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Astrid Cabral - Uma das maiores expressões da poesia brasileira - Parte I

Literatura por Diego Mendes Sousa em 2016-06-26 21:40:30

Astrid Cabral: Ser D'Água Doce - Palestra de Diego Mendes Sousa

Diego Mendes Sousa, Fabio de Sousa Coutinho (presidente da ANE) e Astrid Cabral.

ASTRID CABRAL:

SER D’ÁGUA DOCE

 

 

Boa noite,

nobres cavalheiros e belas damas,

 

 

      Este andar de dois mil e dezesseis (2016) é tempo vivo e crescido para se rememorar a vida e a obra de uma das ilustres fundadoras desta Associação Nacional de Escritores (ANE), e ao meu particular ver, é ela também, uma das maiores poetas vivas deste país, na esteira de uma Henriqueta Lisboa ou de uma Gilka Machado, que é a doce Astrid Cabral, grandíssima e aguda expressão humana, de vero poder de linguagem e fidalguia interior, uma das raras dicções do nosso lirismo confessional, e sobretudo, erudito, consistente e imaginário.

       Em uma das correspondências afetivas entre Darcy França Denófrio e Astrid Cabral, a respeitada crítica de Goiás, assim define o perfil da nossa homenageada: “(...) Não é de hoje que venho namorando essa visão-de-mundo feminina tão sua, que sabe ser doce e contundente, e ressumbra a alma da mulher universal, acariciada e ferida, tendo como suporte a dignidade de um lírico que não faz concessões a um detestável feminismo ruidoso. (...)”

       Nesta noite comovida, antecipo em alguns meses, os 80 anos de existência de Astrid Cabral, que se completará no próximo dia 25 de setembro do corrente ano.

 

(Astrid Cabral)

 

 

    Secciono esta palestra-recital em quatro tópicos metafóricos amazônicos astridianos, que reflito sentimentais, após reler toda a obra poética e narrativa de Astrid Cabral, escritora por quem nutro admiração antiga e enraizada, herança de uma devoção de longa data, pelos cristais cor d’água de chuva ou de neve, dessa manauara, nascida em 1936.

    Na secção de abertura, intitulo a Poeta de Igapó, pois a mata de igapó é a parte mais baixa dos rios da Amazônia, ou seja, a própria margem dos rios.

     Na segunda secção, revelo a Poeta de Várzea, de uma região que somente é inundada durante as cheias dos rios.

     Na terceira secção, apresento a Poeta de Terra Firme, seca o ano inteiro, onde a água nunca chega.

     E na derradeira quarta secção, viajo com a Poeta dos Rios Voadores, ladeada por chuvas e umidade, o que gera vapor intenso, a refrigerar a cosmovisão de uma Palavra na Berlinda ou de uma Jaula.

     Este quarteto amazônico é a intercessão elementar do encontro de Astrid Cabral, depois dos vastos caminhos da memória, da saudade, das viagens e da solidão, com o seu torrão natal, dado que nós, os Poetas, não dissociamos a infância, o amor, o sonho e o passado, que são alimentos de passos inteiros.

 


 

 

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(Apresentação dos slides com os livros de Astrid Cabral)

 

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01 - Astrid Cabral: Poeta de Igapó

 

 

Tempestades em oceanos

ou em copos d’água

e não peço a Deus balsas

barcaças nem praias.

Só um coração couraçado.

Desses que no lombo

das ondas vão sem tombos

o convés em festa.

                              Iluminado.

 

 

Em Rasos D’água (2003), obra premiada como o melhor livro de poesia do ano de 2004 pela Academia Brasileira de Letras, choro, com Astrid, as águas que se foram, que passaram pelos portais da dor, as mesmas águas glosadas são lágrimas, compressão da perda sobre o peito:

 

Em mim esta indelével tatuagem:

não mera mancha, nódoa em tela ou derme

na alma, porém, em sua oculta carne.

Não com as longínquas tintas do Pacífico

mas com os sombrios tons do que é tragédia.

             Há um verde de ramos desmaiados

preto piche de noite desestrelada

            um vermelho a pender para o tom roxo:

sangue sustado no fluxo do corpo.

             Vê-se uma árvore que se contorce

sob o brutal impacto de um carro

enquanto os deuses arrebatam um jovem.

 

 

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Era a alma que morria embarcando

no esquife do filho rumo ao barro.

Dessa vez não escapou ao naufrágio.

