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80 anos de vida de Astrid Cabral

Literatura por Diego Mendes Sousa em 2016-03-08 22:19:23

Infância em Franjas - Astrid Cabral e o elo das memórias revistas

Astrid Cabral - Um dos maiores nomes da poesia brasileira

Um escritor iniciado, à medida em que as suas vivências avançam em prospecção, estaciona o seu arsenal sentido, na infância. O elo das memórias não memórias de Astrid Cabral, ressurge em sua mais recente obra, intitulada INFÂNCIA EM FRANJAS (2014).

A abertura do livro acolhe uma declaração substancial da autora:

"Dos anos em que me alimentei de contos de fada e relatos maravilhosos, sobraram estas histórias verdadeiras em que fui protagonista."

"A Infância não passou de todo. Recolheu-se a um armário de lembranças-fantasmas, de onde às vezes escapam e me visitam."

Astrid Cabral maneja as suas palavras, com a ideia do poeta sírio Adonis, que escreveu o formidável presságio: "Não paro de andar atrás da criança que não para de andar atrás de mim".

O diálogo da poeta amazonense também retoma as vozes de um jovem escritor do nosso romantismo, Casimiro de Abreu, de quem Astrid Cabral retira o mote imaginário de seu Infância em Franjas, parodiando o clássico poema contido em As Primaveras.

 

Ai que não tenho saudades

da infância bem lá pra trás!

Que raivas choros temores

junto a adultos senhores.

E as tarefas rotineiras

que não acabavam mais?

à sombra de rijas regras

e urubus nos beirais!

 

Ai vontade de crescer

ouvir conversas inteiras

tossir e espirrar na igreja

e sem melindres dizer

indesejáveis verdades!

Enfrentar a lei dos grandes

e encarar o fogo do inferno

como conversa de espertos.

 

(Astrid Cabral)

A menina Astrid Cabral é rebelde e o senso de liberdade da escritora é agudo e irônico. Infância em Franjas é uma ruptura na poética de Astrid Cabral, um novo começo. Isso porque, os arreios perplexos da infância variam inesgotáveis nas reminiscências dos seus ciclos estéticos, acrescidos em três esferas distintas de iluminação criativa, nos desassombros da inocência: CABEÇA DE MENINA; ARMÁRIO DE LEMBRANÇAS e MEU PAI EM MIM.

Astrid Cabral atribui nas páginas de Infância em Franjas, um conto que está inscrito como Passeio em Madalena, onde a poeta repassa as suas lembranças no Recife: É o reduto onde ainda sou menina e onde meu pai continua vivo.

Infância em Franjas já é o melhor livro de poemas publicado no país neste primeiro semestre. Astrid Cabral é uma grande artista do verso, marcada por introspecções e paisagens anímicas.

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Poemas do ciclo CABEÇA DE MENINA:

 

Era casa só de meninas

bonecas fitas linhas

agulhas vidros de cheiro

batons grampos espelhos.

O menino ficou ali

poucos dias e trouxe

bola estilingue peteca.

Nosso alvoroço pensar

no rabinho entre as pernas

que nem o cachorro Fly

e o macaco xerimbabo.

Foi no sossego da sesta

que ousamos fazer o cerco.

- Mostra a salsicha.

Não se fez de rogado

e começou a fazer xixi

respingando em nossos pés.

 

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Me apoiei numa pedra

pra poder me levantar.

(O limo me enganou)

A pedra saltou longe.

Era um baita sapo de olho

esbugalhado em mim.

Foi um susto mútuo:

meus dedos na pele fria

fogo na cacunda dele.

Se espirrasse veneno

e eu ficasse cega?

Abalo de súbito medo

bateu-me no estômago

nojo ânsia de vômito.

Se nos contos de fada

sapos viravam príncipes

na minha experiência

pedras viravam sapos.

 

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Madrugada

sem resquícios de aurora.

      Acordam-me

antes dos sinos.

      Vamos à missa das cinco.

Chumbada de sono

      sonâmbula

visto-me sem ânimo.

Vai a família rua afora

      à parca luz de altos

lampiões cansados.

