.” Ferreira Gullar, in “A luta corporal” – 1954. 

O SAL SEM O MAR

(Prêmio Stanislaw Ponte Preta de Poesia – 1º lugar 1994)

Publicação: RIOARTE

 

lunibrilho tremeluzindo sobr’água

no espelho das salinalágrimas

as luas de Cabo Frio

o vento

areia dunas

e as dunas de sal

teu beijo com gosto de morte-vida

inexplicavelmente insiste ferindo fundo

o coração voraz

o forno

o faro

o farol entre as coxas carnudas

atravessam-me os sonhos

girando sob estrelas inumeráveis

e os lagos girando no pensamento de sal

e sol

e sim

quanto tempo?

quanto tempo há entre o olhar que me lançaste um dia

e o que me lanças agora?

lunibrilho tremeluzindo

na superfície dos olhos

o sal sem o mar

cristalizados sobre os poros do rosto

– O vento sopra, o vento fala.

******   

RIO – CAPITAL DA UTOPIA

(poesia publicada na “Antologia Rio de Janeiro 450 Anos de Verso e Prosa,

UBE – 2015)

 

Rio – teu espírito invadiu o mundo

com as armas de Jorge

com os teus corpos nus, mares azuis

marés de luz de Norte a Sul

por estares em mim e eu em ti

noite e dia

por sermos duas existências fundidas numa só

és, de forma implícita, a capital da poesia

és o centro

o epicentro da arte na alma, na carne, na cor negra

na alva pele amorenada

a lágrima cristalina de ver límpida

a água da Baía de Guanabara

Rio – teu espírito é o Corcovado, carioca da gema

o Pão de Açúcar, a Garota de Ipanema

a Praia de Copacabana, o Carnaval, o futebol,

o sim, o sal, o sol

por estares em mim e eu em ti

noite e dia

por sermos duas existências fundidas numa só

é, de forma explicita, a capital da poesia

por teres na alma um nó

e carregares dois mundos num corpo só

a parte da Zona Sul, rica

a parte da Zona Norte, pobre

Rio, tu és a capital de dois Brasis

Rio, orgasmaravalha de felicidadania,

Tu és a capital da utopia

e têm favelas, queima de fogos

e têm macumba e champanhe nas esquinas

e têm negros e brancos estrangeiros no Sambódromo

e têm índios, reis e rainhas na avenida

Rio 40 graus.

 

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