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Astrid Cabral - Uma das maiores expressões da poesia brasileira - Parte II

Literatura por Diego Mendes Sousa em 2016-06-26 21:47:12


(Astrid Cabral)


Jaula tem tradução especial para a língua inglesa, sob o título de Cage, a comprovar o além-fronteiras que os escritos de Astrid conquistaram.

Estão em Jaula, os nervos expostos da autora, que na prisão explosiva das nossas faces de animais bravios, preservam-se ainda, da pequenez das nossas almas aquecidas de terror e miséria, ante o etéreo, ante o nefasto da dor de ser humano.

 

Dentro de mim há cachorros

que uivam em horas de raiva

contra as jaulas da cortesia

e as coleiras do bem senso.

Solto-os em nome da justiça

tomada de coragem homicida.

Mas sabendo que raiva mata

à míngua de tomar meus cães

vacinei-os. Ladrem mas não mordam

E caso mordam, não matem.

=================

 

Corre no chão do corpo um rio escuro

de turvas águas e desejos fundos

linfa ancestral entre pelos e apelos.

Nela, um boto prestes ao bote habita

e investe para que outros rios se gerem

e a vida não se aborte e eterna jorre.

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Este espaço

não é mais teu paço.

O verde das frontes em maio

e as coroas da primavera

não te concernem mais.

 

Em que invisível ar

estás a voar?

 

 

 

Os rios voadores são o sublimar da evaporação fluvial da Amazônia, a refrigerar a amplidão da floresta equatorial, calorenta e umidificada.

Astrid Cabral é oxigênio vital dentro da hipermoderna poesia brasileira, que apareceu na segunda metade do século XX, a pertencer à geração de 60. É fundadora do Modernismo no Amazonas, através do legendário Clube da Madrugada.

Ressalta Carlos Nejar, em História da Literatura Brasileira, que “(...) impressiona na poética de Astrid, o corte do verso que desarma com o desenho mágico das imagens. É erudita, mas não permite que a erudição disperse a estrutura primitiva que desce natural, fluente e às vezes feroz (...)”.

Para mim, a única diferença entre Astrid Cabral e a Floresta Amazônica, donde a poeta vem anfíbia, ou seja, se locomovendo em terra e água, é que esta não possui raízes profundas, porém aquela, mais que abismais, firma-se em raízes diversas, múltiplas, polifacéticas, maturadas, como vinhos franceses ou azeites finos da Espanha.

 

O dia em que o rio vier

se deitar em meu quintal

estendendo seu lençol

sobre as tábuas do soalho

não arrancarei cabelos

nem torcerei as mãos.

Quedarei firme pensando:
tardou bastante a chegar
a partida inevitável.
Por que galgar o telhado
o topo da alta mangueira
ou mesmo fechar a porta?

Permanecerei na casa
já em barco transformada
os pés afundando n’água.
O horizonte me convida
a transpassar o umbral
e trocar de morada.

 

 

Deveras, não creio que a morte seja o término da aventura. A imortalidade é um presságio de asa (anjo ou pássaro), que se aliou ao signo poderoso das ideias e comoções fantásticas de Astrid Cabral.

Há eternidade. Existirão sonhos e fomes aos poemas astridianos, que se preservam para a posteridade.

Seus oitent’anos, Astrid Cabral, são apenas as escalas fugidias do pan-tempo ao retrovisor da dor ou da alegria de se saber estrada sinuosa ou desatada, de um coração à solta em sangria, alagado de humanidade.

 

Do meu sonho de encontro

sempre adiado, só posso dizer:

como será o abstrato abraço

de corpos já sem braços?

 

============

 

Enxerto-me no ontem:

eis-me à janela de gerânios

num canto de Londres.

Um sol de sangue parafraseia-me

o coração sangria desatada.

Ainda não atravessei

o mistério do meu futuro.

(A vida, um presente no embrulho)



Por fim, coroando esta homenagem da ANE à Astrid Cabral, assistiremos a um documentário datado de 2011, inédito para o público brasiliense, dirigido e idealizado por mim, em minha cidade natalícia, Parnaíba, litoral do Piauí, berço cultural de Evandro Lins e Silva e literário de Humberto de Campos, intitulado A Senda e a Alameda de Astrid Cabral.

 

https://youtu.be/FosqWBtSkmw

https://drive.google.com/file/d/0B66O7pPcpz4fVWttb1lGWVhLaW8/view?usp=sharing

(Para assistir, acesse o link acima)

 

Muitíssimo Obrigado!

 

 

 

Brasília - DF, 23 de Junho de 2016.

 

 

 

 

                              Diego Mendes Sousa

 

 

(Diego Mendes Sousa e Astrid Cabral)

 

 

Palestra proferida em 23 de junho de 2016 na Associação Nacional de Escritores (ANE), em homenagem aos 80 anos de vida de Astrid Cabral (1936-), que esteve presente no recinto da Casa de Almeida Fischer.

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