Rede Mídia de Comunicação | Rede Sem Fronteiras

Você está em: Início > Notícias > Literatura > Voo Cego (1980) - A estreia lírica de Darcy França Denófrio

Voo Cego (1980) - A estreia lírica de Darcy França Denófrio

Literatura por Diego Mendes Sousa em 2016-07-20 21:11:22

Voo Cego (1980) - A estreia lírica de Darcy França Denófrio

Grande Poeta e Crítica Darcy França Denófrio

A poesia de Darcy França Denófrio (1936-) guarda uma relação íntima com a alma humana. Poeta profunda, afiada em sua visão de universalidade, também de buscas longínquas e acordada à luz da metafísica do seu estro de asas eternas, Darcy, sem melindres, enaltece o lirismo brasileiro com tão brilhantes e pungentes metais interiores.

VOO CEGO (1980) é a obra de estreia de Darcy França Denófrio, que arrematou elogios do nosso Carlos Drummond de Andrade, que ressaltou: "Seu livro testemunha tanto uma fina sensibilidade quanto um espírito meditativo (...)".

Darcy França Denófrio tem uma personalidade adorável, de delicadezas imensas, como a colheita primaz dos seus escritos, onde ela mesma já declarou: "Eu venho de verdes vinhas, de gente canção, de gente ternura - noventa por cento coração". E é de coração que se derrama a sua vera poética de cristais invictos de beleza e suave dor.

Essa viagem vertical proporcionada pela força imagética de Darcy França Denófrio, encontrará sim, no infinito, o canto mais alto de um alçar claro, que tudo pode ver, além da postura de céus a sentir.

Eis uma ave de mistérios, minada por anjos rilkeanos.

 

========

 

 

SIGO-CEGO

 

Mal cheguei

e já estou de regresso.

A volta começou

no dia da chegada.

 

Mal cheguei

e já começa

a contagem regressiva.

 

Homonauta, aguardo amarrado

o momento decisivo

do disparo irrevogável.

 

A mão do controle remoto

não treme nem titubeia.

Ela programou a órbita

que eu desconheço.

 

Na minha astronave

faço voo telecomandado.

Não conheço o meu horizonte.

Sigo-cego: destino ignorado.

 

============

 

ALÉM-ROSTO

 

Há, em cada rosto,

um mundo invisível.

 

Cada rosto é reserva,

antes de si mesmo.

 

É anteparo, concreto,

muro aquém da casa.

 

O além-rosto é terra-do-sem-fim,

jamais vista ou alcançada.

 

É floresta, cheia de musgos,

de húmus e coisas proibidas.

 

Cada rosto é vidraça azul cerrada:

claro-escuro, perto-tão-distante.

 

Quando toco no seu rosto

toco sempre

                       o rosto de um estranho.

 

========

 

REPRESA

 

Há uma palavra-pedra,

represa na garganta,

sustentando uma explosão,

uma avalanche, uma ruína.

 

Há um silêncio

de remanso,

como se tudo já fora dito,

ou nada, ainda.

 

Há uma iminência,

uma ameaça,

uma sentença

(im)proferida.

 

Há uma pedra presa,

represa na garganta,

estrangulando um rio

no desfiladeiro.

 

=======

 

SEMENTE DE GRANITO

 

Guardei um sonho

dentro de uma rocha.

Plantei flores no deserto

e reguei com lágrimas.

 

As flores não nasceram

e o sonho acordou granito

na manhã de um dia

que não raiou.

 

=========

 

BUSCA

 

Eu quero um caminho

estreito ou largo,

com flores ou espinho,

mas eu quero um caminho.

 

Eu quero um caminho

(ou até vereda)

que me conduza

aos verdes pampas

de mim mesma.

 

Eu quero um caminho

reto, com endereço certo,

sem saídas falsas,

que me leve apenas

a me encontrar.

 

Eu quero um caminho,

mesmo sofrido,

onde meus rastros

até possam deixar

marcas de sangue

e alguns pedaços.

 

Eu quero um caminho

estreito, largo,

ou até vereda,

mas que me leve

ao endereço certo

de mim mesma.

 

=======

 

QUESTIONAMENTO

 

Por que o amor

é quase sempre

ave errátil,

que marca seu destino

e não pousa certo?

 

Por que o amor

é quase sempre

flor petrificada

(bem guardada)

que não se cumpre?

 

E por que se guarda

para algum instante

(devir... devir...)

uma gota límpida,

cheia de azul,

se é tão volátil?

 

Por que se adia um instante

se ele se rotula "agora"

e jamais "depois"?

 

Por que amordaçar

uma fonte se é branca,

e cumpre o seu destino?

 

Por que fechar um poço

nesse imenso deserto,

se ele se proclama

e é do caminheiro?

 

Por que... por quê?

=========

 

VIA-CRÚCIS

 

Havia o mistério,

o terço e a ladainha.

Havia o muro, algemas

e a salve rainha.

Havia mangas, meias,

gola e gravata.

Havia camisola no banho.

Havia o garfo do demônio.

Havia um fardo

maior que o penitente.

Havia cruz - havia cristos -

e coroas de espinhos.

 

==========

 

LIBERAÇÃO

 

Dentro de mim,

dorme um símio acorrentado

com os seus pesadelos.

 

Um homem das cavernas

que, súbito, acorda aterrado

na engrenagem contra-tempo

 

Que enlouquece nas armadilhas-

laços onde ele (pássaro)

um dia pôs o pé.

 

Que às vezes quebra

as barras da angústia

de sua própria cadeia

 

e salta em pânico

pelas selvas deste mundo.

 

==========

 

CONHEÇO UMA CASA

 

Conheço uma casa

onde mora uma árvore

em ascese constante

e arremesso vertical.

 

Conheço uma casa

onde mora um árvore,

que transcende o teto

e teima ir além,

 

que lança tácitas premissas,

argumenta, questiona, contesta

e o seu espaço conquista

e sempre além-vai.

 

Árvore teimosa,

irreverente, supravegetal,

para quem o teto é pouco

e por isso ultravai.

 

Árvore que rejeita

o limite branco imposto,

porque é árvore demais.

 

==========

 

LIMITE

 

Não tenho pressa:

cada coisa amadurece

e é fruto.

 

Há um tempo,

uma hora,

um momento,

um instante.

 

Não rompa o círculo

de seu limite:

Chegue mais depressa.

 

=============

Poemas de Darcy França Denófrio

Minuta de Diego Mendes Sousa

Em homenagem aos 80 anos da feliz existência de Darcy França Denófrio, que se comemora a 21 de julho de 2016.

 

(Darcy França Denófrio e Diego Mendes Sousa)

 

 

Deixe seu comentário, ele é muito importante para nós

* Seus dados não serão exibidos a terceiros.

Publicidade

Veja também