Rede Mídia de Comunicação | Rede Sem Fronteiras

Você está em: Início > Notícias > Literatura > Anna Maria Fernandes - Antologia Poética

Anna Maria Fernandes - Antologia Poética

Literatura por Diego Mendes Sousa em 2016-03-21 22:16:16

Anna Maria Fernandes - Som - Reflexo do Lirismo

Os Poetas Anna Maria Fernandes e Ferreira Gullar na Casa de Machado de Assis

Embora nascida no Rio de Janeiro, a Poeta Anna Maria Fernandes descende de uma alta linhagem familiar de escritores do Rio Grande do Norte, perfilada por nomes como Jorge Fernandes, expressão maior do modernismo brasileiro, e Peregrino Júnior, imortal da Academia Brasileira de Letras e fundador da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro.

 

Muito jovem ainda, aos 28 anos de idade, Anna Maria Fernandes foi galardoada com o Prêmio Olavo Bilac de Poesia da Academia Brasileira de Letras, por sua obra Seiva e Sumo (1973), editada pelo grande poeta piauiense Álvaro Pacheco, proprietário da extinta Artenova e prefaciada por Osvaldo Orico, este, autor dos poemas de Grinalda e Arte de Iludir, ambos de 1928.

 

Em sua carreira literária, Anna Maria Fernandes soma cinco livros de poemas, que foram reeditados pela Ibis Libris em 2015: Retrato Obscuro (1970, livro de estreia), Seiva e Sumo (1975), Som-Reflexo (1986), Sem Título (1990) e Nó Poético (1999).

 

Aplaudida por medalhões da literatura brasileira como Homero Homem e Adonias Filho, a poesia de Anna Maria Fernandes é uma fertilidade que se amplia no seu jogo perfeito de palavras, que traz beleza e uma íntima vocação para extrair brevidades da vida e do destino áspero do homem.

 

A leitura de Antologia Poética - Cinco Livros (2015) foi uma grata surpresa, não só por redescobrir uma notável poética, mas também por acolher o sopro vivo da sensibilidade e do apuramento dos sentimentos de renovação lírica, pois afirma Anna Maria Fernandes: "Não é a vida que assusta / É a solidão."

 

 

A TI, POESIA

 

A ti, poesia, não renuncio.

Como renunciar à vida?

Se há retornos, princípio,

Fiel à linha interrompida.

 

Renúncia maltrata o ego

Despoja, enoja, cede à corja.

Tonteia, cego bambeia

Põe branca bengala no prego.

 

Não renuncio ao teu apelo.

No silêncio hei de purgar

            O fel

Cingir teu sangue ao meu pelo.

 

 

 

=========

 

 

PROCURAÇÃO

 

Eu, Anna Maria Fernandes, de prendas poéti-

cas, divorciada do mal, nascida e domiciliada

nas entrelinhas da métrica, de país muito além

dos Andes, identificada com o sol, et cetera e tal,

nomeio meu bastante amo e procurador, um ca-

valeiro andante que persiga um ideal, sem causa

que se dispute e lhe dou plenos poderes para que

firme e lute em prol do amor.

 

 

 

(Anna Maria Fernandes nasceu no Rio de Janeiro, em 1945)

 

=======

 

 

ASPEREZA

 

Áspera é a guerra

E a fome

E a espera

Mais áspera.

 

Áspera é a derrota

E a luta

E a queda

Mais áspera.

 

Áspera é a data

Gravada nas pedras

E a frase incompleta

Mais áspera.

 

====

 

BREVIDADE

 

Breve é o voo do pássaro

E o seu canto no tempo

Mais breve ainda.

 

Breve é a estrela cadente

E o seu tênue brilho

Mais breve ainda.

 

Breve é a forma da onda

E o seu exercício na queda

Mais breve ainda.

 

Breve é a ausência de vida

E a sua manifestação

Mais breve ainda.

 

====

 

ECLIPSE

 

A sombra do teu corpo no meu delineada

O meu coração batendo bem junto ao teu

Nossos olhos, nossas mãos, ânsia

                                                     inesperada

Que já não sei quando és tu

Quando sou eu.

 

=====

 

REJEIÇÃO

 

Como posso existir ante a manhã

Tão azul, amena e clara

Se problemas me anulam a visão

E a vontade sem contrastes?

 

Como posso, dura e polida?

 

======

 

INCAPACIDADE

 

Busco em tudo segurança

Monstro secreto de uma lenda

Que me consome e deblatera

 

Em todo sonho me busco

Escançar feito oferenda

Bálsamo para as esperas

 

Tanta ânsia e dor adusta

Sorvidas de grão em grão

 

Não é a vida que assusta

É a solidão

 

========

 

FATALIDADE

 

Ir-se o amor

Por vigorosas asas

De selvagem pássaro

Por tênue silêncio

 

Ir-se a saudade

No aroma da pétala

Acabada e perdida

Por metamorfose

 

Ir-se a vida

Pela noite longa

Entre nuvens e estrelas

Sobre turva sombra

 

======

 

TABLATURA

 

 

 

E esta mágoa e este dó

Aves ripícolas somos

e seremos pó

 

(...)

 

 

E esta mágoa, e este dó

Contínuo, contíguo

Se seremos pó?

 

======

 

DESTINO

 

Teu nome me estremece

Úmida boca de orvalho

Tensa solidão de ilha

Teu nome tece

 

Em meus veios brilha

Um astro a mais

Nesta trama, nesta trilha

De acordes e ais

 

Roçar de estrelas

Teu nome

É rota ou cais?

 

========

 

NÓ POÉTICO

 

 

Nó na gravata

Se ata, desata

Na mesma bravata

 

Nó na garganta

Pranto contido

De emoção tanta

 

Nó marinheiro

Na rede o primeiro

Do mar recolhido

 

Nó na madeira

Fisga, instiga

Levanta poeira

 

Como quantos nós se faz

O nó poético?

Com quantos se desfaz?

 

=========

 

D. QUIXOTE

 

      Deus e o diabo lutam pela posse de terra

O combate e o debate se travam no coração

           O crime e o castigo dessa guerra

            Estão na ação, pouco na reação.

 

A corte não é só do cavaleiro e seus amantes

Porém, muito mais da prostituta, do bêbado,

                            Do repugnante.

 

 

 

Antologia Poética - Cinco Livros

 

"Instantes de encantamento me proporcionou a leitura dos belos poemas contidos em Retrato Obscuro, de onde flui a poesia naquilo que ela tem de mais encantador - a sensibilidade e a elevação do pensamento, unidas à beleza da forma."

Depoimento de Ivan Lins

 

 

===============

Poemas de Anna Maria Fernandes

Minuta de Diego Mendes Sousa

Deixe seu comentário, ele é muito importante para nós

* Seus dados não serão exibidos a terceiros.

Publicidade

Veja também