       Sigo atrás desgarrada

bêbada de preguiça.

Por que aquela missa?

        Do beco surge um homem

pondo a mão em minhas coxas.

       Grito. Ele corre e some.

A família se volta longe na rua:

     Olha só em que dá

não nos acompanhar!

       Olha só em que dá

na escura madrugada

     me arrastarem

sonâmbula à missa!

 

=======================

 

Mal entrei em seu quarto

ele parou de respirar.

Dei as costas pensando

é o soninho da sesta

acabou de almoçar...

 

Logo depois a amiga

me abraçou aos prantos

Papai... Papai... morreu...

 

Dizia haver escapado

a desastres acidentes

de trem avião e carro

naufrágios e incêndios.

(as cicatrizes no peito).

Mas partiria em surdina

dormindo de mansinho

no aconchego de seu leito.

 

Não imaginei que a morte

acontecimento tão grave

pudesse ocorrer suave.

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Poemas do ciclo ARMÁRIO DE LEMBRANÇAS:

 

Minhas palavras

acordavam o ódio

de minha irmã.

Ela se vingava

me jogando no chão

com murros e tapas.

Todos ficavam

com pena de mim.

Eu, a vítima.

Ninguém suspeitava

o peso e o poder

das palavras.

 

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Abri a porta a bem

apessoado empresário

da navegação fluvial.

Vinha visitar Dona Leonor.

Apaixonara-se loucamente

pela mulher mais bela da cidade.

Mas minha mãe rejeitou a corte.

Mais uma vez perseverou no luto

que lhe cobria corpo e alma.

Não despiu os véus da viuvez.

Nunca conseguiu enterrar

de verdade meu pai.

 

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Aqueles aniversários

eram mesmo do arromba

movidos a quituteiras

doceiras mesas e cadeiras

de aluguel pela varanda.

O convite era pra dois dias

com dormida no meio.

Tinha o dito dia da festa

e o do enterro dos ossos.

Certa vez comi tanto

que amanheci doente.

A dor de barriga não

parava e me sujei toda.

Tive que voltar pra casa

na calcinha da prima

rica. Seda pregas rendas

não apagavam a vergonha.

 

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O que machucava

não era palmada

nem mesmo surra.

A carne da bunda

não tinha memória.

O que machucava

sim, era injustiça

ou a desmedida

entre culpa e castigo

seguida do perdão

sonegado ou adiado

por conta do orgulho

da autoridade ofendida.

Pior ainda, o discurso

rancoroso e chato

que ressuscitava

fato já encerrado.

 

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Poemas do ciclo MEU PAI EM MIM:

 

Debaixo da chuva

num vão de porta fechada

há um tempão na rua

que espero e espero o pai.

 

A chuva cai forte

o dia anoiteceu.

A correr o pai disse

me espera, eu já volto.

 

Chuva chuvando sem

parar. Na casa do céu

o chuveiro é tão alto.

Quem consegue fechar?

 

Meu cabelo pingando

vestido todo molhado

sapato encharcado.

E o pai nada de voltar.

 

Debaixo da chuva

estou sozinha tremendo.

A chuva é a única

presença que tenho.

 

O pai ainda não voltou.

Quando o pai voltar

pode continuar chovendo

não vou mais me importar.

 

Quando o pai chegou

trouxe um jornal grande.

Mãos em tanto papel

me fez chapéu gigante.

 

A volta do pai

suspendeu a chuva

secou toda a rua

e acendeu o sol.

 

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Embrulhada na saudade

atravessava as sombras

fantasmas das imensas

mangueiras do quintal.

(Os mortos disfarçavam-

se no meio das folhagens.

Invisíveis mas passíveis

de serem descobertos)

Onde estaria a figura

evaporada do pai?

Cansava pés e alma

nessa infinda procura

entre os galhos da noite.

Foi quando um anjo

de luz e misericórdia

varando novelo de nuvens

me tomou a mão dizendo

Vamos, ele está bem perto.

....................................

Então, caí da cama.

