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Maria Carpi e o seu livro Nos Gerais da Dor

Literatura por Diego Mendes Sousa em 2016-04-03 22:34:59

Nelly Novaes Coelho sobre Nos Gerais da Dor (1990) de Maria Carpi

Maria Carpi nasceu no Rio Grande do Sul, em 1939

 

A DOR INICIAÇÃO À ALEGRIA.

Do livro A Literatura Feminina no Brasil Contemporâneo

Editora Siciliano – São Paulo.

 

==========

 

A alegria não desce

Nem antes nem depois

Da Dor, como as calmarias

Que antecedem e sucedem

As tempestades. A Alegria

É da Dor, o centro.

(poema 47)

 

Prêmio Revelação/Poesia- 1990, concedido pela APCA, a gaúcha Maria Carpi conquista um espaço singular na literatura brasileira. “Espaço” de alta temperatura poética e autêntica grandeza humana, que o tempo sem dúvida confirmará plenamente.

Embora sendo poesia de “estreia”, a de Nos Gerais da Dor nada tem de iniciante. Frágil e poderosa, ferida mas imbatível, límpida e segura na construção da palavra, seus ritmos e sonoridades, a persona poética que ali se faz ouvir deixa pressentir, em seus ocultos, um longo processo de maturação existencial e poética.

Verdadeira metafísica da dor, a poesia de Nos Gerais da Dor já pelo título revela sua linhagem roseana. Tal como Guimarães Rosa, a poeta Maria Carpi sente no oculto da dor ou dos ‘desconformes’ da vida, a força da verdadeira alegria a ser descoberta pelos homens.

 

Saberá a tristeza carregar

a Alegria e servi-la

a retribuir-lhe a seiva que

a prestimosa apura, dia a

dia, daquela outra, ferida?

(poema 6)

 

Interrogação em que sentimos vibrar a voz roseana que em Sagarana diz:

 

O correr da vida embrulha tudo (...) O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais no meio da alegria e mais alegre ainda no meio da tristeza.”

 

 

(Guimarães Rosa)

 

Ou em “A estória de Lélio e Lina”:

 

“Era preciso chamar a alegria, como se chama a chuva na desgraça de uma seca demorada.”

(in Corpo de Baile)

 

(Maria Carpi)

 

A intuição dessa alegria a ser descoberta ‘nas profundezas’ do ser e mesmo no cerne da dor é uma das forças motrizes da ficção roseana e, sem dúvida, uma das intuições mais importantes do pensamento contemporâneo, empenhado em redescobrir a condição humana ou as relações homem-Deus.

Tema obsessivamente reiterado na poesia e na prosa desde o início dos tempos, a dor tem sido vivida, suportada ou definida de modo diverso: a dor inscrita na Bíblia, irredutível castigo de Deus devido ao pecado dos homens; a dor como caminho de ascese para a comunhão mística com Deus (expressa na poesia mística de todos os tempos); a dor narcísica ou a dor aniquiladora que se fazem presentes na poesia decadentista finissecular ou, ainda em nosso século, a crispada consciência da solidão humana, agudizada pela incomunicabilidade da dor que fere o dentro como aguilhão, mas que por fora ninguém vê, nem pode avaliar, como diz Renata Pallottini no poema “O Grito”:

 

“Se ao menos desta dor servisse

se ela batesse nas paredes

abrisse portas

falasse

se ela cantasse e despenteasse

cabelos

se ao menos esta dor visse

(...)

(Renata Pallottini)

 

se a dor fosse só carne do dedo

que se esfrega na parede de pedra

para doer visível

doer penalizante

doer com lágrimas

e ao menos esta dor sangrasse”

( in a Faca e a Pedra, 1965)

(João Cabral de Melo Neto e Maria Carpi)

 

É essa dor dura e fechada que aprofunda a solidão do homem, arrastado pelo naufrágio existencialista, e é nessa dor que começou a se abrir uma fresta: a que conduz ao âmago oculto das realidades. Obscuramente o avesso das coisas começa a ser intuído ou perscrutado... Nessa direção, Guimarães Rosa abre ‘veredas’ no mundo primitivo do sertão e nele vai aprofundando as mais altas indagações existenciais ou metafísicas... No avesso do homem se intui Deus. No âmago da dor se intui a alegria.

