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Literando no teatro

Geral por Sandra Hasmann em 2017-05-31 18:39:22

 Renata Barcellos - Colunista convidada

No dia das mães, 14 de maio, fui assistir com uma amiga à peça Perdoa-me por me traíres cujo texto é de Nelson Rodrigues. Li a sinopse como sempre. Mas permaneci intrigada com o título. Peguei-me diversas vezes pensando no que seria encenado para justificá-lo. Ao ler o folder, deparei-me com as palavras do diretor Daniel Herz “É uma frase que nos chama, nos instiga... Uma frase-título que imprime uma perturbação imediata”. Assim, senti-me: atraída a desvendar o nome paradoxal.

\"O texto de Nelson Rodrigues trata-se da história da adolescente Glorinha cuja mãe foi assassinada por seu tio Raul. Ela é criada por ele. É vigiada por ele, a fim de preservar sua castidade. Não sabia ele que a sobrinha seria levada por uma colega de escola, Nair, a um bordel. Assim, inicia a peça. Com as duas colegiais neste lugar cujos clientes eram políticos, pessoas públicas. Nelson apresenta a situação de jovens de classe média entrando na vida da prostituição em troca de dinheiro e como algumas engravidam e abortam encaminhadas por dona do prostíbulo. A partir da descoberta do tio, a trama inicia. Ele revela a ela a real história de sua mãe.

Neste momento, a peça começa a se passar em dois planos: no presente e na memória. Nesta, o autor narra a história da mãe de Glorinha com seu pai até chegar ao motivo que levou Raul a matar sua cunhada. Naquele, o momento no qual o tio revela a ela o falecimento de Nair e saber sobre sua ida ao bordel e seu envolvimento com o vizinho deputado. Nisso, ao longo da peça, por alguma vezes, a esposa de Raul aparece, caminha dizendo “Está na hora da homeopatia”.

O elenco composto por Leonardo Miggiorin, Claudio Handrey, Charles Daves, Breno Guimarães, Bianca Montanas, Andressa Lameu, Alice Motta, Patrícia Ramalho, Tamires Nascimento, Fabiana Aveiro e Manuelita Lustosa tem atuação excelente. A platéia fica atenta. O texto é revelador. A cada instante, um fato novo. O cenário retrata bem a essência da trama.

Nelson Rodrigues (1912-1980) foi escritor, jornalista e dramaturgo brasileiro. No teatro, revolucionou com as peças \"Vestido de noiva\", \"Boca de ouro\", \"A falecida\", \"Toda nudez será castigada\", entre outras. Sua carreira foi marcada pela crítica, por explorar a vida cotidiana do subúrbio carioca, com crimes, incestos e diálogos carregados de tragédia e humor.

Ao fim da peça, no domingo, dia das mães, teve conversa muito esclarecedora com o elenco e a da consultora psicanalista Evelyn Disitzer. Ela declara que Nelson Rodrigues é considerado o Shakespeare brasileiro. Ele teatraliza a fantasia humana. A fala da esposa de Raul “A hora da homeopatia” anuncia a patologia humana. Ela se silencia com a morte de Judith, mãe de Glorinha. O termo ‘homeopatia’ surgiu em 1857 e o texto foi escrito em 1957.

O título da peça se explica por “Amar é ser fiel a quem nos trai”. O traído passa a ser responsável pela traição “Traição do sujeito pelo próprio desejo”.

Glorinha representa a “ambivalência”: desejo e medo antes e depois da descoberta do assassinato de sua mãe. Enfim, através das historias dos personagens, a peça nos proporciona um passeio pelo universo da alma humana. Vale a pena conferir!!!

A peça estava em cartaz na Casa de Cultura Laura Alvim , no Rio de Janeiro, até 28 de maio.

*Renata Barcellos -  prof.renatabarcellos@gmail.com

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