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FRAGMENTOS DE UM FLASH

Geral por Sandra Hasmann em 2017-07-08 11:59:19

Por Alvaro Cardoso

 

Um momento perdido no tempo. No ano da Graça de 1979, já na 2ª edição do meu livro \\\"Bicho Encantado\\\", estava eu, como sempre abordando uma fila de cinema e oferecendo minhas obras. Neste caso era o famoso Cine Belas Artes em seus áureos tempos de intensa qualidade e alta frequência. E numa fase de grande efervescência cultural quando um coletivo de poetas independentes, conhecidos pelo trabalhoso \\\"mano a mano\\\", faziam seu giro de \\\"merchand poético\\\" tentando conquistar seus leitores e por tabela pagar suas contas. No meu caso era sério e muito real. Neste período e nos 5 anos subsequentes consegui sobreviver como poeta \\\"profissional\\\", acumulando, é  claro, as outras funções intrínsecas ao ato e ao fato: vendedor, camelô, divulgador, artista performático, e grande \\\"realçador de sabor da língua\\\", ou \\\"poeta glutamato\\\" pois era preciso desenvolver uma \\\"lábia\\\" fora do comum para convencer um leitor incauto.

Por outro lado os leitores que já nos conheciam começavam a \\\"colecionar\\\" nossas obras e a \\\"cobrar\\\" novos produtos. Como eu sempre fora \\\"multifacetado\\\", vinha desenvolvendo desde a USP, onde iniciei meu \\\"teatro poético-musical\\\", o meu trabalho multimídia misturando Poesia, Música e Teatro. E apresentando na Biblioteca Mário de Andrade, no Centro Cultural São Paulo, MASP, e outros espaços públicos. Em 1979 aconteceu a Primeira Passeata Poética do coletivo Sanguinovo e o lançamento do Poema do Poste, que eram cartazes com poemas/ilustrações e que eram colados nos postes e tapumes durante o trajeto da Passeata. Eu, pessoalmente, realizei 5 Passeatas nesta época: 2 em São Paulo (1979/80), uma em Ribeirão Preto (1980), uma em Assis (1980), e uma em Santos (1981). Todas pela Arte Livre e Independente.

Mas voltando ao Cine Belas Artes num dia de \\\"batalha poética\\\", aconteceu um dos fatos mais pungentes que envolveu a minha criação e a sua função social, através de uma leitora muito especial. Estava eu oferecendo livros e ela se aproximou: “Você não é fulano que me vendeu um livreto poético “Bicho Encantado”“?

- Sim, sou eu!

- Ahhh! Eu estava lhe procurando, precisava tanto lhe agradecer... Pois você salvou minha vida\\\"!

Eu estava boquiaberto sem entender e ela continuou:

- Há alguns meses eu estava numa pior, sem perspectivas, querendo acabar com minha vida e você me ofereceu seu livro. Chegou na hora exata, pois foi por causa dele que eu consegui me levantar, rever meus conceitos e dar \\\"a volta por cima\\\"! “Quero lhe agradecer muito por ter aparecido na hora certa com a palavra certa.”

Eu sorri e fiquei feliz de saber que meus poemas tinham esta capacidade regenerativa. Foi aí que descobri a minha importância como escritor. E justamente aquele poema mais difícil de parir, aquele que mais nos revelaria e poderia também nos machucar,  justamente aquele poema que dava medo de publicar, era justamente o que causava mais interesse e mexia tanto com as pessoas. Depois que o seu próprio leitor vem até você e diz o que o seu texto lhe proporcionou, então é porque existe em você um escritor. Eu nunca havia pensado, antes deste fato, que minha Arte pudesse ter esse poder de \\\"salvar alguém\\\". Mas eu já sabia que ela era curativa, pois salvara a mim, por diversas vezes antes. Mesmo sentindo todo aquele medo da \\\"revelação interior\\\". 

P.S.: A história das Passeatas Poéticas e do Grupo Sanguinovo, que foi um coletivo de poetas e artistas plásticos, nunca foi contada pela história oficial nem pelos pesquisadores, os poucos, que se aventuraram a catalogar os autores desta época. A obra de referência deste período publicada por Heloísa Buarque de Holanda nunca mencionou estes poetas de São Paulo. O que foi no meu ponto de vista, uma grande falha dela.

Sobre o autor:

Álvaro Luiz Cardoso

Poeta/multiartista, bacharel em Teatro/USP. Reside em Amparo (SP). Poeta independente/ performático da geração 70, em SP, com cinco obras publicadas/esgotadas. Realizou as Passeatas Poéticas de 1979/80/81 em SP/interior. Membro correspondente do NALA de Buenos Aires e da ALAB, Búzios (RJ). Prêmios em Exposições de Artes Plásticas e Literatura em Niterói (AFBA-ANBA-2011) e no Rio de Janeiro (ABD-2013/16). Prêmios: Cláudio de Souza-Literarte/2012, Petrópolis (RJ), obra “A Chácara da Dona Cota”, (Reverbo Editora); Prêmio Estímulo 10º Festival de Inverno Amparo-SP, e DVD-Destaque, lançado em 2013; Anual Luso-Brasileiro-Melhores Poetas/2014, Edição Brasil-Mágico de Oz/Literarte; Poeta Destaque/2014, I Sarau Nacional Literarte, Gasômetro (POA); Melhor Artista Performático Literarte/2015, Recife-PE; Troféu Imprensa Sem Fronteiras/Menção honrosa Coletânea Sem Fronteiras Pelo Mundo, Blumenau-SC, 2016; Grande Medalha de Mérito Cultural Elisabeth Kinga-ABD, e Troféu de Poesia-Concurso Literário ABD/Museu Histórico do Exército/Forte de Copacabana-RJ, ago/16; Primeiro Lugar no Concurso Internacional \\\"Celebração 10 Anos Poemas à Flor da Pele\\\" e Troféu “Destaque Literário 2016”, Porto Alegre-RS, out/16; 2º Lugar Nacional no 7º Concurso Literário Internacional Buriti Cronicontos/2016, categoria Conto, Menção Honrosa/categoria Poesia.

 

Contato: cardosanto2010@gmail.com

 


 

 

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