Quando o corpo do fundo do poço

boiou, era cadáver ambulante

a alma decepada ao fio da dor.

 

Os tesouros lúcidos, de um ser encharcado de luz metafísica, perpassam interrogativos no âmago da nossa poeta.

 

Aqui jaz um rego.

Por aqui passava um rio

faz trinta anos.

 

Quem bebeu o rio?

De quem tamanha sede?

 

Entre pedras e areias

restam resíduos de vida.

 

Mas onde nas margens pardas

as digitais dos assassinos?

 

 

===============

 

 

 

Longe fica a fonte.

Alcançá-la

é cruzar

águas contrárias.

 

Perto fica a foz.

Atingi-la

é deitar-se

à deriva veloz.

 

Permanecer repleto das chuvas que vêm de dentro, que desabam em instantes perplexos, representa um amanhecer distante dos nossos temores mundanos, que nos apavoram a alma nostálgica, como registra Astrid Cabral:

 

Naquela noite

de escuridão completa

vi a outra face do amor.

(eclipse entre as costelas!)

Naquela noite

conheci o deserto

e soube que o céu

embutia o inferno.

Naquela noite

gritei, meu Deus, meu Deus,

que fiz para merecer

tal lambada na alma?

Naquela noite

a mágoa foi tão funda

e o desamparo tão vasto,

que o travesseiro virou

várzea onde fiz jorrar um rio.

 

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Por que esta ânsia de sobreviver

assim se amoita no âmago de mim

sempre que as lerdas pálpebras da noite

baixam nas altas ramas com os morcegos?

Por que o poente assim me abala o eixo

e de fúnebre pompa alma me embrulha

tal qual mortalha um pouco prematura?

Por que me pesa suportar as trevas

que o implacável fim do dia instaura

quando já estagiei em precipícios

saltando trampolins perto de abismos?

Por que morrer me assusta e paralisa

se o que temo perder, de longe sei

nada tem de eldorado ou paraíso?

 

 

Outra obra de arremate refinado nas enchentes sensitivas de Astrid Cabral é Visgo da Terra (1986), onde a realeza do canto puro da natura se sobressai no clássico poema Água Doce, cuja imagética carrega-nos ao rio da menina Astrid, uma misteriosa Alice de maravilhas estéticas:

 

A água do rio é doce.

Carece de sal, carece de onda.

A água do rio carece

da vândala violência do mar.

A água do rio é mansa

Sem a ameaça constante das vagas

Sem a baba de espumas brabas.

A água do rio é mansa

mas também se zanga.

Tem banzeiro, enchente

correnteza e repiquete.

Pressa de corredeira

sobressalto de cachoeira

traição de redemoinho.

A água do rio é mansa

corre em leito estreito.

Mas também transborda e inunda

Também é vasta, também é funda

também arrasta, também mata.

Afoga quem não sabe nadar.

Enrola quem não sabe remar.

A água do rio é doce

mas também sabe lutar.

A água doce na pororoca

enfrenta e afronta o mar.

Filha de olho d’água e de chuva

neta de neve e de nuvem

a água doce é pura

mas também se mistura.

Tem água cor de café

tem água cor de cajá

tem água cor de garapa

tem água que nem guaraná.

A água doce do rio

não tem baleia nem tubarão

tem jacaré, candiru, piranha

puraquê e não sei mais o quê.

A água doce não é tão doce.

Antes fosse.

 

 

Visgo da Terra, como percebemos, é obra da geografia provinciana, e detenho-me a parafrasear a própria Astrid Cabral, quando em um dos poemas apanha:

 

Manaus um ponto perdido no mapa. (...) O mundo estava em Manaus/ Manaus estava no mundo,

 

posso ousar sentenciar:

 

Poesia, um ponto achado em Astrid. A Poesia sempre esteve em Astrid/ Astrid está no mundo, pois como os rios caudalosos da Amazônia, nossa Poeta corre eterna em sua vocação nascitura, brilhantemente:

 

Não convém, Astrid,

revolver a terra das raízes.

É doloroso exumar.

Não há mais tesouros

no limo ou no lixo sagrado

cacos de louça enterrados

entre votivas montanhas

de fumaça no quintal.

Nem sequer os sapos

noturnas sentinelas

de olhos à retaguarda.

 

São teus olhos agora

que olham para trás.

