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Ésio Macedo Ribeiro

Literatura por Selmo Vasconcellos em 2016-03-03 12:46:36

Ésio Macedo Ribeiro nasceu em Frutal, Minas Gerais. É doutor em Literatura Brasileira pela USP, escritor, pesquisador e bibliófilo. Publicou sete livros e organizou três outros e mais uma revista. Seus textos foram publicados na França, Chile, Colômbia e Portugal. Foi curador das exposições: “O Modernismo Através dos Livros – Coleção Waldemar Torres” (Porto Alegre, 1999), com Waldemar Torres, “RELEREVER” (São Paulo, 2000), com Ana Cordeiro e Almandrade, “Erico Verissimo – Centenário de Nascimento – 1905-2005” (São Paulo, 2005) e do evento “30 anos de poesia de Nicolas Behr” (São Paulo, 2008), e, ainda, consultor da exposição “A rua dos 100 cataventos – centenário de Mario Quintana” (Porto Alegre, 2006). Mantém um blog em http://esioribeiro.blogspot.com e uma página com poemas em português e espanhol em http://www.antoniomiranda.com.br/Iberoamerica/brasil/esio_macedo.html. Tem um romance inédito, É o que tem (finalista do Prêmio SESC de Literatura 2015), e está escrevendo outro, ao mesmo tempo em que prepara um novo de poesias, ambos ainda sem título definitivo. Diretamente de Chicago, onde vive atualmente, ele nos concedeu esta entrevista

SELMO VASCONCELLOS [SV] – Quais as suas outras atividades, além da de escrever?

ÉSIO MACEDO RIBEIRO [EMR] – Selmo, além de escrever, sou também pesquisador, principalmente na área da literatura e da música. Afora estas duas atividades, há uma terceira que ocupa boa parte do meu tempo, além de a minha casa inteira (risos), que é a de colecionador de livros. Sou bibliófilo, dono de uma biblioteca de mais ou menos catorze mil volumes, tudo em primeira edição, do Modernismo de 1922 até os dias atuais, incluindo alguns autores do Modernismo de Portugal, tais como Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro.


SV – Há muitos anos você vem pesquisando a vida e a obra dos escritores Lúcio Cardoso e Oswald de Andrade. Poderia me falar um pouco sobre o que resultou até agora destas pesquisas e o que vem por aí?


EMR – Organizei dois livros do Lúcio Cardoso. O primeiro foi a edição crítica da sua Poesia Completa, resultado da minha tese de doutorado defendida na USP no ano de 2006. Já a edição dos Diários dele, partiu de um convite do Grupo Editorial Record. Foram publicados, respectivamente, pela Edusp em coedição com a Imprensa Oficial SP e Oficina do Livro Rubens Borba de Moraes e editora Civilização Brasileira, nos anos de 2011 e 2012. Juntos, somaram mais de oito anos de trabalho para ficar prontos. Os Diários tiveram imensa aceitação do público, tanto que a edição se esgotou em apenas quatro dias após o lançamento. Foi um grande susto para todos os envolvidos no projeto. A editora foi rápida, pôs uma segunda edição na praça em menos de dois meses depois da primeira. Este livro e o Maria Antonieta d'Alkmin e Oswald de Andrade: Marco Zero, que organizei junto com a filha do ilustre casal, Marília de Andrade, publicado pela Edusp em coedição com a Imprensa Oficial SP, em 2003, que está esgotado e que não sei se algum dia será reeditado por causa do alto custo da sua edição, foram meus livros de maior sucesso até agora. No momento estou preparando duas traduções realizadas por Lúcio Cardoso, O vento da noite, de Emily Brontë, tida como a sua melhor tradução, e que sairá, finalmente, em edição bilíngue, e Ana Karenina, de Tolstói, que serão reeditadas este ano pela Editora Civilização Brasileira. Também estou traduzindo, do inglês, dois livros sobre bibliofilia, para a Ateliê Editorial.


SV – Como surgiu seu interesse literário?


