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Stella Leonardos - Memória e Canção

Literatura por Diego Mendes Sousa em 2016-03-08 21:57:53

Stella Leonardos - Memória e Canção

Em seus mais de 90 anos de vida, Stella Leonardos soube manter a mítica que enaltece o seu nome: estrela literária de grandeza.


Poeta, dramaturga, romancista, biógrafa e tradutora, Stella Leonardos da Silva Lima Cabassa é um dos mais consistentes nomes da intelectualidade do país, ocupando largo espaço no melhor que a Literatura Brasileira produziu até aqui.

Carioca da Gávea, zona sul do Rio de Janeiro, nascida em agosto de 1923, Stella Leonardos lançou-se na poesia, mocinha ainda, com a obra Passos na Areia (1940), quando dos seus 16 anos de idade. De lá para cá, esta vocacionada autora publicou 250 títulos, imprimindo totais qualidades em todas as suas quimeras de alto nível, passando por momentos memoráveis como: Poesia em Três Tempos (1957); Cantares na Antemanhã (1970); Geolírica (1974); Romançário (1975); Romanceiro da Abolição (1986); Água Brava (1994), dentre outros importantes trabalhos literários.

Com o genial ativista Abdias do Nascimento, Stella Leonardos fundou o Teatro Experimental do Negro (TEN) em 1944, com a sua peça Palmares, abrindo novo caminho na dramaturgia brasileira.

O traço mais característico da linguagem de Stella Leonardos é a busca de uma memória cancioneira, advinda de suas vastas pesquisas do catalão e do provençal, o domínio pleno das palavras em inglês, francês, espanhol e italiano, que se traduzem em versos minados da raiz das cousas, do canto venturoso de sua alma nobre e dos voos raros de sua peculiar sensibilidade.

Stella Leonardos honra a nossa Língua Portuguesa, com um compromisso tão suave, quanto criativo, inovador e legítimo, em um epilírico na melhor das canções.

 

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(Memoranda - 2006)

 

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ANTIGO TEMA

 

De uma trovada guitarra

    faísca de pedernal

troam-te as trovas, Bandarra

     das terras de Portugal!

E um cavaleiro messiânico

       toma perfil sebastiânico

na lusiedade imortal.

 

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SEBASTIANÍSTICO

 

Mas antes que se apagassem

de areias inconsoláveis,

azuis del-rei divagaram.

E na vaga nuvinave

ei-lo que vinha a cavalo:

um cavaleiro alumbrado.

 

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DO CLANDESTINO POETA

 

Meus herdados astrolábios

                     ultrapassam astros altos.

 

Vogares do sem destino,

                   meu sonhar de caravela

- alto sonho em cada vela -

                   me armou de velas latinas.

 

Porque nasci português,

                  um portulano em meu peito

das mais épicas entradas,

                    das mais líricas saídas.

 

De bússola necessito?

                    Nem de bússola nem mapa.

 

Clandestino sou a bordo,

                   que aos olhos dos que me abordam

os poetas são clandestinos.

 

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CANTATA DA ATLÂNTICA TRAVESSIA

 

- Sobe, sobe, meu gajeiro!

Sobe, meu gajeiro real!

Dize adeus às terras lindas

e areias de Portugal!

 

(...)

 

- Desce! Desce, meu gajeiro,

desce, meu gajeiro real.

Aporta nas terras ínvias

com Pedro Álvares Cabral!

 

Vem a frota,

         se anuncia.

Vem e aporta

            - navegar tão preciso!

 

Do céu pasmo

    sol insólito

        se via.

 

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DO GAJEIRO REAL DA VISÃO QUASE IRREAL

 

Que novo mundo me avista?

 

Da gávea da caravela

   minha voz se faz de alvíssaras

e à vista da nova terra

       a vista minha, novíssima.

 

Avisto moura encantada?

     Mouras vestem de encarnado

e nesta não vejo veste.

     Morena morena pele,

só tinha encarnada a veste,

     mas negros cabelos lisos,

de moura encantada, avisto:

      lassas noites de feitiço

lhe escorrem pelas espáduas.

 

Que nova mulher é esta?

 

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CANTIGA SEM REMORSO

 

                     Degredado sou, não frade.

                        Amar cunhãs será fraude?

 

Aqui, mesmo o de olhos castos

           não pode evitar a carne.

 

Como carne ser pecado

           se a nudez é sem maldade?

 

Como ser maldade a carne

           se não se sabe o que é casto?

      

                          Degredado sou, não frade.

                             No amar cunhãs, o meu fraco.

 

 

 

 

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Nota crítica de Nelly Novaes Coelho:

 

"(...) universal pelo espírito criador, que a leva pelos caminhos ancestrais, redescobrindo raízes. Stella Leonardos já há muito se consagrou como uma presença emblemática na Poesia Brasileira."

 

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Nota de Antonio Olinto:

 

"Stella [ Leonardos] merece todo o respeito, a admiração e a gratidão de todos os que lutamos pela cultura neste País."

 

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Depoimento de Stella Leonardos:

 

"Cecília Meireles, Gilka Machado, Henriqueta Lisboa, Ana Amélia Queiroz Carneiro de Mendonça, Rosalina Coelho Lisboa.

Minha mãe, Alice Leonardos da Silva Lima, fez parte dessa geração de escritoras, literariamente respeitadas mas tendo que lutar contra o machismo.

As mulheres que escreviam eram vistas com desconfiança pelos homens, consideradas quase que marginais. Dizem que se houvesse mulher nalgum concurso literário geralmente perdia, vencida por um homem.

Minha geração foi melhor compreendida nas letras. Eu, pelo menos, jamais tinha do que me queixar.

Na década de 60, houve um grande concurso de poesia, promovido pela "Porta de Livraria", de O Globo, e o Instituto Nacional do Mate. Integravam a Comissão Julgadora: Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Paulo Mendes Campos,

Não é que minha "Geolírica" venceu?

Conversávamos a propósito de concursos numa sessão da UBE quando Manuel Bandeira entrou:

- Parabéns, Stella! Como você está escrevendo bem! Sabe que seu livro me enganou? Pensei que o livro fosse escrito ou pelo Ariano Suassuna ou pelo João Cabral de Melo Neto.

E no maior sorriso animador:

- Você está escrevendo feito um homem!"

 

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Stella Leonardos é membro da Academia Carioca de Letras, do PEN Clube do Brasil e há mais de 50 anos é secretária-geral da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro (UBE-RJ). Detentora dos mais significativos Prêmios da Literatura como: Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras (poesia); Fernando Chinaglia da UBE-RJ (melhor obra publicada); Luiza Cláudio de Souza do PEN Clube do Brasil (poesia); e Bienal Nestlé de Literatura Brasileira (poesia).

 

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MEMÓRIA FOTOGRÁFICA:

 

(Stella Leonardos e Sonia Sales)

 

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(Diego Mendes Sousa, Stella Leonardos e Luiz Gondim de Araújo Lins)

 

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(Antonio Miranda e Stella Leonardos)

 

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(Antonio Carlos Secchin e Stella Leonardos)

 

 

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Poemas de Stella Leonardos

Minuta de Diego Mendes Sousa

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