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ODYSSEUS, o velho - Os círculos sinfônicos de Carlos Nejar

Literatura por Diego Mendes Sousa em 2016-06-26 21:33:19

Foi John Milton quem escreveu que "a natureza se concentra em círculos", assinalando o ciclo de tudo que permanece vivo sobre a terra. Carlos Nejar traz em ODYSSEUS, o velho - poemas bem elaborados, altamente sonoros, embebidos das lições de Homero e/ou Dante, envoltos em arcos não só existenciais, mas profundamente humanos.

A poesia de Carlos Nejar está minada de cristais de sabedoria. Essa poesia sopra a memória da memória, na mortalha da sofreguidão do tempo, sob as ambições do amor. ODYSSEUS, o velho é longo poema que se oferece todo imaginado, no fogo criativo da intuição do bardo mágico, que evapora os seus feitiços sobre os laços da verdade e do lume da inteligência.

Essa visão de Carlos Nejar é universal, dotada de sentimento, artesania e sensibilidade. ODYSSEUS, o velho é obra da maturidade, de uma peculiar constatação de mundo, que conhece o vapor da palavra descobrindo sonhos e alertas de presságios.

Carlos Nejar é metáfora, linguagem e claridade, na sua obstinada sede de Deus, a evocar as personagens que luzem fascínio de beleza e raridade.

Ouçamos todos os sinos dessa eternidade de viajor, mar de Ulisses e voos de Penélope, dentro do próprio mito, arauto dos séculos:

 

Uma gaivota voa

pelo teu coração.

E é, Odysseus, o instinto

que sobrevive. Ou então,

talvez sejas a fome

que seu bico morder.

Que discernimento

em nós a fome lê?

 

A penúria de um homem

não esgota a razão.

 

======

 

A dor é cega, cega,

perdulária. E ao bolo

não permite seu ruidoso

fermento. O sofrimento

gasta gasta. Rasga:

enquanto gira

o círculo.

 

======

 

Ir envelhecendo é avançar

sobre o instinto, como se o dique

entre o viver e o já vivido

se rompesse. E outros diques

se abalroassem, indivisos.

 

Então nos despojamos

de numes, atos, vínculos.

Envelhecer é como

a memória nos pune.

 

=========

 

O tempo nos humilha.

E humilhamos o tempo.

 

======

 

O que é eterno

escapa.

 

====

 

Se os desastres

me foram conselheiros,

há presentes maiores

que nascer, sonhar,

morrer e ser

um homem?

 

Levarei parte

do amor com

os remos.

A outra, antes

que o vento

pare.

 

Antes que o vento,

iremos. Antes

que a noite

cale.

 

======

 

Se o coração é nômade,

a esperança é velha.

 

=======

 

E as almas não têm

a liberdade com que

sonham. Às vezes estão

presas      a séculos. E é como

se estivessem cativas

ao sereno e às tempestades.

 

======

 

Matei os mortos.

Que vivos

nos arrostam?

Matei os mortos.

 

=====

 

O que haverá

atrás de Deus?

 

=====

 

O espírito é o deserto

e o deserto, espírito.

 

===

 

O sol contempla o cavalo

e chove seus raios albos.

Chove. O cavalo fala

ao sol. Odysseus escuta

plantarem as falas-mudas.

Morrer, viver

não se escolhe.

 

=====

 

A linguagem é a tua

pele mais funda.

E só ela separa

a pele, da alma.

 

=======

 

E não há revolução

na luz.

 

=====

 

Não envelhece

a noite como um

tigre.

 

 

 

O dia é rápido

para quem vai vivendo,

sem molhar os pés

do tempo. O dia

é rápido, rápido

é o espírito.

 

=====

 

A luz é oculta nas aves

e não quer dormir.

 

====

 

Os pardais principiam

a árvore.

E ela vai cantar.

 

=====

 

consegue o amor

parar?

 

===

 

Deus não tem,

não tem alarme.

 

====

Não choras.

Não consegues chorar.

Há uma pedra grande

que não cabe nos teus olhos.

E os sinos, os sinos.

 

E esta guerra

entre si

e os teus mortos.

 

=====

Os sinos são cavalos.

 

======

Mesmo que a água se afunde

aurora adentro.

 

===

 

Até envelhecer

a eternidade.

 

===

 

A roda de Deus

nos toca.

E vives

com um ramo

de amanhecer

na boca.

 

===

 

é mais velha

a luz

que os corpos.

 

===

 

E o que não sonha,

morre.

 

===

 

A morte é uma andorinha

sobre a tua

mão pousada.

 

====

 

A dor das coisas

é sem nome.

E somos homens

apenas no medir

da infância.

 

 

 

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Poemas de Carlos Nejar

Minuta de Diego Mendes Sousa

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