EMR – Muito cedo. Comecei a ler com de cinco para seis anos de idade nos livros do Monteiro Lobato. Uma tia minha, Senir Ribeiro Duarte, que era professora, foi quem me ensinou as primeiras letras e também quem por primeiro dirigiu meus sentidos para a literatura. Encantei-me tanto com as histórias do Lobato, que sempre que terminava um livro, logo pedia outro. Minha avó, Maria Madalena Ribeiro, que ia sempre ao Rio de Janeiro, era a minha compradora de livros oficial. Quando ela visitava a outra filha, Maria Helena Ribeiro da Silva, que morava na capital fluminense, eu sempre aproveitava e encomendava os do Lobato que ainda não tinha. Via os títulos impressos nos próprios livros dele e ia marcando os que eu já tinha e os que me faltavam. Também, por esta época, comecei a ganhar livros. Certa vez, uns padrinhos meus, Sinval e Lydia, me deram de presente o História das invenções. Sua leitura trouxe-me imensa alegria por muitos e muitos dias. Eu tinha uma ânsia absurda de conhecimento, era curioso, perguntador, observador, e Lobato despertava mais e mais isto em mim. Ele foi o meu primeiro herói da literatura. Anos mais tarde, descobri o José Mauro de Vasconcelos. Que tive a honra e a felicidade de conhecer pessoalmente num evento em Brasília, em 1978. Eu devorava seus livros, li quase tudo o que ele publicou. É uma grande pena que ele esteja tão esquecido. Mesmo com a recente refilmagem de O meu pé de laranja lima, não vi desdobramento do sucesso do filme para com o resgate da sua literatura.


SV – Quantos e quais são os seus livros publicados?


EMR – No total já somo onze publicações, entre meus livros pessoais e os que organizei. Publiquei os livros de poesias, E Lúcifer dá seu beijo (1993), Marés de amor ao mar (1998), Pontuação circense (2000), 40 anos (2007) e Estranhos próximos (2008); e os de ensaios, Brincadeiras de palavras: a gênese da poesia infantil de José Paulo Paes (1998) e O riso escuro ou o pavão de luto: um percurso pela poesia de Lúcio Cardoso (2006) – resultado da minha dissertação de mestrado em Teoria Literária e Literatura Comparada na USP. E organizei, com Marília de Andrade, o livro de memórias Maria Antonieta d'Alkmin e Oswald de Andrade: Marco Zero (2003) e, com Silvana Maria Pessôa de Oliveira e Viviane Cunha, a Revista do Centro de Estudos Portugueses – Dossiê Lúcio Cardoso (jan.-jun. 2008), mais a edição crítica da Poesia completa de Lúcio Cardoso (2011) e a edição dos Diários de Lúcio Cardoso (2012).


SV – Fale-me como e quando se deu a publicação do seu primeiro livro.


