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Aricy Curvello, Emil de Castro e Joaquim Branco

Literatura por Diego Mendes Sousa em 2016-03-24 21:51:01

Três Poetas Afins: Aricy Curvello, Emil de Castro e Joaquim Branco

Poesia é beleza, água translúcida no sonho (Diego Mendes Sousa)

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Aricy Curvello, Emil de Castro e Joaquim Branco são poetas que vêm de uma mesma década, uma mesma geração. São poetas afins, de uma mesma sintonia literária.

 

 

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ARICY CURVELLO é mineiro [Uberlândia], nascido em 1945

 

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Aricy Curvello inaugurou sua poética com Os Dias Selvagens Te Ensinam (1979), seguido por Vida Fu(n)dida (1982) e Mais que os Nomes do Nada (1996), onde sobressai o longo poema O Acampamento, que foi traduzido e publicado em espanhol, francês e italiano. Seus melhores poemas estão assinalados no livro 50 Poemas Escolhidos pelo Autor (Edições Galo Branco, 2007)

 

Aricy Curvello é dono absoluto da metalinguagem. Isto porque, a poesia de Aricy Curvello é linguagem minada de razão, e aparentemente destituída de tons emocionais. Mas sua poesia tem sentimento e força, embora gerada do pensamento, da inteligência de sua fluição de palavras, sempre palavras.

Há originalidade e experimentação em todos os seus versos.

 

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POEMAS DE ARICY CURVELLO:

 

 

 

QUEM?

 

tudo é cru e tudo universo

mais se renova do que perece?

não o real o que enxergamos?

o mais está sempre mais longe?

sinal mais longe, mais que o som,

 

então: quem disse

de cada coisa

o verdadeiro nome?

 

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DES-CONFORME

 

você é um dia só

(eu sou existência?)

 

você o espetáculo

            que se desmancha

eu as manchas

 

você abre gestos ao vento

: eu abro as veias a

- penas

 

 

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CIDADES CILADAS

 

 

 

            a cor incolor

            a dor indolor

 

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MARILYN

 

 

 

pequenas orelhas louras

lábios de olhos azuis

 

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1964-1985

 

 

nos brancos campos da

aurora,

esquecimento e memória

demasiados

para aqui e agora.

 

 

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ENFIM

 

não mais amador

 

      (muitos amam com o só corpo)

 

com qualquer ser e coisa

eu rimarei amor

 

por amor

 

 

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FLUIR

 

 

há o tempo gravado nas portas atrás das portas

no umbral de memória há o tempo

indecifrável há o tempo e há os homens

as pedras

e o que nelas se busca ler

 

há trovões sobre a noite há relâmpagos alguns sonhos

sobre o passado o futuro

o presente e o tem um só

no limiar jamais atravessado

 

sinais em cinzas

dores ilegíveis

há pátrias e não se leva a pátria embaixo dos sapatos

nem pudeste em algumas palavras alguma vez

chamar companheiros agora impossíveis de chamado

 

outra vez há a lua metálica na vidraça

e a janela

inundada

amanhece outra vez

 

 

 

 

 

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Emil de Castro nasceu no Rio de Janeiro

[Mangaratiba], em 1941

 

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Emil de Castro publicou recentemente o seu livro ÁGUAS DE ONTEM (2015) composto por poemas escritos entre os anos de 1965 e 1990. De larga emoção verbal, é autor de ESTAÇÃO DE PARTIDA (1992) e SINFONIA DOS CARACÓIS (2007), além de um excelente diário literário intitulado A COR DA MULTIDÃO (2014).

 

Emil de Castro é metafísico, sua raiz poética está mergulhada no sentimento, nos pássaros de sua alma vívida e generosa. As metáforas contaminam o seu texto de beleza e voo lírico.

 

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POEMAS DE EMIL DE CASTRO:

 

 

ÁGUA DE ONTEM

 

Enquanto durmo

cão angustiado

a cidade vive

multidão de sonhos.

 

Enquanto fujo

água sem passado

o moinho mói

girassóis de espuma.

 

Enquanto morro

poeta sem mistérios

o jardineiro planta

saudades no jardim.

 

 

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PAINEL

 

Saem pássaros do teu bolso

quando tuas mãos

retêm o rosto

das madrugadas.

 

Saem flores do teu bolso

se os teus olhos

retratam os campos

das tardes.

 

Saem paisagens dos teus cabelos

quando o vento dobra

as esquinas do teu corpo.