 

 

Nessa viagem ancestral, cheia de água, terra, seres e emoções que abalam a baliza do pensamento, Astrid preserva a alquimia, antes por toda parte o seu rio onírico, a alardear tudo o que é vida, sons das eras:

 

Por toda a parte o rio

solta serpente a rojar-se

na paisagem da planície

cobra domada à força por

barrancas e algemas de pontes

ou cativo fragmento no pote

na palma côncava do púcaro

no copo translúcido e mínimo

leite a pojar o seio das cuias.

Em águas batismais comungo e

mergulho o arcaico corpo de

remotíssimo passado anfíbio

nós todos tão sáurios tão

irmãos de peixes e quelônios

e espelho o rosto em fuga por

águas igualmente fugitivas e

comigo vai o rio rente rindo

roendo ruindo riando submim

num subsolo de sonhos.

 

 

 

Contudo Astrid Cabral não é só o rio, a poeta é larga, uma floresta latifoliada de troncos frondosos e de folhagem enorme, feita de ascese e ilusão:

 

Se me perguntam quem sou

digo: sou rio e floresta.

Daí o nome folhágua.

 

Espantada, em voo, com a hileia da sua meninice nos anos 40 do século XX, em 2014, Astrid Cabral traz a lume a sua Infância em Franjas, onde os poemas preservam a contenção de um tempo ido, extremamente marcado por ironia suave, pesado pelas origens (a presença e a ausência precoce do pai Alfredo; pela força severa da mãe Leonor) e, sublimemente equatorial, como a floresta selvagem dos primeiros anos de vida da aedo Astrid, que se diz irmã de todos os pássaros e conjugadora do passarês, sem delongas:

 

Ai que não tenho saudades

da infância bem lá pra trás!

Que raivas choros temores

junto a adultos senhores.

E as tarefas rotineiras

que não acabavam mais?

À sombra de rijas regras

e urubus nos beirais!

 

Ai vontade de crescer

ouvir conversas inteiras

tossir e espirrar na igreja

e sem melindres dizer

indesejáveis verdades!

Enfrentar a lei dos grandes

e encarar o fogo do inferno

como conversa de espertos.

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Minha mãe? A idealista

domadora do caos.

Serva da beleza visível

paladina da perfeição

na insana luta cotidiana

contra lençóis amassados

sapatos desengraxados

laços desengonçados

e a obscena deselegância

de minhas pernas abertas

de minha gula sem regras

de meus hábitos malucos

de meus estudos noturnos.

Eu, a desatenta filha

pobre cabeça virada

para o mundo do invisível.

Ah! Indomável menina

desobediente mesmo

sem malévolo intento.

A constante rebeldia

diante de normas e leis.

Eu, cega a hierarquias

e à censura alheia.

Eu sempre de costas a

bom tom e boas maneiras.

Eu amante da liberdade

irmã de todos os pássaros.

 

Pois são Rasos D’água, Visgo da Terra e Infância em Franjas as três obras igapós de Astrid Cabral, vez que estão inundadas, por serem bordas de seu coração de mãe que sofre a perda de um filho alado; de boa filha, que faz retorno a Manaus; e de exímia poeta, que se amplia na sua genuína inocência.

 

 

02 – Astrid Cabral: Poeta de Várzea

 

 

A segunda obra publicada por Astrid Cabral chama-se Ponto de Cruz (1979), antes, a escritora havia editado Alameda (1963), livro de contos em prosa poética de altíssimo nível literário.

Em Ponto de Cruz, encontro a costura profética de todo o alinhamento lírico da carreira autoral de Astrid. Percebo também, que muitos dos poemas ali contidos cresceram em livros posteriores; como se fossem uma grande árvore a projetar suas flores e frutos e raízes.

De Ponto de Cruz, partem os livros Palavra na Berlinda (2011) e Visgo da Terra (1986). É em Ponto de Cruz, que estão os melhores poemas orgânicos e viscerais de Astrid Cabral, excluindo-se, por motivos de técnica e clareza incisiva de estro, os poemas de Torna-Viagem (1981), que considero o crivo apical e fausto de seus escritos até aqui.

Em Ponto de Cruz, como uma poeta de várzea, enchente e vazante, Astrid traça as suas peças mais inspiradas e originais, embebidas do erotismo, do sangue da juventude em preamar, do fluido castiço do amor e seus metais ferozes, além da condição submissa da mulher, ao seu olhar transgressor:

 

 

Juntos urdimos a noite

mais seu manto de trevas

quando as paredes recuam

discretas em horizontes

de além-cama e num espaço

de altiplano rolamos

nossos corpos bravios

de animais sem coleira

e juntos acendemos o dia

em cachoeiras de luz

com as centelhas que nós

seres primitivos forjamos

com a pedra lascada

dos sexos vivos.

