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Renata Pallottini - Um Nome de Lume

Literatura por Diego Mendes Sousa em 2016-03-14 21:48:16

Um Calafrio Diário (2002) de Renata Pallottini


Renata Pallottini, uma das poetas de maior brilhantismo do Brasil

(Renata Pallottini nasceu em São Paulo, em 1931)

 

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Renata Pallottini começou a sua brilhante carreira literária no início dos anos cinquenta com o anunciador ACALANTO (1952), seguido por O CAIS DA SERENIDADE (1953), que ratificava o nascimento de uma das grandes damas da poesia brasileira.

A voz de Renata Pallottini é múltipla, com passagens pelo romance (NOSOTROS); conto (MATE É A COR DA VIUVEZ); teatro (PEDRO PEDREIRO); ensaio (INTRODUÇÃO À DRAMATURGIA) e literatura infantil (SEMPRE É TEMPO).

UM CALAFRIO DIÁRIO é um livro de poemas da maturidade de Renata Pallottini, publicado em 2002, sete anos após o lançamento da sua OBRA POÉTICA (1995), que abraçava dezesseis obras anteriores como A FACA E A PEDRA (1965), OS ARCOS DA MEMÓRIA (1971) e AO INVENTOR DAS AVES (1985).

Minha admiração por Renata Pallottini é antiga e profunda. Vejo em Renata Pallottini, um limiar de palavras que se acendem na força lírica e indagativa dos seus luzeiros repletos de vida, sons e imagens.

Renata Pallottini sabe mover o verso, conhece os meandros estéticos da linguagem. Em seus poemas, renovam-se as belezas, o apuramento da alma, a depuração dos sonhos... e sobretudo, as lembranças, as memórias e os nomes da existência. O canto de Renata Pallottini é um vazamento de amor e encantamento.

Hoje, merecidamente, Renata Pallottini ocupa uma cadeira na Academia Paulista de Letras, Casa de muitos valores como Fábio Lucas, Anna Maria Martins, Paulo Bomfim, Ives Gandra da Silva Martins, Ignácio de Loyola Brandão, Ruth Rocha, Celso Lafer, Gabriel Chalita, Juca de Oliveira e Lygia Fagundes Telles.

 

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DIANTE DO LAGO SEM NOME...

 

Como sempre, diante do lago sem nome,

tenho temor à morte, peço contas à vida,

estremeço sem causa enquanto as meninas brincam

lembro o meu ser menina, é fácil a memória

a saudade é tão simples

os manacás do tempo, esse perfume.

 

Vejo os montes da terra acumulados

e o ônibus que passa me remete a outras terras

onde fazia calor e era noite e eu amava

num espaço estrelado e vegetal.

 

Hoje, à beira do século ou no final do século

hoje, enquanto a chuva cai e os mosquitos cantam

hoje, o calor contando casos, diante do lago sem nome

digo teu nome

 

e penso sem mais travas nesta noite

beber meu vinho à proteção dos deuses

fazer caminho

enquanto a chuva desce

vencer a lama do ano velho

 

à sombra do teu nome.

 

 

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VELHICE

 

Recolhemos vestígios:

o que fomos

o linho dos vestidos

os armários da sala.

 

A velhice, forçoso é-nos

guardá-la.

 

 

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O QUE?

 

Que é que move o teu corpo?

Que sopro, que mergulho

que tormentoso orgulho

que inferno de soberba

quem faz de tua coluna

esse mastro invencível de galera?

 

Quem faz que sempre fosses

o que eras?

 

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DOMÉSTICA

 

Serviu

a vida inteira.

 

Conheci pouca gente

tão livre.

 

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FALAR CONTIGO

 

Falo contigo

e é como se falasse

com essa qualidade

de luz das árvores.

 

É perfurar o verde

e emergir do outro lado

(o úmido porvir

dos vegetais).

 

Falo contigo

e compreendo o estado

dos sons que surgem

à noite, noite-em-claro.

 

Falo contigo

e entendo

o que não tem sentido.

 

Amor é assim, palavra:

lume comovido.

 

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POEMA

 

Toda a carne

eu te dedico.

 

A do corpo

a que como.

 

Todas dedico

meu amor

à tua fome.

 

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ATIRA PARA O MAR

 

Atira para o mar as tuas coisas

abandona os teus pais

muda de nome

 

esquece a pátria

parte sem bagagem

fica mudo e ensurdece

abre os teus olhos.

 

Se o teu amor não vale tudo isso

então fica onde estás

gelado e quieto.

 

O amor só sabe ir de mãos vazias

e só vale se for

o único projeto.

 

 

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ESTAR

 

Sei que o estares em mim

conforme o tempo passa

é uma forma de estar em ti

o tempo.

 

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ESTENDE SOBRE MIM...

 

Estende sobre mim uma peça de seda.

Estou suja de sombras.

Ensina-me a subir até o cimo das árvores

a viver sem ter fome

 

a partilhar a cor que há nas asas dos pombos.

 

Ensina-me por fim a prescindir.

A estar porque existo

a resistir a qualquer grande frio

e a dormir.

A dormir porque as noites estão aí

para isso.

 

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ESPELHOS

 

Esta noite morreu um cavalo no lago.

Chamava-se

Narciso.

 

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IMÓVEL, NO NEGROR DA NOITE...

 

Imóvel no negror da noite

protegida

pela clara inconsciência

do amor pretendido.

 

Amor: essa palavra

que todos dizem.

 

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LONGE

 

Estão passando caminhões na estrada

me pergunto, pra onde estarão indo?

Para que morte,

para que destino?

 

Que amores levarão na sua cabine

que amores levarão

no coração?

 

Passam os caminhões e às vezes buzinam.

Para onde vão?

 

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(Fábio Lucas autografando para Renata Pallottini)

 

"Vejo em todo o seu percurso a busca da essência lírica. De um lado, a poesia se dirige às raízes do sangue ou da formação espiritual (...); de outro lado, a expressão se abre para o campo da utopia ou do sonho. Daí a motivação política, associada à conquista individual da felicidade."

 

Depoimento de Fábio Lucas, um dos nomes mais expressivos da crítica literária brasileira.

 

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QUERIDO

 

O meu amor era alto

e tinha uns olhos rasgados

e tinha as mãos alongadas

mas me parecia triste.

 

Foi quando deixei de amá-lo

que ví que tudo que existe

é só o que a gente quer

que exista.

 

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LAVAR

 

Lavar copos e xícaras

o meu

sem propriedade.

 

Com um domínio do corpo e do objeto

que só te dá

a maturidade.

 

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VIDA

 

Bem por debaixo

das rosas

um carreiro

de saúvas.

 

 

 

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Poemas de Renata Pallottini

Minuta de Diego Mendes Sousa

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