É esse húmus que fecunda a poesia de Maria Carpi e a revela como expressão autêntica do espírito contemporâneo, na medida em que este tenta redescobrir o corpóreo ou a materialidade como caminho para a descoberta da essência ou do princípio misterioso da vida. Não é outra coisa que nos diz a poesia de Nos Gerais da Dor:

 

O corpo padece-nos

na cápsula da Dor,

quanto mais Corpo.

Que eu não abra um

marisco, sem abrir

o mar. Que eu não

capte um inseto, sem

captar o vento. Que

não alcance tua

boca, tangível, sem

arrojar-me contigo,

dorido, ao inacessível”.

(poema 7)

 

A consciência do corpo transforma a natureza da dor. De dupla provação, ela passa a ser sentida como iniciação, como caminho para a descoberta da verdade última do ser.

 

 

O Império desviou-me do caminho,

mas o Despoder, em suas verduras,

vendo-me sem trilha, fez-me chegar

a estranha veredas, guiada somente

pela respiração de quem me aguarda.

Eu precisava descobrir, por outras

sendas, a forma que a Dor quer dar

à minha alma. Cobrir, no descaminho,

o espírito que a Dor põe ao Corpo.

 

Experiência intransferível, a dor (principalmente a do amor amputado), ‘ferida centrada’, ‘desagregação sem desintegrar-se' se revela como algo visceral ao ser:

 

A Dor não admite

interferência

nem mediações.

A Dor é da íntima

pele, o manuscrito.

 

Mas há algo que interfere nessa dor, capta sua duas faces (a escura e a luminosa), expressa-as e lhes dá perenidade:

 

A pedra ou livro

são fixidez.

E a alegria os pereniza.

Uma, a dor

abre; outro,

a dor revela.

E as folhas

ou lascas

deixam-se ler.

 

(Maria Carpi)

 

Nessas duas metáforas, pedra e livro, se expressa a essencial relação entre o sofrimento causado pela dor e a sua transfiguração pela alegria obscura que a poesia pereniza no livro.

Desvendando-se como poeta e mulher, consciente de sua tarefa de acompanhante, corpo, guia, suporte, bússola... e, ao mesmo tempo, sabendo-se tão desvalida, a poeta interroga:

 

... Saberá a Alegria

qual água que tendo tudo

para voar, suave, se submete

à gravidade, ser ave de asas

caladas? Saberei, pássaro

sendo, não só a casa e o

o corpo, mas o mínimo grão,

levantar da correnteza ao

sopro eterno? Saberei,

sendo peso, à pedra dar

sonho e leveza? Sendo

alma, ganhar-me corpo?

(poema 6)

 

A força, beleza e essencialidade de sua poesia responde, afirmativamente, a essas interrogações. Dinamizada por intenso amor e vitalidade, a poesia dá voz não só a uma singular transmutação da dor em alegria, mas principalmente a uma grandeza humana só encontrável em raros:

 

O Amor não há de vestir-me

do nada. Tecerá fio a fio

da brutalidade de meu esboço,

somará as dúvidas, os cerzidos

da pele, as vacilações, a

secura, com seda, fio a fio,

 

 

tal o meu corpo glorioso

começará do casulo aberto

de minha carne padecente

e sua coerência obscura.

(poema 17)

 

(Diego Mendes Sousa e Maria Carpi)

 

(Fabrício Carpinejar e sua mãe Maria Carpi)

 

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(Nelly Novaes Coelho)

Texto Crítico de Nelly Novaes Coelho

Poemas de Maria Carpi

Trechos de Guimarães Rosa e Renata Pallottini

Minuta de Diego Mendes Sousa

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