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SARARIMAN

Geral por em 2016-03-04 16:09:44


                                                                                                          Por - Edweine Loureiro

A origem, claro, vem da palavra inglesa salaryman. Em bom português, “o homem do salário”, o que por sua vez significa, mais especificamente, assalariado. A palavra é inglesa, mas creio que não há país mais apropriado para seu uso que o Japão. 
Não é segredo para ninguém que o japonês vive mais para o trabalho que para a família. E isso deve ser herança do shogunato, cuja devoção ao dever levava, literalmente, à morte. Hoje em dia, o feudo só trocou de nome. Chama-se kaisha (traduzindo: empresa). Mas a devoção ― principalmente por parte dos senhores, os jovens nem tanto ―, continua intacta. Mudar de família, é aceitável: de empresa, JAMAIS! Ser demitido, então, equivale à pena de morte. Uma vez que ― e esta é uma triste realidade dos finais de ano japoneses ―, é grande o número de suicídios de trabalhadores ao serem demitidos. De tal modo que, em todos estes anos no país, não foram raras as vezes em que testemunhei a parada do metrô porque alguém havia se atirado aos trilhos. 
E o não é somente a demissão: há também o estresse, provocado pela pressão, pelo cansaço, por sua vez oriundos das excessivas horas de trabalho. Sim, porque o chamado sarariman, aquele tipo que usa paletó e camisa sempre da mesma cor (respectivamente, preto e branca), este é o símbolo do trabalhador japonês que prefere ficar treze, quatorze horas, na empresa, do que em casa ― ainda que o trabalho de fato resuma-se a, quando muito, três horas ao dia. 
Porém, leitor, não se iluda achando que os nipônicos trabalham como loucos  ao longo dessas treze ou quatorze horas supracitadas, que passam na empresa (mesmo porque seria humanamente impossível!). Na verdade, o sarariman passa mais tempo perambulando pela empresa do que realmente trabalhando (sim, eles também têm suas malandragens) ― por exemplo, são inúmeras as reuniões durante o dia (inúteis, sempre), horas e horas saindo para fumar, encontros com clientes que duram duas horas para um assunto que em regra resolver-se-ia em cinco minutos etc etc. Mas o importante ė estar lá com os colegas (voltar à casa para quê?) e, de preferência, ser o último a sair, quase à meia-noite. 
Uma obsessão cultural, enfim, que não cabe mais na realidade econômica dos dias atuais ― que preza mais pela eficiência do que pelas convenções. Porém, os velhos e ultrapassados chefes que aqui comandam ainda insistem nessa filosofia, fazendo com que muitos de seus empregados acabem tendo uma crise nervosa e, consequentemente, jogando-se debaixo do trem, do metrô, do prédio... ou do diabo! Vejam: comecei a ter um ataque de nervos e já nem sei mais sobre o que estava falando...  Opa! Lá vem o metrô!
***

Biografia:
EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residindo no Japão desde 2001. Premiado em concursos literários no Brasil e em Portugal, é autor dos livros “Sonhador Sim Senhor!” (2000), “Clandestinos” (2011), “Em Curto Espaço” (2012), “No mínimo, o Infinito” (2013) e “Filho da Floresta” (Prêmio LiteraCidade 2015). Seu ainda inédito “O Livro no Lixo” foi o vencedor do Prêmio Ganymedes José (Literatura Infantil e Juvenil) da União Brasileira de Escritores - RJ, em 2015.
Facebook: https://www.facebook.com/edweine.loureiro?ref=tn_tnmn


Foto - Divulgação

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