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(Diego Mendes Sousa e Lina Tâmega Peixoto)

 

(Cavalheiros e Damas, Lina Tâmega Peixoto!):

 

Amor como tremor de terra

abalando montanhas e minérios

nas entranhas da minha carne.

Amor como relâmpagos e sóis

inaugurando auroras

ou ateando faíscas e incêndios

nas trevas da minha noite.

Amor como açudes sangrando

ou caudais e tempestades

despencando dilúvios.

E não me falem de ruínas

nem de cinzas, nem de lama.

 

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 (Diego Mendes Sousa e Anderson Braga Horta)


(Cavalheiros e Damas, Anderson Braga Horta!):

 

Pesado é o coração

do escombro de teus sonhos

e dos mortos que em teus ombros

repousam imortais.

O amor de ontem

é cinza feita chumbo.

Cicatrizes e rugas

lavram a tua carne

de aflições temperada

e a vazante das veias

irriga-se

de subterrâneas lágrimas antigas.

 

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 (Diego Mendes Sousa e Antonio Miranda)


(Cavalheiros e Damas, Antonio Miranda!):

 

Amor custa bem caro.

Mesmo assim depenamos bolsos

e bolsas de moedas raras.

Por ele pagamos, em prestações

nem sempre suaves, quanto

de entrada supúnhamos

de todo não poder:

o alto preço dos sustos,

a conta escorchante

das noites em claro,

os juros extorsivos

do medo de perde-lo,

a tristeza do saldo zero.

Queixamo-nos de carestia

se de amor-próprio ainda

nos sobra algum trocado,

mas que fazer quando só

amor é o lucro que buscamos?

 

====================

 

 (Angélica Torres Lima, Diego Mendes Sousa, Darcy França Denófrio e João Carlos Taveira)


(Cavalheiros e Damas, Angélica Torres Lima!):

 

Quando levo à boca

a colher com que minha avó

tomava a sua antiga sopa

ou o talher de prata

com que comia o arcaico peixe,

a eternidade dos metais

me assusta e desafia.

Gente, onde jaz minha Vó?

Gente, quede os peixes?

Curvas reintegradas na argila

suas formas no todo se fundiram

enquanto à mão brilham invictas

as rosas dos cabos lavrados.

 

=================

 

 (Salomão Sousa, João Carlos Taveira e Diego Mendes Sousa)

(Cavalheiros e Damas, João Carlos Taveira!):

 

A insônia e o sono

habitam o rosto dessas mulheres

de sorrisos maculados de metais.

Elas caminham para a morte

pelas sendas de suas rugas

e cobrem os seios lassos

não de tecidos grossos

mas de restos de sonhos.

Da memória de outros dias

elas se nutrem e não

das carnes que temperam

com cebolas.

 

Neste contexto, em que aponto a característica de várzea na madura obra de Astrid Cabral, levanto Lição de Alice (1986) - que também gerará um livro futuro nomeado Ante-Sala (2007) - cujo maior veio pressentido é o tempo, esse que aniquila, que se faz passado, que não volta nunca, jamais, ou talvez retorne, ainda que na lembrança, como esclarece Astrid, como um carrossel fantasma giratório, nos nossos dias céleres.

       

          Muitas fomes te esporeiam a carne:

          A que matas entre dentes na mesa.

          A que matas entre pêlos na cama.

          A que te mata: a terra

          abocanhando-te as entranhas.

 

===================

 

 

Rio do tempo, por tuas águas

de silêncio é que navego

a montante buscando

a inatingível nascente

de onde jorra o ser.

A refluir entre correntes

de pretérita amargura

bendigo o presente alívio

e em remansos de findo gozo

choro ilhas de céus submersos.

Nessa viagem de regresso

nostalgia movendo velas

de punhos atados ante

o destino cumprido, reluto

e grito contra a vertigem

que me conduz ao abismo.