EMR – Meu primeiro livro, E Lúcifer dá seu beijo, saiu em 1993, numa caprichada edição do grande editor, Massao Ohno, com apresentação do Jorge Mautner, que havia se tornado meu amigo dois anos antes, prefácio de Oscar D’Ambrosio, que à época era meu professor na Faculdade de Letras, e ainda um texto nas orelhas do próprio Massao. Era um sonho ter um livro editado por ele, o cara que editou nada mais nada menos do que Hilda Hilst, Roberto Piva e a revista Noigandres 5, dos concretistas Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari. E, sobretudo, porque ele fazia aquelas edições caprichadíssimas, algumas ilustradas pelos maiores artistas plásticos do país, como Wesley Duke Lee, Thomaz Ianelli e Tomie Ohtake. A capa era para ser feita pelo José Roberto Aguilar. Falei com ele e o cara pediu um dinheirão. Assim, Massao e eu resolvemos pôr uma reprodução de um óleo do Joan Miró, chamado “Auto Retrato”, obra pertencente ao acervo do MOMA de New York. Foi um livro que me deu muitas alegrias, a começar pelas pessoas que me procuraram depois de sua publicação. O que foi uma total surpresa para mim. O Massao, era sabido de todos, não tinha muito interesse em distribuir e nem em divulgar os livros, mas fato é que eu recebi, não sei como, de, entre outros, carta de Ferreira Gullar, Lygia Fagundes Telles, Carlos Vogt – então Reitor da Unicamp –, Fernando Paixão, Glauco Matoso e Roberto Piva. Também o pessoal da Azougue e do Grupo Cálamo quiseram me conhecer. Comecei num momento em que a poesia começava a ferver em São Paulo, com lançamentos memoráveis, como os do Donizete Galvão, que arrastava, com licença da expressão, a cidade inteira para si. No primeiro lançamento do meu livro, na famosa, histórica e saudosa Arte Pau Brasil, do Alonso Alvarez, compareceram, além do Mautner lendo meus poemas, também a poeta e atriz, Elisa Lucinda, alguns jornalistas, amigos e parentes e os colegas da faculdade. Depois que terminou o evento, que teve coquetel e tudo, fui saber do Alonso quantos livros tínhamos vendido. E ele, “vendemos um e outro foi roubado!” Rimos a valer. O segundo se deu na faculdade, na Semana de Letras, onde vendemos um bocado. Naqueles anos, realizavam-se várias noites de autógrafos de um mesmo livro. O Massao era louco, lançar livro de autor desconhecido com tiragem inicial de 1.000 exemplares, imagina isto! Então surgiu um convite para um terceiro lançamento, que se deu na Vila Madalena, num evento organizado pelo Sebo Paulista, que ficava na Rua da Consolação. Evandro, o dono, convidou também o Jorge Mautner para lançar Miséria dourada, livro que saiu no mesmo ano do meu, e o Nelson Jacobina para tocar e cantar junto com ele durante nossas sessões de autógrafos. Muitos autores rejeitam seus primeiros livros, eu não me envergonho do meu. Mas, hoje, sem pensar um segundo, mudaria o título para O beijo de Lúcifer, que era o que o Massao queria. Como marinheiro de primeira viagem, eu fui duro na queda, não acatando a sugestão dele. A gente é muito besta quando está começando. Depois que cai a ficha e você volta a pôr os pés no chão vê que é tudo uma imensa besteira. Também, muito embora eu seja sabedor de que várias pessoas gostam dos poemas desse livro como eu os concebi, por ter lá minhas dúvidas de se isto é verdadeiro, alteraria muitos poemas constantes nele. Para concluir, mais um fato curioso. Quase a totalidade dos poemas desse livro foi publicada dispersamente em jornais e revistas de vários estados brasileiros, e o fato de que raramente repetissem os poemas numa ou noutra publicação, era algo com que pensar.


SV – Qual(is) o(s) impacto(s) que propicia(m) atmosfera(s) capaz(es) de produzir poesias?


EMR – O impacto poderia ser uma dor ou uma alegria. Mas eu não tenho método de espécie alguma, Selmo. Só escrevo quando quero, quando baixa alguma coisa em mim. Não tenho hora e nem local para escrever. Por isso, sempre carrego comigo, onde quer que eu vá, um bloquinho para anotações e uma caneta ou lápis. No geral, quando estou triste e desiludido com a vida é quando mais produzo. Por exemplo, após a partida do meu pai em novembro de 2015, quando perdi completamente o sentido dos pés na terra, danei a escrever freneticamente, forma mais utilizada por mim para exortar as minhas dores. Estou preparando um novo livro de poemas e um novo romance, concomitante com trabalhos de Lúcio Cardoso que organizo para a Editora Civilização Brasileira, que o publica no Brasil, e que devem vir à luz neste ano de 2016. Há pessoas que me pedem poemas, mas eu não consigo escrever por encomenda. E escrevo sempre a lápis ou à tinta, para só depois passar para o computador, quando vou fazendo as alterações que possam vir a melhorar o que escrevi pelo método que denomino de “psicográfico”. Escrever, para mim, é como imagino seja psicografar. Às vezes eu escrevo algo e, ao ler o que escrevi, fico deveras espantado, porque acho que não fui eu. Não por o que eu escrevi ser bom ou ruim, mas por ser estranho. Então é “psicografia”. É muito esquisito. Eu nunca vou explicar isto em mim. Eu nunca paro de escrever, escrevo todo dia. Rabiscos e mais rabiscos, palavras que eu acho bonitas, frases que me vêm. Depois é que junto tudo e os torno outra coisa, um conto, um poema, um romance. Mas para qualquer gênero, se é que ainda podemos falar de gênero neste século XXI – quando eu e muitas outras pessoas vemos que isto está morto – eu parto da poesia.


