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A poesia de José Santiago Naud

Literatura por Diego Mendes Sousa em 2016-07-23 22:45:50

José Santiago Naud (1930-) - Agulhão Vivaz da Poesia Brasileira

Diego Mendes Sousa e José Santiago Naud

José Santiago Naud (1930-) é um escritor gaúcho que nos atinge a alma à queima-roupa.

Ao penetrar no universo poético - lírico e épico - de José Santiago Naud, temos a sensação de que entramos no cosmos, que cultiva o mito, que preserva o rito e, sobretudo, que fabrica muita beleza neo-helênica no agulhão vivaz das palavras.

José Santiago Naud é extraordinário. Gênio literário em quem imergimos, com a certeza de que clarões se dissolvem em fluxos de céus ascendidos. Sua dicção é ultraelevada, também abastecida do humano e do extra-humano.

José Santiago Naud é poeta poderoso, daqueles que rasgam o mistério do mundo para que a fonte imaginária dos espantos vocabularizáveis raia na vertigem dos séculos, dentro do cerne de cada coisa mais-que-perfeita. Seus poemas são aves de destinos sublimes.

Poeta admirável, que preserva a sabedoria dos antigos profetas.

 

É PRECISO VENCER QUAISQUER CORRENTES

 

É preciso vencer quaisquer correntes

e subir, como pomba no ar gelado.

É preciso afiar aspas reluzentes

e investir, como um cervo machucado.

É preciso lutar e ter lutado

sem ganas de vencer ou ser vencido.

 

E, entre as chamas ou lírios, contra o vento

é preciso também rir de si mesmo

e ser bom até ao fim no sacrifício.

 

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CÍRCULO

 

Falo em amor,

tremo e grito.

Levanto no próprio grito

e caio em tremor

                        e grito.

 

=======

 

MULHER DESNUDA

 

Não fora diferente

se duas luas viessem planar

nos flancos em repouso,

nem outro o vale mais oloroso seria

se pinheiros antigos

descessem a verde encosta

nas brancuras do ventre.

Um mundo se concentra

nesse pequeno território de membros.

E quando a carícia

num arrepio de queda d'água o perturba,

voz e cabelos

ao conturbado contorno estremecem

como rama nas auras

e todo o ser

para a fonte se inclina,

até o pássaro roçar indetido

as águas em delírio

que mágicas se espelham.

 

==========

 

DOS ANJOS

 

Só os anjos consomem a própria sombra

quando fulgentes descem do azul

ao árido hostil.

Seu tempo

o frêmito das asas,

e o espaço que as vestes sulcam

é luz

          em redemoinho,

puro

tanquilo círculo

na vertical armado.

E quando baixam

                          invisíveis

ao nosso precário, escuro saber

o espírito silva as muralhas da mágica

e o sol esplêndido sobre as coisas

a mão do Senhor

                            teúrgica

toca de novo

suavemente por eles

o real.

 

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POEMAS DO MALAMOR

 

Amor imarcescível

que renasce

na morte que gerou

e se projeta

noutra morte em que a vida se acalanta.

 

Amor - pássaro atroz

que se endereça

ao fogo do subir

e bica o tempo

no tempo em que a memória se confunde.

 

Amor

beijo perdido em boca esquiva

renúncia de não ser

certeza ativa

sede de eterno,

e força de afeição

que a altura prende

um pouco se detém

pois como a água

torna à terra e escorre

e sobe ainda.

 

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LEVAREI PARA A TUMBA

 

Levarei para a tumba,

                     incomunicável,

míseras destrezas e o convívio do mito.

Só o acessório, o visto, o definível

logrei realizar em torno do essencial

e assim me comuniquei

ou me dei.

Julguei amar, às vezes

pensei que dei amor.

                          Não dei,

pobre ilusão humanitária!

O amor não se dá,

amor não é mercadoria nem moeda,

ou ordem.

Existe a água e os seus murmúrios,

o fogo, devorador,

e o grande silêncio das árvores na noite.

Talvez exista também a singeleza de colher beijos

como se colhe uma flor. O amor

talvez seja isso, nisso

existe amor.

 

Levarei para a tumba

esse tal inexistente amor.

Deixo-vos

              (pois dei)

o acessório

o visto em torno do essencial

quanto existe

e insiste

e subsiste.

Amor, talvez.

 

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CAVALO MORTO

 

Morto

sua cabeça tão bela

outrora insofrenável

repousando entre vermes.

O corpo

          terso,

enorme

inominável já

colando-se na terra. E a grama

vencida a repugnância

a ensaiar

terna

uma cor mais nova.

Antes, utilidade

e agora, memória mal exposta

signo do tempo

constituição confusa

velocidade podre.

 

Das patas ágeis

restam

- persistência patética -

os cascos

e um resto apenas de cabelos escuros.

Sobre -

o arcanjo da destruição passa

sombrio

e enfeixa

aquela descomposta figura

nos silêncios da espada.

 

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A ILUSÃO DO POEMA

 

Digo-me ser

porque do parcel negro

no mar

já faço a imagem.

E à sua natureza de ser

forte e inerte nas águas

somo a fonte da minha explicação

- fonte aquém e remota

à ventura dos meus olhos fitando

canto

feito à aventura do olhar.

 

Sou a voz que o anima

com efeito

mero pretexto.

E como a rocha nas águas

chego

aonde os olhos param

e o poema se faz

esta ave pairando sobre o abismo

as asas grandes

soltas

nos suportes do nada.

 

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APOLO

 

Contorno claro

passo seguro

entre os frutos do inverno,

                                              o olhar

límpido

atravessa o campo dos sentidos - luminoso e fecundo.

 

Firme e exato

transita do útil ao gratuito

em eterno repouso

                              os pés

de hecatombe orvalhados

atravessam as teias da névoa

devassam

todo o futuro.

 

Ainda o real

nas escamas escuras da aparência

oculta a sua forma

                             repleta.

E à voz do silêncio

ao toque

leve do amor

sempre mais fundo

ele irrompe.

Anjo

e sexo alteado

para o tempo

eternamente

sua beleza flutua.

===========

 

COMO O PRÍNCIPE

 

Como o príncipe

que atravessou a sebe de espinhos

para descobrir que não havia princesa

transposto o muro da ilusão

vejo que sequer há muro

e me acho noutro sítio

face ao espelho

sem luz

e observo meu ritmo

no tambor que alguém esqueceu de me tirar.

Mas não encontro nele a pele esticada.

Deus meu!

Não encontro

sequer a pele!

 

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O FALSO HAI-KAI

 

céu e sexo

              a boca

com nexo

              reluz

e o grilo

        diz

vibrações vermelhas

os plexos da alma

                             um peixe

na carne

              feliz

 

 

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CONSOLAÇÃO

 

Aquieta-te, coração. A própria morte

é novo nascimento.

No mar da vida,

                        um barco apenas

chegarás seguro

(a)portando as claridades do obscuro.

 

E serás aquele que some

                                     no limite

a solidão imensa das vastidões do mar.

(Aricy Curvello, José Santiago Naud, João Carlos Taveira e Alice Spíndola)

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Poemas de José Santiago Naud

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