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Memórias do Porão - Cultos Prosopoemas de Luz de Carlos Nejar

Literatura por Diego Mendes Sousa em 2016-06-27 18:36:50

Memórias do Porão - Cultos Prosopoemas de Luz de Carlos Nejar

Poeta Carlos Nejar - Mago da palavra

Confirma-nos Carlos Nejar, que a alma é um porão de extrema memória.

MEMÓRIAS DO PORÃO (1991) é legado inventivo dos abismos siderais de imensa luz, que abrem o cerne da palavra, na magia de ponderações e afirmações cultas, rememorando imaginações do fogo do gênio, da lanterna do sábio, da visão rasgada do poeta,  do olhar preciso do filósofo do tempo-eternidade, que é o próprio Carlos Nejar, em sua sina desenfreada de auroras imortais.

Carlos Nejar soma elementos artísticos poderosos, cúmplice do seu idioma de metamorfoses ampliadas no espírito e na alma, pois afirma o aedo que " não é dado mais apartar espírito e alma".

Todo porão está nas sombras das coisas, anjos ou demônios, que despertam as noites dos sonhos; ou todos os deuses estão na memória dos nomes e dos mitos, que são nossas esferas no tear da passagem louca. Diz Carlos Nejar, que "até o horizonte é comboio de vagões sonolentos. E o universo, elefante branco, seu apito sincopado, longevo."

Feitos de beleza, esses prosopoemas encontram posteridade. São memórias futuras de quem já é-foi presente ou ressuscita seus fantasmas do passado, além da música dos pássaros libertos ou sonoras das profecias em rochedos de ilusão.

 

 

 

AS VENTAÇÕES

 

      O porão ventaniava ventanhava ventarolava e

os habitantes seguravam suas mechas, os crespos

cabelos. E as ventações eram regidas pelo timbre

das nuvens como o bronze de longes campaná-

rios. Ou pelas narinas do mar.

 

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VEDAÇÕES

 

     Amar ficou vedado no porão a não ser em

prazo demarcado pela moral civil.

    Quem amar não deve ser amado. E quem de-

sama saberá perdoar quem amou demasiado.

     Amar é desterrar-se. A lei jamais contempla o

muito amor.

     Nem o que foi abandonado.

 

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ORDEM

 

      As crianças ordenam os objetos, como se fos-

sem coordenar a alma. Que a ordem das coisas é

a ordem íntima do homem, a mais polida

solidão.

 

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O GÊNIO

 

     O gênio é abominável no porão. Igual à pala-

vra abominável que gira ao redor da viração com

o silêncio preso na garrafa. A provação é ter a

marca sobre o flanco e esquecê-la, escondendo-a,

diamante. E a sua criativa claridade há que ser

afastada muito antes do ventre, muito antes do

próprio pensamento de nascer. E se nasce, que o

desterrem menino.

    A graça é a arte de Deus aparecer como se

despertássemos.

   Toda a luz devasta a calma dos que habitam o

núcleo mais espesso.

   O que é vivo deve morrer imenso, ou apenas

isolar-se no futuro.

 

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PEDRA FILOSOFAL

 

        Nada satisfazia os seres inconstantes do po-

rão. Cobiçavam o divino. Era a pedra filosofal

nova escada entre as almas e as celestes

maravilhas.

       Um profeta varou o deserto com a terra de

promissão na boca seca. Só os desertos amam os

profetas.

      O deserto: intervalo entre ele e ele. Depois

não havia mais intervalo. Havia Deus.

 

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PRODÍGIOS

 

       Menino, via sinais em tudo. Aprendera prodí-

gios sob a pele fria ou rugosa do dia. Pressentia

marés com a mão. Menino, abandonou tudo para

ir preparar sua infância, como quem prepara a

morte.

 

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O POETA

 

     Sob a enxovia de canários, o poeta alimenta

as palavras como bezerros novos. É tão mortal-

mente pobre para si e visionário aos outros.

      As palavras sabem de onde vieram e ele des-

conhece as tempestades de areia sobre o berço.

As palavras soletram o alfabeto. Mas o alfabeto é

uma rede sinistra no porão, carnívora, onde o

Sistema arma, desarma as explosões.

     O poeta é pai das palavras e todas elas são

inocentes.

 

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EU ESTAVA NO PORÃO

 

    Construí um laboratório de nuas paredes.

Mesa simples, cadeira. Janelas abertas. Sou o pri-

meiro homem e tudo deverá ser reinventado.

    Começarei pela alma.

 

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FRAÇÕES DE ETERNIDADE

 

    Os homens sabiam: tudo o que se veda na

cumieira pode ser fundamento da casa e tinham

o pesadelo do tempo, a especiaria de o reduzir ao

próprio travo e peso, a cada inquietação, como se

houvessem frações de estar no mundo ou de

guerrear à tona do equilíbrio.

     Precisamos de eternidade para um verso, a

eternidade ao amor e também ao esquecimento.

 

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NUDEZ

 

     Quem ama desaprende toda a solenidade, pa-

ra ser nu com a desnudez inteira do universo. Ou

quem sabe o universo é só nudez.

 

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OS SÁBIOS

 

     Os sábios do porão esmeravam-se noutra ci-

ência, a da espuma. E volteavam a infância. Entre

alfarrábios de limo, a biografia das águas.

      Toda a ciência era viver, amar sem ofender as

ondas, morrer com a calma respirável de quem

se deita. É a espuma do mar o pélago suave das

essências nos descuidados peixes do sonho.

     Mas os objetos perseguem os sábios, como na

ponta dos óculos com as lentes e uma desordena-

da consciência.

     E as descobertas é que planejam os sábios na

criança que vislumbra dentro deles a ciência mi-

raculosa da espuma.

 

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VAN GOGH

 

    O porão do processo era um canteiro amarelo

de corvos que Van Gogh com os pés em lebre

atravessou de um sol a outro.

 

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ÓVULO

 

     O sonho deposita-se no sonho, em óvulo. E a

reposição é de um oceano.

 

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O ANUNCIADOR

 

    O porão debulhava entre as celestes vozes, o

que o Anjo gravara sobre a entrada:

 

        Só a alma eleva

        ao grau de sua morte

        a graça de te esposar,

        Eternidade.

 

 

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Prosopoemas de Carlos Nejar

Minuta de Diego Mendes Sousa

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