Acordada vi meu pai

olhando-me do retrato

na mesa de cabeceira.

A promessa de alegria

não passou de puro logro.

 

Infância em Franjas é uma obra rara, com apenas 300 exemplares em circulação e de 62 páginas, cujo projeto gráfico artesanal e ilustrativo é uma realização de Mariana Félix, filha de Astrid Cabral com o poeta Afonso Félix de Sousa.

 


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(Astrid Cabral)

" (...) Que no meio da série poética "Arredores da Morte" do meu novo livro "Íntima Fuligem", jorraram esses poemas de relativo alívio, embora resgatem uma infância não muito fácil. O fato é que na velhice olhar pra frente apavora, o desconhecido nos desafia e abala... E a velhice não tem piedade. "

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Uma cratera tão funda

furando o chão norte a sul

 

Estrelas a me piscarem

de lá do altíssimo azul

 

Plantas e bichos falando

língua que eu entenderia

 

Caravelas me levando

a terras fora do mapa

 

Gente grande generosa

que tudo me ensinaria

 

Meu anjo da guarda que

seu rosto me mostraria.

 

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Xô, xô, borboleta

sai da minha cabeça.

 

Falsa borboleta

de azul tafetá

avoa lá longe

onde haja flor.

 

Nos meus cabelos

não há mel a sugar

e o nó de teu laço

só me traz dor.

 

Xô, xô, borboleta

por onde eu for

desmancho beleza

com esta careta.

 

==================

 

Já temos um inimigo

disseram os colegas.

Os alemães afundaram

navio brasileiro

e Hindenberg é alemão.

Vi a cabecinha loura

no fim da sala e pensei

bobagem, o que tem

ele a ver com o tal navio?

Aguerrida, a meninada

queria mesmo apedrejar

sua casa beira-rio.

Eu disse, não façam isso não.

Me empurraram com raiva

traidora, mulherzinha boba

e saíram catando pedras

enchendo os bolsos das calças.

 

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Em Guaramiranga

me sentia um passarinho.

Amanhecia descalça

no orvalho do jardim.

Chupava jamelão e caju

roupa manchada de nódoas.

Um dia, um senhor chegou

e amarrou seu cavalo

em árvore junto ao portão.

Me olhou, deu bom-dia

tirando o chapéu de palha.

Subiu a escada do sobrado

abriu a porta e entrou.

Não demorou muito saiu

me abanando com a mão.

Logo a dona da casa

amiga da prima da vó

me chamou pra conversar.

Sabe esse moço que acabou

de sair daqui agorinha?

Não vi moço nenhum

só um senhor de chapéu.

Então, esse mesmo, menina!

Acabou de pedir sua mão.

Gostou de você e quer casar.

(Fiquei muda tanto o susto)

Bom rapaz. Filho de fazendeiro

rico. Conheço desde pequeno.

Família boa da redondeza.

 

Adorava Guaramiranga:

morar entre flores e pássaros.

Mas fingindo dor de dente

voltei correndo a Fortaleza.

 

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Sonhava minha cabeça

cheiinha de cachos.

Cabelos enroladinhos

que nem os da irmã

ou da artista Shirley Temple.

Naquele aniversário

pedi à mãe um permanente

no salão da Messody.

Mãos na minha cabeça

molhando e preparando

os lisos cabelos das tranças.

Estava radiante e ansiosa

no trono de alta cadeira

peças de metal tombando

de fios que abocanhavam

minha coroa de rolos.

Quinze minutos depois

o calor virou fogo de inferno.

-- Está queimando. Pode

baixar que não aguento.

Messody disse bem firme:

-- Pra ficar bonita tem que sofrer.

Telefonou à minha mãe

que confirmou na linha:

-- Pra ficar bonita tem que sofrer.

Então comecei a gritar:

-- Quero ser feia, quero ser feia

apaga a fogueira em mim!

Sem nem me olhar no espelho

saí de lá num rompante.

Feia, mas aliviada.

 

 

 

 

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Poemas de Astrid Cabral

Depoimento de Astrid Cabral

Minuta de Diego Mendes Sousa



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