 

 

 

Como é notório, as obras de Astrid Cabral vão a refluir novas nascentes. É o que acontece com Intramuros (1998, Prêmio Nacional de Poesia Helena Kolody) - que gestará Jaula (2006) - sendo um livro sui generis, porque se abstrai em uma carga filosófica de litania epifânica e fugaz, em um jogo bem articulado de imagens paralisadas e ponderações, como este Ovo Estrelado, dedicado à extraordinária poeta mineira Lina Tâmega Peixoto, também fundadora desta Associação Nacional de Escritores, ao lado de Anderson Braga Horta e José Santiago Naud, aqui presentes nesta seleta plateia.

 

 

Do céu do prato

um sol me olha

com olho de ouro.

 

 

É quando entalo

de cara a cara

com o nunca pássaro.

 

É quando engasgo

lembrando em mágoa

o canto náufrago.

 

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Lavo panos e panelas

o olhar buscando estrelas.

Quero a água

que não vem da torneira.

Quero o fogo

que não vem do fogão.

 

 

 

Quando proclamo que Astrid Cabral é uma Poeta de Várzea, reafirmo a madureza e a sabedoria que ela articula em seu processo criativo, que conhece o tardar e o anoitecer da construção apurada de um poema; de um sopro eviterno; cousa de visão nata, lapidada para poucos e raríssimos.

 

 

 

03 – Astrid Cabral: Poeta de Terra Firme

 

 

Nobres cavalheiros e belas damas, a maior parte da nossa Amazônia não é de alagadiço, embora a natureza bruta da exótica floresta e seus rios desaguados no infinito façam-nos acreditar o contrário. Pois afirmo aqui, o que nos comprovam os estudos científicos, a Amazônia é mata de terra firme.

E, assim como a atmosfera mágica do coração da hileia misteriosa, Astrid Cabral é uma poet’alma de terra firme, como nos mostram as obras Torna-Viagem (1981), Rês Desgarrada (1994) e Ante-Sala (2007).

 

Em tiro o mar é morno

e entre conchas e ondas

moram mates mosaicos

de um tempo morto.

==================

 

Solto meus cavalos

de sonho no hipódromo

deserto e vago:

 

Lá vão eles

em invisíveis corridas

com bigas e quadrigas.

 

Lá vão eles

jaez de seda nas selas

louros nas fulvas crinas.

 

Lá vão eles

semenando estrume

na obloga pista.

 

Lá vão eles

a perder de vista

galopando eras.

 

=================

Rubras raiam as rosas

nos jardins de Chiraz

e seu vermelho é grito

contra o minuto fugaz

em que as vou colhendo

por mãos o meu olhar

faminto de infinito.

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Mar pontilhado de ilhas

mar varrido de quilhas

maravilhas de montes.

Vastas línguas de vento

lambem teatros templos

bronzes de azinhavre

azeitonas nas árvores.

Na Hélade, entre abelhas

velhos deuses condescendentes

incorporam-se no mármore

face a face seres de carne.

===================

Desabou-se o azul

sobre Istambul:

luzem luas e estrelas

nas espáduas da cidade.

(Ao anoitecer de Bizâncio

o enigma era o sexo dos anjos).

 

 

Todavia, o enigma da poesia de refugo de Astrid Cabral preserva a história, as estórias de reis e rainhas e faraós, a toponímia das vastidões antigas, nomes de registro e de identidade do Extremo-Oriente: Alepo, Chipre, Cairo, Damasco, Beirute... Memória mulçumana de templos e mosaicos da cultura de Allah, acrescida das fotografias do encantamento, das pirâmides na paisagem, a Grécia pessoal e afetiva, feitiços e feitiçarias sobre o dorso das lâminas de seus cavalos em assalto.

Torna-Viagem, confesso, é a obra da perfeição estética de Astrid Cabral, tão bem acabada que retirou do Acadêmico Ivan Junqueira as seguintes notas prefaciais: “(...) com esse líquido e aéreo périplo de impressões e de líquidas minudências; é a coletânea de ferrenha e obsidiante coesão estilístico-formal (...)”.

 

Ademais, em Rês Desgarrada, temos a nossa poeta na experiência do exílio, em seu desejo involuntário, onde sabores, hábitos, usos, costumes e cores reclamam as suas origens.

Agora em Chicago, Estados Unidos da América, Astrid Cabral pede perdão aos seus amigos por ter visto o novo com olhos velhos, é quando seus olhos, neblinam-se de saudade, caminhar de estrangeira, longe do ninho das afeições, entre paixões e compaixões, em outra geografia, em outro clima, experiências cativas de uma andarilha.

