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Madame Dulcina de Moraes

Cultura por Thiago de Menezes em 2016-02-13 23:32:52


Em meados de 1993, quando lancei “Dualidade”, meu primeiro livro de versos e que foi apresentado por dona Maria Dezonne Pacheco Fernandes (autora do célebre romance “Sinhá Moça”) e prefaciado pelo Olavo de Alencar Dutra, dediquei no mesmo, alguns poemas a pessoas que eu sentia profunda admiração no meio artístico e cultural como uma singela menção de lembrança e homenagem a o que representaram em suas épocas. Dediquei um bailado poético que criei a Eros Volúsia, um acróstico a Elvira Pagã e um poema em que falava do cinema, minha grande paixão, para a Dulcina de Moraes, que foi a grande dama do teatro no Brasil. O lançamento do mesmo foi no La Place, que ficava num hotel na Praça General Osório, em Ipanema, numa promoção de amigos queridos, como Ione de Almeida e Carlos Albano, escultores. Dulcina não pode estar presente, na ocasião. Ela morava em Brasília há muitos anos e ia com pouca frequência ao Rio, quando então nos encontrávamos. Naquele ano ela estava sendo muito lembrada, alias, pois fazia sessenta anos que ela havia alcançado estrondoso sucesso com a peça “Amor”, de Oduvaldo Vianna, que estreou em São Paulo e, no ano seguinte, em 1934, no Rio de Janeiro, inaugurando o Teatro Rival e percorrendo depois todo o país e tornando-se um de nossos maiores clássicos. Mas, de um tempo para frente ela passou a ter lapsos de perdas de memória, não reconhecendo algumas pessoas e se esquecendo de uns fatos, confundindo outros.


Dulcina era muito interessante. Educada, falante, astuta, altiva e ativa na maneira de ser e se portar. Aliás, pessoalmente era mais altiva do que por fotos e dizem, em sua atuação no teatro, o que, infelizmente, não cheguei a ver, pois ela havia abandonado os palcos havia alguns anos. Queria muito tê-la visto em sua famosa montagem de Tia Mame. Dizem que quando nasceu Dulcina não deixou dúvidas de que seu destino era mesmo ser atriz. O seu nome é uma homenagem a sua avó materna Dulcina de Los Rios Vallina, que também era atriz. Em 1908, seus pais, dois grandes atores da época, excursionavam com uma companhia pelo interior do Rio, quando chegaram à cidade de Valença. Átila e Conchita de Moraes (nascida Maria de la Conceptión Alvarez Bernard em Santiago de Cuba, no ano de 1885 e falecida no Rio em 1962) – ela grávida de Dulcina, prestes a dar à luz – iam apresentar uma peça naquela mesma noite. No hotel onde o elenco se hospedaria, seu proprietário, ao perceber que alguém iria nascer a qualquer momento dentro de seu estabelecimento, proibiu que o casal ali permanecesse. Naturalmente, houve um grande tumulto, o elenco revoltou-se e recusou-se a ficar hospedado naquele local. O incidente chegou aos ouvidos da famosa Condessa de Valença que, imediatamente, liberou um casarão desabitado para receber os artistas. Providenciou-se um colchão, toda a população solidarizou-se trazendo mantimentos e, com ampla audiência e aplausos de todos, no dia 4 de fevereiro, vinha ao mundo Dulcina. Com apenas um mês de vida, ela já estava em cena, no lugar de uma boneca que ocupava o berço utilizado na peça e aos 15 anos estreou o espetáculo "Travessuras de Berta", pela companhia Brasileira de Comédia no Teatro Trianon. Seu sucesso inicial se deu através de um convite de Leopoldo Fróes, um dos maiores mitos teatrais do século XX. Daí em diante, integrou as mais importantes companhias teatrais até criar a sua própria, junto com o marido, Odilon Azevedo, com quem se casou em 1931. A Cia. Dulcina-Odilon foi responsável por êxitos memoráveis nos palcos nacionais. É até hoje lembrada.


Em 1955, Dulcina inaugurou a Fundação Brasileira de Teatro - FBT, por quem ela viveu e morreu, dedicando-se integralmente a este sonho, primeiro no prédio onde hoje está o teatro que leva seu nome, no centro do Rio, e mais tarde, em 1972, em Brasília, formando centenas de atores. E foi nesse mesmo ano que ela transferiu a FBT para Brasília e muda-se para a cidade, pela qual era apaixonada. Em 1980 inaugurou o Teatro Dulcina em Brasília. Teve apenas uma e mal-sucedida experiência na vida, que foi em cinema com o filme “24 Horas de Sonho”, um dos poucos equívocos em sua carreira de incontáveis sucessos, pontuando com qualidade os seus trabalhos. Um verdadeiro fracasso. Mas ela será sempre lembrada pelo espetáculo “Chuva”, uma adaptação da novela de Somerset Maugham, que estreou no Theatro Municipal. Peça dirigida e protagonizada por ela, que viveu a conhecida personagem Sadie Thompson. Recebeu um Prêmio Molière Especial em 1982.


Dulcina faleceu em 28 de agosto de 1996, em Brasília, aos 89 anos, após uma operação de diverticulite. Nunca a esqueci. Estava viúva tinha anos, desde 1966 morre o marido, colega e grande companheiro Odilon Azevedo, outro nome a quem o teatro brasileiro também muito deve. Ela deu dignidade à profissão de ator e deve ser sempre lembrada. Afinal, foi uma mulher admirável, que deixou um legado para atores e público: respeito, humor, profissionalismo, perseverança, cultura, delicadeza e amor pelo teatro. Sempre a luta pela sua amada Fundação, que só abandonou quando não tinha mais forças. A FBT, depois transformada na Faculdade de Artes Dulcina de Moraes, funciona em Brasília até os dias de hoje. 


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