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Morre Poeta Antonio Carlos Osorio (1927-2016)

Literatura por Diego Mendes Sousa em 2016-04-23 19:16:48

A Morte do Poeta Antonio Carlos Osorio (1927-2016)

Antonio Carlos Osorio é autor de uma poesia personalíssima

Morre o grande Poeta gaúcho, vivente de Brasília, Antonio Carlos Osorio. Dentre os seus livros mais brilhantes, encontramos OS DEGRAUS DO TEMPO.

Antonio Carlos Osorio recebeu prêmio nacional de literatura da Academia Brasileira de Letras (ABL) e pertencia à geração sul rio-grandense dos notáveis, como Carlos Nejar, Luiz de Miranda, José Santiago Naud, Leonor Scliar-Cabral, Maria Carpi, Lya Luft, Armindo Trevisan e Paulo Roberto do Carmo.

 

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Só, no silêncio profundo da noite calada e fria

Faço a volta do meu mundo, todo já sem alegria.

 

Busco nova e velha rota transcorrida em tempo vário

Repercorrendo a derrota em vão e dúbio inventário.

 

Cercam-me antigos mistérios e a fé não mais bruxoleia

Desaprendi meu saltério e a voz não mais se me alteia.

 

Imantado pelo eterno em caminho já marcado

Sigo no rumo do inverno, o frio já dentro guardado.

 

Os contornos familiares começam a esmaecer

E os meus belos ultramares nunca poderei rever.

 

Aquelas antigas ruas já se fecharam de vez

E a abri-las não há gazuas, que ninguém jamais as fez.

 

Há refúgio no futuro? A noite é muda e vazia

Só contém silêncio duro. E o aceno de outro dia?

 

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Há tanto tempo em busca daquela alegria para sempre
Há de se manter a fé de achar ainda a thing of beauty
Ou de construí-la.


Más hélas! parece há muito que la chair est triste et j'ai lu       

                                                                       [tous les livres


Por onde afinal poderemos começar a façonar o mundo?


Recusamo-nos obstinadamente a crer, apesar de tantas evidências
que a vida é um passo na alfombra de um quarto
que jaz vazio
        que a vida é um gesto inútil, como disse o amigo
na hora turva de dia já antigo
será uma seta solta no espaço?
entre duas trevas breve clarão?


Le vent se lève. Il faut tenter de vivre!


Há que resistir
Há que resistir ao tempo
Há que resistir ao nada em galope lancinante
neste tropel bravio de angústias e esquivanças.


Quando virás, demiurgo, promover a libertação?
Onde estás Deus, que te escondes?
Quando chegará o ponto ômega, o momento crístico, a parusia?
Quando a cidade do povo, a nova humanidade?


O grito selvagem do sol faz ainda a cada manhã estremecer a terra
E as línguas largas das águas continuam amorosas a relambê-la
não sabemos ainda, soturnos habitantes às vezes afoitos
Quando virá o libertador
Nem o seu nome.


Será que um dia, e quando, os cânticos jubilares do homem
acordarão as potências telárgicas?
Quando afinal o estronho de tantos prantos e blasfêmias
                          trará Deus de volta a tem?
Ou aqui O criará à imagem de seu barro?


Será que um dia a semente apodrecida de tantas esperanças
fecundará o velho ventre de Demeter?


Não se sabem respostas
Nem as queremos talvez.
Ser homem é perguntar quem sabe
neste solilóquio máquina de tempo
de caixas de músicas esquecidas de suas melodias
manobradas marionetes por um saltimbanco maneta.

 

 

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Na noite em que meu pai morreu eu havia ido ao cinema.

Poucos dias antes o havia visto – e ele a mim? –

Já não podia falar.

 

Não havia mágoa na sua voz hemiplégica

                                                  quase ininteligível

Só nela entendi uma palavra

                                               e era uma só: “herdeiro”

O herdeiro que chegava de longe

                                                      de má vontade

                                                      e passagem paga.

A palavra soou dolorosamente

e até hoje está comigo.

Mas eu não sei se ele a disse com mágoa ou com alegria.

 

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Cresce, filho!


        Entre as duras colunas da morte
e não temas a sua altivez
Cresce, filho!


                e deixa ferver o teu sangue difícil
                na retorta de todos os amores


Cresce, filho!


                e canta em dó maior os teus cânticos
                sem temor às dissonâncias


Cresce, filho!


                 e planta se preciso tua semente no granito
                 porque se a irrigares de vigílias e suores
                 ela se fará em larga palma
                 que será baliza para os pássaros
                 receberá a visita das abelhas
                 e ajudará o vento a reger as suas orquestras.


Cresce, filho!


                 e faz de tua face uma lança
                 de tuas mãos um arado
                 de teus olhos uma chama


para construir da terra berço e templo
aos homens que estão em ti guardados.

 

 

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Poemas de Antonio Carlos Osorio

Minuta de Diego Mendes Sousa

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