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Falta de Memórias

Cultura por em 2016-03-05 21:24:15

Falta de Memórias

Por Ricardo Cravo Albin

Não de hoje me queixo do desrespeito com a memória deste país. Um país com tantas pressas (inúteis e devoradoras) e de tanta falta de atenção com o que, de fato, vale a pena. E este inconformismo ocorre faz tempo, muito tempo. Desde que tomei o encargo de desenvolver as coleções iniciais do Museu da Imagem e do Som, em 1965, passei a receber dezenas de pedidos de socorro de colecionadores. E comprovei, por décadas, o horror que é  tanto a pura e simples destruição de acervos,   quanto   o abandono de coleções preciosas, em todos as categorias: artes plásticas, discos, papéis, filmes, e livros, sobretudo eles, não bastasse hoje a ameaça do e-book.

Em relação às pessoas, aos personagens da vida brasileira, a situação não era (e não é) mais amável. O desterro de artistas valiosos, de homens públicos exemplares, e até de heróis possíveis, é abismador.

Desanimador também é o panorama de não conscientização que faceia todos os graus de ensino, elementar, médio e universitário. Eu cursei todos eles, e já no meu tempo de estudante a memória era vista como item ralo, quase burocrático, sem maior importância.

De lá para cá, creio que este patamar de avaliação para preservar ficou mais frágil. Vez por outra, ouvem-se tímidos muxoxos em defesa do acolhimento de memórias, de objetos ou de pessoas.

Vale registrar um veículo interessante de recuperação de identidade, os documentários. Alguns filmes documentários se vêm debruçando sobre histórias e personagens de nossa música popular, alterando, de certo modo, o desconhecimento a que eles eram tradicionalmente confinados.

Mas cadê os escritores, onde estão os dramaturgos e atores, em que vielas obscuras foram parar os artistas plásticos? Submergidos. Não despertando atenções nem de livros, simpósios, muito menos da eficácia de um registro fílmico. 

Agora mesmo, assisti na cinemateca do MAM à premiére de um filme dedicado ao pintor Glauco Rodrigues, o senhor das cores, o redescobridor das veredas plásticas do povo carioca, o retratista dos grandes brasileiros.

O gaúcho Glauco imortalizou os valores cruciais do povo, das coisas, de detalhes brasileiros em num baú tropicalista de provocação Mas o nosso pintor estava subtraído da memória da contemporaneidade.

Glauco resplandece no cinema, revisitado pelos amigos e pelas imagens, que lhe afiançam a importância.

Embora deteste o emprego da palavra resgate, pelo    uso  abusivo dela, o aparecimento do Glauco em filme de longa-metragem é um “resgate”. Animador e meritório. 

Dia 04 de março de 2016

Ricardo Cravo Albin

Presidente do Instituto Cultural Cravo Albin

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