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Poetas do Rio de Janeiro

Literatura por Diego Mendes Sousa em 2016-03-08 22:10:26

Aves do Rio de Janeiro

Poeta Cecília Meireles


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NARCISA AMÁLIA

(Rio de Janeiro, 1852 - 1924)

 

Dirás que é falso. Não. É certo. Desço

Ao fundo d’alma toda vez que hesito...

Cada vez que uma lágrima ou que um grito

Trai-me a angústia - ao sentir que desfaleço...

E toda assombro, toda amor, confesso,

O limiar desse país bendito

Cruzo: - aguardam-me as festas do infinito!

O horror da vida, deslumbrada, esqueço!

É que há dentro vales, céus, alturas,

Que o olhar do mundo não macula, a terna

Lua, flores, queridas criaturas,

E soa em cada moita, em cada gruta,

A sinfonia da paixão eterna!...

- E eis-me de novo forte para a luta.

 

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JÚLIA CORTINES

(Rio de janeiro, 1863-1948)

 

 

Poeta, dentro de ti, desmesurado e arcano,

Ou se cava, ou se empola, ou se espedaça o oceano

De tua alma, que exala um contínuo clamor,

– Brados de imprecações e soluços de dor!

 

Nele canta e suspira a lânguida sereia

Do Amor; a Mágoa geme; a Cólera estrondeia;

E a essas vozes se prende a dolorida voz

Da Saudade, chorando o que ficou após...

 

E em torno desse mar, que ulula, e chora, e guaia,

E que o vento revolve e a aresta dos escolhos

Rasga, do mundo vês a indiferente praia...

 

E acima dele vês a abóbada infinita

Do céu plácido e azul, onde o esplendor dos olhos

Das estrelas, sereno e distante, palpita...

 

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GILKA MACHADO

(Rio de Janeiro, 1893-1980)

 

 

De quem é esta saudade

que meus silêncios invade,

que de tão longe me vem?

 

De quem é esta saudade,

de quem?

 

Aquelas mãos só carícias,

Aqueles olhos de apelo,

aqueles lábios-desejo...

 

E estes dedos engelhados,

e este olhar de vã procura,

e esta boca sem um beijo...

 

De quem é esta saudade

que sinto quando me vejo

 

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CECÍLIA MEIRELES

(Rio de Janeiro, 1901 -1964)

 

Imensas noites de inverno, 
com frias montanhas mudas, 
e o mar negro, mais eterno, 
mais terrível, mais profundo. 

Este rugido das águas 
é uma tristeza sem forma: 
sobe rochas, desce fráguas, 
vem para o mundo, e retorna... 

E a névoa desmancha os astros, 
e o vento gira as areias: 
nem pelo chão ficam rastros 
nem, pelo silêncio, estrelas. 

A noite fecha seus lábios 
- terra e céu - guardado nome. 
E os seus longos sonhos sábios 
geram a vida dos homens. 

Geram os olhos incertos, 
por onde descem os rios 
que andam nos campos abertos 
da claridade do dia.

 

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ADALGISA NERY

(Rio de Janeiro, 1905-1980)

 

Abro os olhos, não vi nada

Fecho os olhos, já vi tudo.

O meu mundo é muito grande

E tudo que penso acontece.

Aquela nuvem lá em cima?

Eu estou lá,

Ela sou eu.

Ontem com aquele calor

Eu subi, me condensei

E, se o calor aumentar, choverá e cairei.

Abro os olhos, vejo um mar,

Fecho os olhos e já sei.

Aquela alga boiando, à procura de uma pedra?

Eu estou lá,

Ela sou eu.

Cansei do fundo do mar, subi, me desamparei.

Quando a maré baixar, na areia secarei,

Mais tarde em pó tomarei.

Abro os olhos novamente

E vejo a grande montanha,

Fecho os olhos e comento:

Aquela pedra dormindo, parada dentro do tempo,

Recebendo sol e chuva, desmanchando-se ao vento?

Eu estou lá,

Ela sou eu.

 

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STELLA LEONARDOS

(Rio de Janeiro, 1923 - )

 

 

— Quem veste esse poncho

e encobre a cabeça?

Que vivo? Que morto?

Que réu de sentença?

 

         —Nenhum pobre diabo.

 

— Debaixo das abas

do imenso chapéu

há o rosto de um diabo

oculto dos céus?

 

         De um monstro sagrado.

 

 

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MARGARIDA FINKEL

(Rio de Janeiro, 1929 -)

 

Beijar-te. Os pulsos, os dedos,

a palma da mão.

Não dizer palavra.

E permitir que a flor de lótus de mil pétalas

se faça túnica de seda de mil abraços.

 

Nadar contigo no rio do Tempo.

E na cumplicidade das estrelas amanhecidas

confiar-te o silêncio de mil palavras.

E abraçar-me a ti,

como se abraçasse um campo de trigo dourado.

 

Beijar-te. Não dizer palavra.

Banhar-me em ti,

no mistério das águas nascentes

das cascatas, em meio ao verde

das florestas internas.

 

Naufragar em ti.

Seguir tuas correntes marinhas.

Não dizer palavra.

 

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Judith Grossmann Obituary

JUDITH GROSSMANN

(Rio de Janeiro, 1931 -2012)

 

esta voz que vive e se esboroa 
contra nítidos vitrais de cor grená, 
esta voz que vive e já retine 
como um selo e sinal de paraíso, 
esta voz puro céu não se confunde 
com escrita, traça ou cupim, 
descolore em líquidos azuis 
toneladas ou resmas de papel, 
mares, lares e túneis de só ir, 
esta voz que jamais se abateu 
por grafias por si próprias se constroem, 
esta voz se eleva e atinge as grimpas 
de prazer gritante ou sussurrado, 
esta voz sem pudor que predomina 
por telhados, ogivas e umbrais, 
esta voz que destrói qualquer cilada, 
impedimentos, álibis, ardis, 
esta voz que se dá a conhecer, 
aqui, agora ou mesmo acolá, 
esta voz quer falar o não-ditado, 
esta voz, esta planta, esta criança,
...que fazer com o que acaba de nascer?

 

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LÉLIA COELHO FROTA

(Rio de Janeiro, 1937-2010)

 

É pelos corpos que nos perdemos

de nós mesmos, para nos ganharmos.

É pelos beijos que nos despedimos

para nos encontrarmos pelos olhos.

É pela pele que escaldamos

o que em nós havia de secreto:

e é o nosso corpo entregue um corpo estranho

pois pertence só a quem amamos

por quem morosamente devassamos

o alheamento da carne-

o barqueiro, o pastor que a atravessa

num profundo arremesso vagaroso

levantando ondas, ondas, ondas e ervas

a subir e descer vagas e montes

levando-se com ele à raia clara

onde água a quebrar-se eu me constele

na sua barca, conduzida à praia.

 

 

 

 

 

 

 

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Escritoras do Rio de Janeiro

Minuta de Diego Mendes Sousa

Da Academia Carioca de Letras

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