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Ives Gandra da Silva Martins - Meu Diário em Sextetos (2016)

Literatura por Diego Mendes Sousa em 2016-03-14 22:19:43

Meu Diário em Sextetos (2016) - Ives Gandra da Silva Martins

Poeta Ives Gandra da Silva Martins, que é jurista e filósofo

Ives Gandra da Silva Martins nasceu em São Paulo, em 1935

 

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MEU DIÁRIO EM SEXTETOS (2016) de Ives Gandra da Silva Martins foi escrito mês a mês, dia a dia, durante o turbulento ano político de 2015. Apesar dos muitos sextetos, o Poeta Ives Gandra da Silva Martins  incluiu no livro, quartetos e um falso soneto.

 

Nos poemas aqui selecionados, preferi aqueles em que Ives ressalta o tempo e o seu amor a Ruth, sua musa e companheira. Isto porque, no transcurso do livro, o cidadão e grande brasileiro Ives Gandra da Silva Martins repudia os atos de Dilma e Lula e demais corruptos da nação, inaugurando a obra com O Poder Sem Virtudes: O poder sempre me enerva/ É sempre a mesma caterva/ Que o mantém com suas tralhas, / Os poucos de bons princípios / Desabam nos precipícios / Derrotados por canalhas.

 

Esses versos de denúncia perpassam vivos, a mostrar a realidade cruel e nociva da política que apodrece do norte ao sul da nossa larga geografia. É a visão de um notável jurista e filósofo, que cumpre o seu múnus público, o seu dever social.

 

Cansei-me deste país.

Não do Brasil que me quis,

Mas da corja que o dirige.

Poucos bons, muitos canalhas,

Com seus castelos de palhas

Tendo o roubo por efígie.

 

 

Deixando essa dor coletiva de lado, posto que é amarga e triste, o lirismo de Ives Gandra da Silva Martins se alarga perante a sua alma sábia, que sabe que a poesia é a melhor via de ascese e encantamento, que nos faz outro, abertos para o sonho e para o voo da alegria-imersa no interior.

 

Ives Gandra da Silva Martins faz belos versos como quem faz clarões, magias e espantos sobre todos os instantes vividos, da vida sempre vivida.

 

Há exatos 60 anos, Ives Gandra da Silva Martins iniciava a sua carreira poética com Pelos Caminhos do Silêncio (1956). Pertence à Geração de 45, segundo a classificação de Carlos Nejar no seu História da Literatura Brasileira - Da Carta de Caminha aos Contemporâneos.

Ives Gandra da Silva Martins é membro da Academia Paulista de Letras e da Academia Brasileira de Filosofia, que teve dentre os seus fundadores a expressão magnífica de Gerardo Mello Mourão, poeta épico nascido no Ceará.

 

 

 

 

JANEIRO

 

A

 

Uma quadra sem sentido

Não deveria escrever,

Mas eu escrevo esquecido

De falar sobre o poder.

 

B

 

Quanto mais esquisitice

Mostra um governo aturdido,

Tanto mais a canalhice

Torna este povo ferido.

 

C

 

Não sei se, às vezes, menino

Sou demais na minha idade,

Mas busco, no meu destino,

Encontrar sempre a verdade.

 

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O sábio pouco se importa

Em ter poder. Não exorta

Os outros a admirá-lo.

Bem vive o tempo que resta,

No seu saber faz a festa,

O resto joga no ralo.

 

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Somos as folhas tombadas,

Que morrem sempre caladas,

Quando o tempo tira a vida,

Nada levamos da terra

E a louca luta se encerra

Para sempre adormecida.

 

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Quem na vida tem um sonho

Jamais se torna tristonho,

Pois luta por atingí-lo.

Pouco importa se consegue,

O que importa é que navegue

Tendo sempre o seu estilo.

 

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Quanto mais canto meu canto,

Mas de mim afasto o pranto

Dos limites da velhice.

Vivo sempre aberto ao mundo

Bem querendo em tom profundo,

Mesmo à luz desta sandice.

