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Nara Vidal

Literatura por Selmo Vasconcellos em 2016-04-04 11:26:34

                

Nara Vidal é mineira de Guarani. Formada em Letras pela UFRJ, é Mestre em Artes pela London Met University. Mora na Europa há 14 anos. É autora de infantis, juvenis e seu primeiro adulto, “Lugar Comum” (Editora Pasavento), já em reimpressão, foi lançado em abril deste ano. Nara já participou como autora palestrante em diversas feiras literárias como a Flipoços, Clim, FNLIJ e Cheltenham Festival. Premiada com o Maximiano Campos e com o Brazialian Press Awards, Nara tem textos publicados em revistas como Germina, Mallarmargens e Confeitaria. Escreve sobre dança e artes para publicações inglesas. Lança este ano o livro de contos “A loucura dos outros” pela Editora Reformatório.

SELMO VASCONCELLOS – Quais as suas outras atividades, além de escrever?

NARA VIDAL – Sou mãe. Escrevo para algumas publicações daqui do Reino Unido. Geralmente falo sobre artes plásticas e dança. Além disso, presto consultoria para curso de inglês no Brasil através de uma proposta que eu mesma desenvolvi.

SELMO VASCONCELLOS – Como surgiu seu interesse literário?

NARA VIDAL – Eu sempre tive a escrita como uma atividade, mas bastante íntima no início. Desde criança a escrita me pareceu um trunfo para dias de tédio ou solitários. Depois que entrei pra faculdade de Letras no Rio passei a me interessar irreversivelmente. Lia as belezas todas que você tem que ler na faculdade e quis escrever, tentar ao menos.

SELMO VASCONCELLOS – Quantos e quais os seus livros publicados?

NARA VIDAL – Tenho vários livros infantis publicados. Acredito que oito, nove. Tenho uma série bilíngue que abriu o processo de publicação. Depois, foram o juvenil “Arco-íris em preto e branco” e o infantil “Pindorama de Sucupira”. Em 2014 lancei “A menina e os relógios” e também “O doce plano das galinhas”. Em 2015 me arrisquei com o primeiro adulto “Lugar Comum” que esgotou em três meses e teve resenhas muito generosas. Neste ano tenho quatro livros que vão sair: os infantis “Dagoberto” e Cadê o Sono”, o adulto “A loucura dos outros” e um outro projeto que ainda é meio segredo e deve sair no fim do ano.

SELMO VASCONCELLOS – Qual (is) o(s) impacto(s) que propicia(m) atmosfera(s) capaz(es) de produzir contos?

NARA VIDAL – Eu sou aquela pessoa quieta dentro do trem, do café, do metrô, do aeroporto, da rodoviária, no mercado que fica olhando gestos, olhares, vozes dos outros. Depois vou pra casa e monto uma vida para aquelas pessoas. Detalhes me interessam muito. Tudo que é insignificante que fascina.

SELMO VASCONCELLOS – Quais os escritores que você admira?

NARA VIDAL – Impossível conseguir citar todos. Mas tenho alguns que não saem de perto de mim: Virginia Woolf, Sylvia Plath, Ted Hughes, Rubem Fonseca, Alphonsus de Guimarães, Shakespeare, Lima Barreto, Mia Couto, Carrascoza, Godofredo de Oliveira Neto, Ferrante, Guimarães Rosa, Keats, a lista vai…

SELMO VASCONCELLOS – Qual mensagem de incentivo você daria para os novos contistas?

NARA VIDAL – Bom, eu me considero um deles, portanto, daria o conselho que dou pra mim todo dia: leia mais, escreva menos. Tenha paciência, pratique a escrita todos os dias, leia poesia diariamente e não leve nada a sério, principalmente você mesmo. 

A BREVE HISTÓRIA DO AMOR

Uma vez, escrevi sobre uma porta no primeiro apartamento que eu comprei em Londres. A crônica tá num livro chamado Lugar Comum, feito por mim, com muita intuição, um tipo de amor mesmo.

Minha mãe, que nos últimos dias da minha primeira gravidez, veio me dar suporte moral, acompanhou até a porta do tal apartamento meus olhos apreensivos que voltariam cansados e alertas com a nova responsabilidade nos braços. Nasceu num domingo à tarde, num janeiro. Caía era neve! A mãe, tocada pelo evento, pegou um pedaço de papel, colou na porta do meu quarto onde dormia meu marido e escreveu sua alegria, parabenizando o inglês por ajudar na feitura da menina. Com a comoção e força da sua escrita, a marca da letra perfurou o papel e ficou marcada sua mensagem naquela porta, na madeira, pra uma espécie de sempre.

Aí, em conversa com uma amiga que foi minha vizinha de porta, perguntei como estava a rua, a vista pra igreja, as castanheiras, o mercadinho dos italianos que só falavam em dialeto napolitano. Rimos por lembrar da cara de bobo do filho do dono da venda, quando se aborrecia em dialeto com uma cliente inglesa, enquanto eu esperava que me cortasse umas fatias de presunto. Falei com ele que entendia qualquer coisa daquele desaforo dele, já que lá na Campania, quem me ensinou um pouco de dialeto foi uma doce camareira que expressava amor através de xingamentos. Eu disse pra vizinha que sentia muitas saudades daquele apartamento. Ela perguntou “saudade de quê?”

“Saudade da porta”.

Foi quando ela abriu uma outra caixa na minha memória que andava dormindo.

“No seu jardim, na primavera passada, tivemos uma bela florada das hortênsias do seu buquê.”

A saudade era disso também, então! Ficaram lá, além da porta, as flores do meu buquê de casamento, fincadas com precisão de jardineiro pelo meu pai, numa tarde fria. Eu disse que queria plantar aquilo pra não morrer, mas que poderia ser uma outra hora, menos gelada. O pai foi na cozinha, pegou a enxada, o buquê e me contou que essas coisas de amor têm certa pressa.

 

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