Rede Mídia de Comunicação | Rede Sem Fronteiras

Você está em: Início > Notícias > Literatura > Ana Callado e Marina Colasanti

Ana Callado e Marina Colasanti

Literatura por Diego Mendes Sousa em 2016-04-03 22:49:21

Ana Callado e Marina Colasanti: Grandes Escritoras do Brasil

Ana Arruda Callado é também uma jornalista pioneira, foi a primeira mulher a chefiar a redação de um jornal no Brasil, em 1966.

Ana Arruda Callado, viúva do grande escritor Antônio Callado, jornalista pioneira e biógrafa das maiores expressões femininas deste país, como a primeira-dama Darcy Vargas e a Poeta Adalgisa Nery. Pertence ao PEN Clube do Brasil. É autora do romance policial Elas São de Morte, bem como de duas outras obras de biografia:  Dona Maria José (1995), sobre Maria José Barboza Lima e Jenny, amazona, valquíria e vitória-régia (1996), sobre a romancista e jornalista Jenny Pimental Borba.

 

Marina Colasanti, mulher do Poeta Affonso Romano de Sant'Anna, é contista, romancista, poeta, autora de livros infantojuvenis e ensaísta. Seu livro de poemas Passageira em Trânsito recebeu o Prêmio Jabuti, em 2010. Além disso, é jornalista e tradutora de escritores da Literatura Italiana para a Língua Portuguesa, como Alberto Moravia e Tomasi Di Lampedusa.

 

===========

 

 

Ana Arruda Callado nasceu no Recife (PE), em 1937

 

"Quando eu li Quarup fiquei empolgadíssima, impressionada. Eu trabalhava na Livraria Carlitos, no Leblon. O Antonio frequentava essa livraria quando começou a jogar charme para mim. Fiquei pensando: "Ana, que horror! Parece aluna querendo namorar professor" (risos). Foi um encontro de vida, tivemos um relacionamento adorável. Nós casamos no civil, escondido. Mas o Zuenir (Ventura) descobriu e noticiou: "Casamento escondido". (risos) Antonio me ensinou muito, ele era um "intelectual-operário". Quando eu ficava chateada com uma pessoa porque ele fazia alguma coisa errada, ele dizia: "Não se chateie, não é maldade. É burrice." Uma sabedoria. Eu me lembro dele todos os dias, mas não fiquei uma viúva triste. Ele aprovaria minha alegria de viver."

 

=======

 

"Escrevo sobre mulheres comuns, mas que contribuíram para as artes. São mulheres ilustres. Tenho interesse em contar a história contemporânea do Brasil através de um olhar feminino. Sou patriota, quero redescobrir a história desse país."

 

(Adalgisa Nery)

 

"Eu vi Adalgisa uma única vez. Eu estava almoçando com Alberto Rajão - deputado estadual que foi um dos maiores informantes do Sol - quando entrou uma mulher com ar de rainha, olhar duro, um narigão. Rajão levantou e foi ao encontro dela. Depois perguntei se era a Adalgisa e falei: "Ela é velha, né?" Rajão respondeu: "É velha, mas é um tesão!" (risos) Foi o único encontro que tive com Adalgisa. (risos) Depois de muito tempo me interessei em escrever o perfil. Ela era uma mulher política forte, que foi casada com um homem fascinante, mas malvado: Ismael Nery. Samuel Wainer, que também era uma peste, disse que ela era uma mulher dura, quase perversa. Depois ela se casou com Lourival Fontes, o então chefe do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) do regime ditatorial de Getúlio Vargas. E ela adorou, atuou como primeira-dama do DIP. Em depoimento ao Museu de Imagem e do Som (MIS), ela disse que se casou com Lourival pela segurança dos filhos. Ela era sedutora, mas foi ele quem a largou. A carta que ela escreveu para Getúlio, reclamando de Lourival, é patética? não condiz com a inteligência dela. Ela encantava os homens, era amiga do presidente. A viúva do Portinari me disse: "Minha filha, que impressão que ela fazia nos homens! No meu marido também, viu?!" O Portinari não fez quatro perfis dela à toa, as pessoas se apaixonavam por ela. O poema do Drummond é perfeito: De Adalgisa, a lisa, fria / E quente e áspera Adalgisa / Numerosa qual Amor (Desdobramento de Adalgisa). Quem ficou chateado com meu livro foi o crítico Wilson Coutinho. Ele me disse: "Você escreveu o livro que eu queria ter escrito. Adalgisa decidiu minha opção sexual, quando eu a vi fiquei deslumbrado." (risos) Ela não era adorável. Adalgisa era admirável, é outra coisa."

 

 

 

============

Marina Colansanti nasceu na África, em 1937, e veio menina para o Brasil.

 

"Eu gosto muito de textos curtos. Não sou romancista por causa disso. E nos minicontos, às vezes, eu vou tirando tudo, vou tirando tudo que é supérfluo, tudo que é supérfluo, tira, tira, tira, estica, estica, estica… aí de repente olho: ai meu Deus, está esticado demais! Está seco demais! Agora eu tenho que pingar um pouquinho de água, tenho que inchar um pouco de volta. Porque tem um ponto certo; é que nem bolo, tem um ponto em que ele tem que ficar penetrável — ele não pode ser impenetrável senão ele rejeita o leitor. Se você insiste muito na depuração, ele pode ficar impenetrável demais. Aí tem que abrir."

 

"A intensidade da imaginação, a capacidade da imaginação sempre me estarrece. Eu saio dos sonhos — sonhos noturnos — boquiaberta! boquiaberta! Como que eu sou capaz de fazer uma arquitetura como essa? De repente estive andando em meio a palácios, e as arquiteturas de um preciosismo, de um requinte — e eu seria incapaz de desenhar semelhante arquitetura, não sou arquiteta. Mas a cabeça sabe! E eu não sei se ela faz isso em imagens, realmente, ou se faz em palavras tão bem colocadas que eu tenho a impressão de estar vendo imagens. Eu não saberia te dizer, porque com palavras eu posso fazer qualquer arquitetura, mas eu não saberia estruturar, erguer uma arquitetura de fato. Não sei se no sonho eram imagens ou se são palavras; se é o pensamento que a cabeça transforma em sensação de imagem, como se estivesse dentro da imagem."

 

 

A um homem não se diz: ciclame, a tua
presença faz do meu jardim
um jardim mais precioso.
A um homem não se chama gladíolo
miosótis, íris.
Da espécie vegetal
a um homem
só baobá choupo palmeira se comparam
poder e tronco.
No entanto, que
gentis podem ser com mãos e boca
capazes de entregar flor e semente
se apenas o desejam

 

****

 

Na Classe Executiva deste avião
aplicada como o homem com seu laptop
uma mulher borda.
Fino fio liga mão e tecido
– cordão e placenta –
enquanto a agulha vai
ponto a ponto
tecendo a nova vida de um desenho.
Olhar posto no bastidor
perfil recortado contra a janela do avião
a mulher viaja.

 

 

 

============

Minuta de Diego Mendes Sousa

Deixe seu comentário, ele é muito importante para nós

* Seus dados não serão exibidos a terceiros.

Publicidade

Veja também