Nessa obra, percebo as inclinações sociais de Astrid Cabral, a manifestar a sua solidariedade com o homem e seus fracassos, com o destino do mundo e das suas injustiças latentes, desde séculos.

 

Pois em Chicago, amigos,

sou rês desgarrada.

Agarra-me sim, danada

a nostalgia da ex-boiada.

 

Carga pesada esta saudade

dos pastos brasis

onde os buritis sambam

à carícia da brisa.

 

Perde-se meu ser rural

tão tropical nesta urbe

labirinto de pedra e vidro

sob o cilício do frio.

 

Oceanos de chão e tempo

cercam-me gélidos, cegos.

Neles, sem sossego navego

e nau sem rumo quase afundo.

 

-Vaca na balsa, rês desgarrada-

 

===========

 

Se fosse pela razão

não voltava não.

Mas é que sou movida

a gás de emoção.

==========

 

Outro clima outra língua

outra raça outra moeda

mas o bicho homem é o mesmo

e a vida sempre alto preço

 

===============

 

Um belo dia te acena o outono

com folhas de adeus e fogo.

 

Um belo dia o outono em teu ombro

pousa chuvas de breve ouro.

 

Então o tempo te prende em sua teia

e o coração poente te incendeia.

 

Em clave superior e grave se insinua Ante-Sala, é que a transcendência toma corpo e voz nos pulsos de Astrid Cabral, que magistralmente, transforma o espaço da vivacidade em pré-promontório, antes da altaneira casa de Deus, ante ao prévio estágio diário na travessia, que periclita, em nave cinzenta e desigual.

 

Este o mundo

de mistérios

refratários

a microscópio.

 

Este o mundo

de muralhas

inexpugnáveis

a máquinas.

 

Aqui a noite

opaca e parca

de estrelas.

 

Aqui os olhos

embrulhados

em dobras e sombras.

 

Esta a ante-sala:

áspera espera

de outra era.

 

===========

 

Atravessar o mar

  a vela, a nado.

 

Atravessar a terra

  a pé, de carro.

 

Atravessar a cor

  às cegas, em claro.

 

Atravessar a dor

   a ópio, a espasmos.

 

Atravessar o entrave

   a treva, a carne.

 

Atravessar o ser.

       Dar na outra margem.

 

 

A Amazônia, nobres cavalheiros e belas damas, é uma bacia sedimentar, a maior hidrografia do nosso planeta, cujo relevo é instaurado por planícies e depressões, assim também é Astrid Cabral, bardo de piso rígido, em magnânima exuberância verbal, que trava elementos existenciais díspares, no entanto, unos, a abraçar linguagem e modernidade recursal de saberes, culturas e planos supremos.

 

 

04- Astrid Cabral: Poeta dos Rios Voadores

 

Palavra na Berlinda (2011) e Jaula (2006) são obras temáticas, experimentações vocabulares ou provocações através do reino animal, aquela disseca a palavra e esta, a biodiversidade da Amazônia ancestral.

Palavra na Berlinda aduz reflexões sobre o ofício do escritor, o toque do divino sobre os nossos ombros, a guerra do ser contra o próprio ser:

 

 

       As palavras se contaminam

       de cada um de nós.

       Bebem nosso único sangue.

       Engravidam das vivências

       de específicos destinos.

       Quando alçadas em abstrações

       prévias estagiaram no cerne

       de nossa própria carne.

       Por isso descaminhos se traçam

       e se cavam abismos e abismos

       entre bocas e ouvidos.

       O que se expressa e vigora

       em aparente senha comum

       não cintila a sua aura

       e de nós o essencial ignora.

 

===================

 

 

Que eu não me arvore

a contradizer o efêmero.

Sou artigo perecível.

Escrevo na água.

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Amar a Deus sobre todas as coisas.

(o abstrato me extravia)

Amar a Deus em todas as coisas.

 

 

Jaula tem tradução especial para a língua inglesa, sob o título de Cage, a comprovar o além-fronteiras que os escritos de Astrid conquistaram.

Estão em Jaula, os nervos expostos da autora, que na prisão explosiva das nossas faces de animais bravios, preservam-se ainda, da pequenez das nossas almas aquecidas de terror e miséria, ante o etéreo, ante o nefasto da dor de ser humano.

 

Dentro de mim há cachorros

que uivam em horas de raiva

contra as jaulas da cortesia

e as coleiras do bem senso.

S

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