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Geração 65 do Recife - 50 anos depois

Literatura por Diego Mendes Sousa em 2016-03-14 21:57:10

Benjamim Santos na Geração 65 do Recife - Reposicionando o Poeta

CURRAIS NOVOS - Região do Seridó (Rio Grande do Norte)

Benjamim Santos precisa aflorar com destaque, na Geração 65 do Recife. A cultura de Pernambuco deve reposicionar a maturidade poética de Benjamim Santos, que embora tenha nascido no Piauí, honrou a escritura de uma época emotiva e intelectual, com poemas que somente vieram a lume, agora, quando da comemoração dos 50 anos do grupo literário pernambucano.

Os poemas aqui transcritos, também marcam o início da carreira  literária de Benjamim Santos, que ainda jovem, na flor laçada dos seus vinte e poucos anos, já mostrava enorme fulgor cultural, que se confirmaria um pouco mais tarde, na dramaturgia, na crítica teatral, na hagiologia, na produção de musicais, do homem de pensamento afeito sempre ao melhor.

 

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"Quanta beleza! É essa secura repleta de sensibilidade, que sempre procurei em todos os poetas que li. Formidável! A contenção, a transparência, o retrato do pedregoso, o som do interior contaminado com o interior reflexo do poeta, só iluminam as suas palavras com chave do sentir sem sentir, do envolver sem se deixar envolver. São fotografias muito originais. Cresci com o que li. É sim, magistral, o poema A TERRA. Que humanidade secular. Tão alto quanto Pessoa ou Sophia. E em CERCAS DE PEDRA se avoluma uma profecia raríssima. Que imagem de sertão desperto!"

 

Depoimento de Diego Mendes Sousa sobre a poesia de Benjamim Santos.

 

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Dramaturgo Benjamim Santos nasceu na Parnaíba, Piauí, em 1939

 

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"O ano de 1965 entrou com uma espécie de salvo-conduto para a renovação da cultura do Recife. Depois do baque frontal de 1964, o novo ano deu um giro restaurador em todos os aspectos do fazer-arte no grande Recife. A poesia, embora ainda contida pela morte de Carlos Pena Filho e se satisfazendo com o que João Cabral e Joaquim Cardoso escreviam longe, foi, de súbito, reflorada pelo primeiro livro de Deborah Brennand (que ninguém imaginava poetisa) e por um grupo de poetas que se tornou conhecido como Geração 65. Eram Alberto da Cunha Melo, Marcus Accioly, Jaci Bezerra, Janice Japiassu... Quase todos de Jaboatão, mas foi no Recife que se firmaram como poetas. Conheci todos eles e, por época, eu tinha já poemas escritos, que até encadernei em forma de livro que ainda guardo comigo. Se eu tivesse preferido a poesia, por certo estaria incluído naquela 'geração', mas preferi o teatro e, em junho de 65, estreei meu primeiro espetáculo, CANTOCHÃO. Agora, completados cinquenta anos daqueles primeiros poemas, escolhi alguns para marcarem a data e meu início poético. Aqui vai uma série daqueles que tratam da minha viagem de carro de Natal a Caicó, me escondendo dos militares do Recife. Foi numa manhã de sábado e a região do Seridó marcou para sempre em mim seu ferro ensolarado."

 

Depoimento de Benjamim Santos

 

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ACARI

 

Finalmente de longe eu vi Acari tão perto.

Vi Acari descendo e na ladeira

a falta de orvalho ou chuva.

A igreja, serena e portuguesa,

recompunha um passado revestido de cal

e andorinhas em tarde quieta.

A igreja ardia no constante grito daquela terra.

 

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JARDIM DO SERIDÓ

 

As flores se descobriam

no Jardim do Seridó

quando passei meio-dia

quando passei devagar.

Na calçada seis olhares

do Jardim do Seridó

escondiam rubros males

quando eu passei devagar.

Ouvi silêncio nas folhas

do Jardim do Seridó.

Cismei vestígios de amêndoa

quando eu passei devagar.

Havia romã escondida

no Jardim do Seridó?

Havia roseira (havia?)

quando eu passei devagar?

Que dizer das ruas largas

de Jardim do Seridó?

Das casas roendo mágoas

quando eu passei devagar?

Um galo cortou ao meio

o Jardim do Seridó

separando a rua e vento

quando eu passei devagar

e olhava para o céu

do Jardim do Seridó

(Ah, o Jardim do Seridó)

quando eu passei devagar.

 

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CERCAS DE PEDRA

 

São pedras que se amontoam

por mil quilômetros afora.

Vieram mãos na manhã compor

estas cercas com cheiro de madrugada.

Quantos braços aqui trouxeram fadiga

seguindo rente à estrada

como para enfeitiçá-la?

Quantos braços, quanta sede

e fome e descalabro,

secura e tristeza, beleza agonia.