 

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POESIA

 

Poesia é ilha

de mapas

de peixes

que descobertos procuram

um porto certo onde todas as ilhas se

incendeiam.

 

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CANTO BREVE

 

O canto é breve

e as palavras surdas

seus lamentos arrefecem

e meus sonhos mudam.

 

Se deitar-se é ser essência

e morrer

ontem assisti ao enterro

da vida

e senti o efêmero de dormir

com tanta coisa pura

para me contentar.

 

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PÁSSARO MORTO FLECHADO NO CAMPO SANTO

 

Pássaro morto flechando no campo santo

eu vou deitado no espelho em que nasci

reflexo de mim mesmo nesta ausência

que se fez a palma do adeus soluçando em mim

presença de outra rede na manhã que deslembrada

de tanto ser sofrida se apagou no pranto

pássaro morto flechando no campo santo

em minha penas vão-se as nódoas da morte

que a vida floriu quando passou no bosque

onde vou descansar este amor que se desfez em eco.

 

 

 

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Joaquim Branco nasceu em Minas Gerais [Cataguases], em 1940

 

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Joaquim Branco, que além de crítico literário - contemporâneo de uma festejada geração mineira formada por Lina Tâmega Peixoto, Francisco Marcelo Cabral, Celina Ferreira e Ronaldo Werneck - é poeta dos melhores, onde os seus caminhos indagativos iluminam-se sobremaneira em Textuagens [no corpo da linguagem].

 

Assim como Aricy Curvello, Joaquim Branco Ribeiro Filho é um experimentador, pertence às vanguardas, imensamente influenciado pelo brilhantismo do gênio piauiense Mário Faustino, que marcou época na Literatura Brasileira.

 

(Poetas Lina Tâmega Peixoto, Francisco Marcelo Cabral e Joaquim Branco)

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POEMAS DE JOAQUIM BRANCO:

 

 

 

ESTAÇÃO DO TEMPO

 

Onde uma viagem começa

uma outra termina

e essa que mal inicia

faz daquela sua medida.

 

A estação no espaço

de viajantes solitários

perdida como perdidos

estão da medida em que se veem,

sem céu, sem sol, sem ar,

como se estivessem num tempo

apenas de sol, de ar, de céu.

 

Os passageiros que ficaram

conversavam na estratosfera

de um assunto sem tempo,

e esperam ir

sem jamais se aventurar

pela estrada que está vazia.

 

Resta o silêncio dos trilhos

de vagos sonâmbulos

a transportar pedras

que vão e voltam, e eles

inutilmente cheios.

 

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FASES  DO SOL

 

 

                  Ponte sobre o pomba

                                   sol sobre a ponte

pomba sob a ponte

                                           ponte sob o sol

           pomba sol poente

      ponte sol nascente

 

 

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HORAS LÍQUIDAS

 

O que são horas diluídas?

São horas que se poetizaram no espaço

e apenas marcaram momentos fluidos?

 

Por quem foram vividas

e onde se perderam

para se depositar líquidas

em relógios borrados de páginas

de tempo?

 

Memória? Vento? Razão?

Quem então soube dessas horas

diluídas em esparsas gotas

geridas na memória

perdidas em frestas

nas desoras e vãos da história?

 

Um texto-hora grava frações

eternas que entristecem auroras

ou alegram umbrais

para deixar na hora-texto

apenas um sopro de vento,

um movimento para o ponteiro

dos segundos cravar no último minuto

do mundo.

 

 

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REFUGIADOS / REFUGEES

 



De frio e fome
cobertos apenas pela chuva
eles morrem às dezenas,
vindos do país do nada
para o nada caminhando.

Contra altas cercas do tempo, este
lhes prepara armadilhas de neve
para que não cheguem
nunca a parte alguma.

Com o ônus da miséria
e da guerra, nem a ONU
lhes concede a graça
de um teto seguro,
mesmo um duro abrigo.

São exércitos sem armas,
esfomeados do século da bastança
que não tiveram paz em seus países
e que não têm mais nem ânsia
de ver as cercas farpadas que
lhes perpassam os corpos.

Caminham em paralelas
para o infinito ou para a morte
sobre os trilhos que os libertem
da difícil batalha contra a sorte.

E esperam pacientemente receber
o que lhes devemos
em decência
simplesmente
em troca da inocência.

 

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Minuta de Diego Mendes Sousa

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