SV – Quais os escritores que você admira?


EMR – Esta pergunta é difícil. Difícil porque admiro realmente tantos autores, que levaria um bom tempo listando os de minha predileção. Mas, para não cansar ninguém, me aterei aos nomes dos meus diletos, os que, vira-e-mexe estou relendo, os que muitas das vezes estão em minha cabeceira ou na minha mala de viagem: Clarice Lispector, Fernando Pessoa, Gabriel García Márquez, Lúcio Cardoso, Hilda Hilst, João Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto, Caio Fernando Abreu, Orides Fontela, Carlos Drummond de Andrade, Augusto de Campos, Manoel de Barros, Haroldo de Campos, Décio Pignatari, Rainer Maria Rilke, Oswald de Andrade, José Paulo Paes, Cecília Meireles, e.e.cummings, Manuel Bandeira, Mário de Andrade, António Botto, Jorge Luis Borges, Thomas Mann e Allen Ginsberg.


SV – Qual mensagem de incentivo você daria para os novos poetas?


EMR – Antes de tudo, eu diria aos novos poetas que poesia, para mim, é água de beber, pura, da fonte, cristalina. Penso que deveria ser o mesmo para todo mundo. Depois, que eles nunca deixassem de acreditar nela – poesia. Que escrevam, escrevam e escrevam. Que reescrevam, reescrevam e reescrevam. Até deixar sobrar só o que é POESIA. E quando acharem que já têm a POESIA leiam-na em voz alta, sintam o ritmo, o som e o sentido, e vejam se ainda é POESIA. Sobretudo, leiam os clássicos: Dante, Camões, Drummond, Bandeira, Cabral, Murilo, Baudelaire, Cecília, Rimbaud, Whitman, Pessoa, Blake, Gertrud Stein, Ginsberg, Rilke, Borges, Oswald, Mário e por aí vai...

 

PAI E FILHO

 

Parte do que parte

É tua parte do que fica

Na boca rubra do azinhavre

No risco inútil do bordado

No traço incerto do caminho

 

Não há aparte no que de ti fica

Não há velame que o mistifique

Não há delírio nem cadafalso

 

Tu te fazes do que se foi

Amenizas estupefato

De que o que te fica

Nem prolifera

Nem é mais macho

 

Parte de ti fica inteira

A parte que não te falsifica

Nesta luta entre o que desmistificas

E aquilo que te cobre o traço

 

Tu te traças no inteiro

Neste vinho que tu pões na boca

No rebuscado desta opereta bufa

Ventarola que move a corda

Do teu cinema

 

Este homem não é pai

Do corpo que te pertence

Para seres prudente

Destro ou ambidestro

Movimentas as pedras do simulacro

 

Ele te deu a vida

Ele te trouxe do parto

Te deste a parte que agora

É parte de outra esfera

Dada a ti como se a vida

Fosse um elo do jogo

Cuja carta derradeira deixaste sumir

Como se somem estrelas

E pétalas que caem

Perfeitas putrefatas

 

És o verme agora

E este te põe na cara

Cora coragem corrigindo

O edifício arquitetado

 

Postiço veio do abismo

Lamentação e plumagem

O homem que te justifica

É o que agora não mais virá

Mas que fica

Seja em sonho

Seja em cima

Da nobreza que tu vestes

 

Tiras a camisa

Para expor o corpo

Marionete movente da vida

Milagre do que não sabes

 

E por contraste

Ainda que tu não sintas

Não temas:

Para o olho que tu tens na face

O espelho que te ilumina

 

Desças da Fortaleza que tiveste

Poupe de ti o desgaste

Não há mais combates nem mais sofreres

Acima da vela içada

Acrescente um pássaro

Para anunciar outra vida

Da parte apartada de ti

Da parte que está em ti

Da parte a parte a parte

 

Descomece do começo

Destrua esta couraça

Que bailem por sobre ela

Estrelas do desenlace

Neste dado de jogo

Neste jogo de dados

Bruma espuma sombra turva água:

 

O MISTÉRIO

 

Receba o anjo mensageiro

Aceite o que te anuncia

Tudo tão certo

Como este verão pisando em ti

Para

       A estrada

         A estrada

           A estrada

 

Brasília, 10 nov. 2013.

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