 

As pedras têm tantas cores

ao sol, faíscas, centelhas.

São cercas que só terminam

quando lhes rouba terra a cidade.

Um cachorro passeia por cima

e o diabo corre por baixo,

rasteja colado às pedras.

O diabo vagueia por estas terras

mas tem marcados o tempo e o espaço

que terminam sempre que um anjo

venha apontar-lhe com a espada

o longo caminho de volta.

Pois os anjos, sim, por aqui campeiam.

Guardas e guias, revelam a vereda e a sombra.

Diz-se que escondem as asas

debaixo das grandes pedras

para evitar que possam as vacas descobri-las

e partir, voando destes campos

em busca de novas pastagens.

Talvez, quem sabe, aconteça um dia

e pelo ar voarão ovelhas,

cabritos e bodes e carneiros

e os touros e bezerros e as vacas

pelo céu, por sobre os campos

à procura do verde dos pastos do Piauí.

 

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CAICÓ

 

Dez cabeças

de gado escuro e cinzento

ostentavam o couro e o ferro.

 

Uma estrela

de ouro luzindo e vermelha

redourava o lombo de couro.

 

E se houvesse

cangaceiros por estas bandas?

E se rendeiras houvesse?

 

Mas que fizeram

os vaqueiros das esporas,

de seus cavalos e arreios?

 

São estes campos.

Estas paragens. Estas cercas.

Eu sei: meu corpo sente.

 

O bode é

envernizado e polido

luze-luzindo no claro destas horas.

 

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CURRAIS NOVOS

 

Eu escutei, Currais Novos, teu canto

quando soprava de leve um vento vago

como as brisas que tantas vezes senti

renovando-me as mãos, o rosto, há muito tempo.

O gado encurralado ruminava um pouco de ti

e das vidas de homens que pisavam tuas ruas.

Eu vi teu gado: vacas de altaneiras manchas

pardacentas ferradas no ventre,

amargando o castigo dos ferros (quantos ferros)

e dos espinhos que os cascos amedrontam;

nobres touros que espanhas invejariam,

os chifres escondendo lembranças

de inquietas vaquejadas, orgulhosos gritos

e aboios e laços e correrias.

 

Eu escutei, Currais Novos, teu canto

a resvalar no solo, nas pedras úmidas

de chuva e frio, frias e molhadas.

Era um canto grosseiro como a terra,

brotando rasteiro e subindo, subindo

maravilhoso para perder-se

sem poder outra vez reencontrar-se,

sem poder jamais ser repetido, recantado,

aquele canto de terra brava e pedra marcada,

de sol a queimar o cacto incendiável.

 

E ficou em mim gravado aquele canto perdido.

Ficou o cheiro das mulheres, a força

dos homens, o coreto cinzento, a igreja fechada,

tudo ocultando sombra de padres e vaqueiros.

E como poderei esquecer se era um grito?

Um grito estranho, forte, audacioso,

que era o teu canto, Currais Novos, bem sei.

Era o teu canto.

 

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A TERRA

 

Quisera que as cabras e ovelhas despertassem

todas as manhãs ouvindo

a ode árida das terras do Seridó;

que viessem sonolentos os carneiros

e os bodes e os cabritos se esgueirando

entre pedras que a manhã descobre escuras;

os peixes escondessem a prata de suas escamas

sob a calma dos trezentos açudes

e a folhagem ressurgisse verde

de um ensolarado verde vário e nosso,

ressurgisse pasto para a secura de tempos passados,

quando o inverno apontava no riso escancarado

dos vaqueiros de couro tostado,

dos pequenos cabreiros que margeiam as estradas de sol e barro.

Quisera que os azuis, ao longe encobrindo o verde das serras,

pouco a pouco viessem descansar avermelhando-se,

pouco a pouco, azuis avermelhando-se.

E o céu de repente entendesse nossa agonia,

essa extrema fagulha de riso e ternura

em que escondemos a angústia, a tortura e o tédio

de nossas próprias incompreensões comuns.

Então nem precisaríamos de espingarada

para tocar com as mãos a juriti cinzenta.

Vieram pombos livremente sossegar em nossos ombros

e sapos e rãs, desencantados, ressurgiriam

príncipes e nobres como em ancestrais histórias

que ano a ano vamos esquecendo. Esquecendo.

Eu quisera que os rios jamais secassem

e que as folhas não caíssem tão secos, como certas vidas,

e que essas vidas despertassem na aurora dos tempos,

como velhos pescadores que antes do amanhecer

reconhecem as ondas jamais vistas.

Seria um tempo outro, mais claro e nobre

e eu estaria ali, nalgum lugar da serra,

contemplando a eterna beleza desta mesma terra.

 

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(Benjamim Santos, Jorge Tufic, Tarciso Prado e Diego Mendes Sousa)

 

 

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Poemas de Benjamim Santos

Minuta de Diego Mendes Sousa

 

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