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Solidões da Memória (2015)

Literatura por Diego Mendes Sousa em 2016-03-14 22:02:34

Solidões da Memória (2015) - Casalma de Dalila Teles Veras

Poeta Dalila Teles Veras com Solidões da Memória chega ao seu cânon

(Dalila Teles Veras nasceu em Portugal, em 1946, mas vive em Santo André - SP)

 

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Solidões da Memória (2015) de Dalila Teles Veras é um salto do passado para dentro do próprio Tempo, a recolher as lembranças da infância, ao sopro das memórias da casalma (casa e alma), da raiz, no coração onde se nasce, donde se vem.

O título do livro é uma ressurreição dos versos de Raul Bopp, poeta máximo que escreveu inspirado: Saudade é uma revivescência/ Solidões da Memória/ coisas que ficaram no outro lado do mar.

Dalila Teles Veras levanta o seu estro refinado, com impregnação de mar e saudade, a reviver todas as coisas que se foram. Sua poesia é forte, a carregar na cartografia insular da vida, a passagem da aventura e da travessia, que leva também ao regresso de nós mesmos: contemplar, ecoar e nomear tudo o que é registro de uma existência eletiva e onírica nos seus silêncios mais fundos.

Poesia madura, ponto alto de colheita e educativa, no ideal de busca, pois viver é buscar-se no infinito.

Solidões da Memória foi o primeiro grande livro que li, feito com verdade e sabedoria, neste começo de ano chuvoso, e, por isso mesmo, melancólico.

Solidões da Memória é um repertório erudito que evoca a eternidade de excelentes autores, como Murilo Mendes e Sophia de Mello Breyner Andersen.

 

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CONFIDÊNCIA DA MADEIRENSE

 

                           Alguns anos vivi em Itabira.

                                        Principalmente nasci em Itabira.

                                        Por isso sou triste,

                                        orgulhoso: de ferro.

                                                   Carlos Drummond de Andrade

 

 

alguns anos vivi na madeira

principalmente nasci na madeira

por isso sou melancólica, teimosa: urze

de nascença, em luta frente às intempéries

(de solo, do vento e das vagas marítimas)

alma em permanente desassossegar

 

da madeira nada de material veio comigo

e não há nada que eu possa ofertar

mas da madeira vem este ar atrevido

a língua maldicente e áspera

e o hábito de tudo reclamar

atavismos que a consciência, por vezes

                             rejeita

 

a madeira não é apenas fotografias

é a memória real dos precipícios

                    e das vertigens

encordoamento

       do que não parecia lembrado

                     mas é

a memória do que não foi

                   mas poderia

e sequer dói

 

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RIZOMA

 

              Vestígios de pegadas nas areias,

                     restos d'ossos roídos e d'espinhas

                                              António Barahona

 

a infância e a memória

da infância, submersa

na líquida travessia

 

vez por outro

o atlântico deposita

ossos datados

nas terras do exílio

 

(a menina antiga

recebe os sinais

códigos esquecidos

legendas para o lembrar

- revivências)

 

a memória da infância

é a memória possível

(e só à poesia cabe recriar)

 

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ILHA

 

           Em sal espuma e concha regressada

                à praia inicial da minha vida

                           Sophia de Mello Breyner Andersen

 

 

a ilha, nem

ilha era (o mar

nesga

ao lado e à frente)

 

a ilha, não

tinha fim nem

começo, rosário

de sal ao pescoço

 

a ilha, o espaço

do jardim, calcetado

de seixos e

ervas de permeio

 

a ilha, o curto

caminho de casa

à escola

visconde cacongo

 

a ilha, o longo

percurso da escola

à casa

(fortificada ilha)

 

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Esta obra foi inventada após uma viagem de Dalila Teles Veras à Ilha da Madeira, Portugal. Um passeio criativo que ela anotou em sua caderneta de paisagens apreendidas, anexa ao livro, onde descobrimos a origem dos poemas presentes em Solidões da Memória.

