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Drummoniando no CECA, no CEJLL/NAVE e na UNICARIOCA

Literatura por Renata Barcellos em 2017-08-20 07:30:12

Em comemoração aos 30 anos de falecimento de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), esta semana nas instituições de ensino CEJLL/NAVE – CECA e Unicarioca, realizamos uma homenagem. Nas escolas CECA e NAVE, organizamos uma exposição nas bibliotecas (em parceria com Alessandra Viegas e Tereza) a fim de que os alunos conhecessem um pouco da trajetória do escritor mineiro (atravessou o século XX produzindo poesia, crônica para os jornais) e lessem seus textos. As turmas ouviram um pouco da sua trajetória: mineiro de Itabira, formado em Farmácia, mas cuja profissão nunca exercera por ter engajado-se desde cedo na Imprensa e no serviço público. Em 1925, com Emílio Moura e Aníbal Machado, fundou A Revista, com o objetivo de divulgar o Modernismo em Minas Gerais. Da amizade com Oswald de Andrade e Mário de Andrade, deu-lhe a oportunidade de publicação do poema No meio do caminho na Revista de Antropofagia.

Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1934, como chefe de gabinete do amigo Gustavo Capanema, ministro da Educação de Vargas, até 1945, quando assumiu a editoria do diário comunista Imprensa Popular, a convite de Luís Carlos Prestes. Lá, mudou de cargo e no serviço público até a aposentadoria em 1962. Dedicando-se desde esse momento à sua obra, à tradução, à crítica e à colaboração em jornais e revistas.

É considerado o maior poeta brasileiro do século XX, o mais completo e de obra mais ampla, que abrange do Modernismo iconoclasta de 1922 à poesia de vanguarda das décadas de 1950/60, como o Concretismo.

Drummond teve sua produção analisada por Affonso Romano de Sant’Ana, um dos principais críticos do Brasil, e classificada em três fases:

1-       Eu maior que o mundo – poesia irônica

Em Alguma Poesia (obra inicial publicada em 1930) e Brejo das Almas (1934), Drummond apresenta humor, retrato do cotidiano, liberdade plena, constituindoa poesia reflexiva, de percepção dos conflitos humanos.

Cidadezinha Qualquer (em Alguma Poesia):

Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar… as janelas olham.

Eta vida besta, meu Deus.

 

Poema de Sete Faces

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.


2- Eu menor que o mundo – poesia social

A poesia social concentra-se principalmente nos livros Sentimento do Mundo (1940) e A Rosa do Povo (1945). Essas obras acentuam o eu-poético sensibilizado com o drama do outro e do mundo.

Mundo grande

Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo.
Por isso me grito,
por isso frequento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.

Confidência do Itabirano

Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.
E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.

De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil,
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa…

Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!

Em Sentimento do Mundo, o eu poético inicia este poema com referências à terra natal, Minas Gerais, mais especificamente a cidade de Itabira. Sua terra natal, centro da exploração de minério de ferro em Minas Gerais e local de fundação da Companhia Vale do Rio Doce.

 

3-Eu igual ao mundo – poesia metafísica

Esta fase revela um sujeito desencantado com tudo, não acreditando mais na solução social para o mundo. Alguns críticos chamam de niilismo. Em Drummond, isso denota uma negação, uma reflexão existencial que nega a própria existência. As obras representantes são Claro Enigma (1951), Fazendeiro do ar (1955), Vida passada a limpo (1959) e Lição de coisas (1962).

Então, desanimamos. Adeus, tudo!
A mala pronta, o corpo desprendido.
Resta a alegria de estar só e mudo.

De que se formam nossos poemas? Onde?
Que sonho envenenado lhes responde,
Se o poeta é um ressentido, e o mais são nuvens?

 

Depois de discorrermos um pouco sobre o escritor, foi proposta a leitura de poesias e pensamentos para discutirmos como:

 “Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade”.

  “O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar”.

“A minha vontade é forte, porém minha disposição de obedecer-lhe é fraca”.

  “Os homens distinguem-se pelo que fazem; as mulheres, pelo que levam os homens a fazer”.

“Perder tempo em aprender coisas que não interessam, priva-nos de descobrir coisas interessantes”.

“A amizade é um meio de nos isolarmos da humanidade cultivando algumas pessoas”.

“Ninguém é igual a ninguém. Todo o ser humano é um estranho ímpar”.

“Só é lutador quem sabe lutar consigo mesmo”.

“Há certo gosto em pensar sozinho. É ato individual, como nascer e morrer”.

“Há duas épocas na vida, infância e velhice, em que a felicidade está numa caixa de bombons”.

“Há muitas razões para duvidar e uma só para crer”.

“Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo”.

“No adultério há pelo menos três pessoas que se enganam”.

“Como as plantas, a amizade não deve ser muito nem pouco regada”.

“As dificuldades são o aço estrutural que entra na construção do caráter”.

“A confiança é ato de fé, e esta dispensa raciocínio”.

“O homem vangloria-se de ter imitado o vôo das aves com uma complicação técnica que elas dispensam”.

“Há livros escritos para evitar espaços vazios na estante”.

“A leitura é uma fonte inesgotável de prazer mas por incrível que pareça, a quase totalidade, não sente esta sede”.

“Escritor: não somente uma certa maneira especial de ver as coisas, senão também uma impossibilidade de as ver de qualquer outra maneira”.

 “Quem gosta de escrever cartas para os jornais não deve ter namorada”.

“É menor pecado elogiar um mau livro sem o ler, do que depois de o ter lido. Por isso, agradeço imediatamente depois de receber o volume”.

“Para a virtude da discrição, ou de modo geral qualquer virtude, aparecer em seu fulgor,  é necessário que faltemos à sua prática”.

“Se você sabe explicar o que sente, não ama, pois o amor foge de todas as explicações possíveis”.

“Eterno é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma força o resgata”.

 

E, assim, ao longo da semana, “drummoniamo-nos” pelo CECA, NAVE e Unicarioca a fim de homenagear um dos maiores escritores da literatura brasileira. Se você ainda não “drummonizou”, o que está esperando? Mergulhe em seus textos, encante-se!!!

 

  

Ainda esta semana uma apreciação da peça Nem mesmo todo o oceano. Vale a pena conferir!!!


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Romance baseado na obra de Alcione Araújo.
Direção e Adaptação 
Inez Viana
Com 
Leonardo Bricio ,Iano Salomão, Jefferson Schroeder,Junior Dantas Luis Antonio Fortes e Zé Wendell .
Produção: Fabrica de Eventos / Claudia Marques
Únicas apresentações no Rio com ENTRADA FRANCA.
Dias 19,20,26 e 27 de agosto.
Espaço Furnas Cultural 
ATENÇÃO: DISTRIBUIÇÃO DE INGRESSOS 1 HORA ANTES DO ESPETÁCULO.
Rua Real Grandeza, 219 - Botafogo

 

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