 

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Vou-me embora p'ra Jaragua

Lá minha casa tem água,

Numa azulada piscina.

Minha família do lado,

Nunca, me deixa calado

E Ruth é minha menina.

 

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Velhice tem seus encantos,

Descobrem-se mais recantos,

No coração escondidos.

Ama-se mais quem nos ama,

Os fatos não geram drama,

Como nos passados idos.

 

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O meu sentido da vida,

É ter Deus na despedida,

Prestando contas dos anos,

Mostrando os erros e acertos,

Momentos calmos e apertos,

Como fazem os humanos.

 

=====

 

Mais um mês eu hoje encerro,

Com versos a fogo e ferro,

O talento sempre escasso,

Porém, promessa é promessa,

E assim escrevo sem pressa,

Em temas que não refaço.

 

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Ruth minha namorada,

Continua minha fada

Sem varinha de condão,

Em sessenta e duas vezes,

Durante dias e meses,

Conquistou meu coração.

 

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Por mais longa é sempre breve,

A vida que é muito leve

Pra quem a sabe levar,

Deixar na terra seu rastro

É como elevar um mastro

Por sobre as ondas do mar.

 

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Por verde mar de sargaços,

Onde meus versos escassos

Navegam mirando os astros,

Eu desvendo as sesmarias,

Rondando nas maresias,

Meu barco de longos mastros.

 

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Descobrir no meu abismo,

Sempre que na vida cismo,

O seu fundo mais profundo,

É como abrir no Universo,

Apenas com pobre verso,

O espaço além de meu mundo.

 

=====

 

Eu sonho, malgrado a idade,

O pretérito é saudade

De lutas e de alegria,

Mesmo com contradições,

As minhas convicções

Firmaram-se dia a dia.

 

====

 

Descobrir no meu abismo,

Sempre que na vida cismo,

O seu fundo mais profundo,

É como abrir no Universo,

Apenas com pobre verso,

O espaço além de meu mundo.

 

=====

 

A chuva pela janela,

A sala em luz amarela,

Num dia cinzento e frio,

Minha saga de sextetos,

Transformados em folhetos,

Com o tempo eu concilio.

 

=====

 

O muito que pouco somos

Tais livros em muitos tomos,

Mostra a verdade da estada,

No Universo um mero ponto,

Que nem mesmo o melhor conto

Torna grande o pobre nada.

 

=====

 

São oito meses que ponho

Em verso, às vezes bisonho,

A inspiração em declínio.

O caderno em que versejo

Exerce em mim um lampejo

Do mais estranho fascínio.

 

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AGOSTO

 

1

 

Ah suspirar as manhãs

Que morrem sempre de noite!

Aspirações são tão vãs

Varridas por um açoite.

 

2

 

Deus fez o corpo tão belo

Muito comer fá-lo horrível,

Não encontro paralelo

deste dilema terrível.

 

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Estive na Academia,

Meus confrades cada dia

Envelhecem num portal.

Quando se tem esta sorte,

Está-se perto da morte,

Malgrado ser imortal.

 

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O tempo é muito veloz,

É muitas vezes atroz

Na vida que temos, breve,

Corre curta, a primavera,

E nela o que sempre impera

É o que Deus a nós escreve.

 

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Apesar de minha idade

E ter dos tempos saudade

Meu amor por ti não cessa,

Tem a pureza de infantes

É tão forte quanto dantes

E não há quem ele meça.

 

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Meu cavalo cavalgado,

Eu cavalgo desde quando

Cavaleiro me tornei.

Vejo estrelas no horizonte,

Carrego a lua na fronte

e dos meus sonhos sou rei.

 

====

 

Amo-te, amo-te tanto

Que por mais qu'eu cante o canto,

É menor que meu ardor

Um velho que te quer muito

Colhe em ti o doce fruto

De uma existência de amor.

 

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Poemas de Ives Gandra da Silva Martins

Minuta de Diego Mendes Sousa

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