 

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EDUCAÇÃO ELETIVA

 

             Alguém te contempla

             Desde antes do tempo começar

                            Murilo Mendes

 

 

a tia

 

(sempre haverá uma tia, na

vida de todos os seres viventes

não qualquer tia

mas aquela, para além do sangue,

            a eleita

  antes mesmo de o ser

aquela que contempla

 e enxerga o escuro

     aquela que sabe

da dor e da fome

e, garras à mostra

  afugenta intrusos

          acode

agasalha

        acalenta

afinidade eletiva

antes mesmo de

  qualquer começo)

 

sim, a tia

como esquecer?

 

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MARINHAS

 

               Mas, se vamos despertando

               Cala a voz, e há só o mar

                          Fernando Pessoa

                                            

 

havia manhãs

em que, ao abrir da janela

era só o mar e o mar

                         o mar

                         o mar

                         o mar

aqui e além, barcos

quebravam em dois

o azul

inauguravam o branco

desenhavam a espuma

 

e não havia palavras

só as ondas

     as ondas

     as ondas

 

via, ouvia

         calava

 

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BAGAGEM

 

             de lado a lado

                    a casa é uma viagem

                                Irene Lucília Andrade

 

haveria de ser grande e bonito

o baú encomendado ao tio

madeira coberta por folhas de flandres

tachas reluzentes e batique florido

(abrigar os pertences

resistir às intempéries atlânticas

e, por fim, servir de móvel

no destino novo)

 

ali, na austeridade da arca

a casa

reduzida ao essencial

 

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CASA

 

         Vendam logo esta casa, ela está cheia de fantasmas

                                José Paulo Paes

 

morta a dona

morta a casa

 

morta a casa

morta a memória

 

morta a memória

morta a memória da memória

 

morta a memória da memória

o vazio da casa

morta

deixada morta

pela morta que a deixou

 

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CONTEMPLAÇÃO        

 

                Ó céu azul - o mesmo da minha infância-

                Eterna verdade vazia e perfeita!

                        Fernando Pessoa  

 

à varanda

     : o oceano

em verdes e azuis

adornado

 

a imensidão ondulada

(mar a confundir-se céu)

segue nos tempos

(este, mais o da lembrança)

nunca a mesma

nem aquela que a contempla

 

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(Os Poetas Álvaro Alves de Faria, Eunice Arruda e Dalila Teles Veras, uma trinca de dicções aladas)

 

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A MESA, À MESA

 

              estavam à mesa carregados de passado

                            Valter Hugo Mãe

 

à mesa,

a mesa - gesto

ritualístico

o mesmo

das mãos que um dia

também me embalaram

 

pão e herdade

repartidos, aromas

e nomes, epifanias

gustativas

presença e gozo

relicário

 

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EDUCAÇÃO PELO SILÊNCIO

 

             Dentro das mangas do casaco os braços de trigo,

             não passaremos fome.

                         Teresa M.G. Jardim

 

rosto vincado

palavras poucas

a avó viloa

sempre de negro

(viúva por antecipação)

em silêncio, gestos

apressados, ordenhava

a cabra e, logo

o café com leite

as palavras inauditas

aquecia

 

em silêncio, desaparecia

em meio às videiras

, cachos a luzir nos bolsos

do avental, voltava e

em silêncio, levava-me

ao moinho (o pó do trigo

a cobrir-lhe cabelos e pestanas

- neve onde neve não havia)

 

na casa antiga, em pedras

              alicerçada

dava-se o milagre

:

da massa para o pão

recebia um pedacinho

para moldar uma boneca

que iria ao forno e à espera

 

em silêncio, celebrávamos

           o pacto do sangue

na pedra firmado, código

para enfrentar sortilégios

 

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Poemas de Dalila Teles Veras

Minuta de Diego Mendes Sousa


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