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O tempo é só uma questão de cor

Literatura por Renata Barcellos em 2017-10-16 14:07:14

A bela peça O tempo é só uma questão de cor é constituída por excelentes fragmentos de diversos textos (como crônicas e contos) de Caio Fernando Abreu. São apresentados em média 8 situações cujos temas são o amor, as dificuldades dos relacionamentos afetivos em suas diversas formas, a falta de comunicação entre as pessoas e a solidão do homem contemporâneo. Levando o público a refletir sobre cada um assunto no mundo contemporâneo.

Vale ressaltar que a pesquisa, a seleção dos textos e a dramaturgia final foi realizada pelo diretor do espetáculo Antonio Gilberto, com a parceria do ator Mauricio Silveira, cuja atuação deu vida às reflexões de Caio Fernando de Abreu referentes a nossa existência em tempos difíceis no qual estamos vivendo.

O cenário é constituído por um tapete e dois bancos no centro do palco. Esses elementos criam vida com a atuação do protagonista. A primeira situação apresenta um casal (a mulher de partida na rodoviária) pensando a relação deles imersa na comparação como “cresceu como semente. .. sem ser no vaso… precisava de muito espaço”. Nela, justifica-se o título da peça: “o tempo é uma questão de cor” e a discussão do medo de se viver um relacionamento de forma profunda “medo de penetrar mais fundo que existe em você – em mim” através de questionamento como “até que ponto projeção do que eu querias?”. Na segunda, em uma editora, um escritor aparece depois de dois anos fora. O silêncio é a mola condutora. Ao término, ela diz: - “você mudou?” e ele lhe responde: “tudo mudou”. Na terceira, é posta em cena uma pequena narrativa sobre a homossexualidade descritiva: “chovia, chovia, garrafa de conhaque, cigarros molhados , olhos dele postos em cima de mim… eu tinha de deter minha vontade de parar, de voltar atrás...”. Na quarta, observa-se a analogia da perda do amor a da morte: “você se doí inteiro.. AMAR ALGUÉM QUE CONTINUA VIVO É A MORTE – ANORMAL….. MAIS FUNDO…” e questionamentos como “e se eu tivesse ficado? Teria sido diferente?”. Há situações a seguir em que o ator Silveira vai até a plateia e interage. Ao final, apresenta a crônica Preciso de alguém


Meu nome é Caio F.
Moro no segundo andar, mas nunca encontrei você na escada

Preciso de alguém, e é tão urgente o que digo. Perdoem excessivas, obscenas carências, pieguices, subjetivismos, mas preciso tanto e tanto. Perdoem a bandeira desfraldada, mas é assim que as coisas são-estão dentro-fora de mim: secas. Tão só nesta hora tardia - eu, patético detrito pós-moderno com resquícios de Werther e farrapos de versos de Jim Morrison, Abaporu heavy-metal -, só sei falar dessas ausências que ressecam as palmas das mãos de carícias não dadas.

Preciso de alguém que tenha ouvidos para ouvir, porque são tantas histórias a contar. Que tenha boca para, porque são tantas histórias para ouvir, meu amor. E um grande silêncio desnecessário de palavras. Para ficar ao lado, cúmplice, dividindo o astral, o ritmo, a over, a libido, a percepção da terra, do ar, do fogo, da água, nesta saudável vontade insana de viver. Preciso de alguém que eu possa estender a mão devagar sobre a mesa para tocar a mão quente do outro lado e sentir uma resposta como - eu estou aqui, eu te toco também. Sou o bicho humano que habita a concha ao lado da conha que você habita, e da qual te salvo, meu amor, apenas porque te estendo a minha mão. (...)

Tenho urgência de ti, meu amor. Para me salvar da lama movediça de mim mesmo. Para me tocar, para me tocar e no toque me salvar. Preciso ter certeza que inventar nosso encontro sempre foi pura intuição, não mera loucura. Ah, imenso amor desconhecido. Para não morrer de sede, preciso de você agora, antes destas palavras todas cairem no abismo dos jornais não lidos ou jogados sem piedade no lixo. Do sonho, do engano, da possível treva e também da luz, do jogo, do embuste: preciso de você para dizer eu te amo outra e outra vez. Como se fosse possível, como se fosse verdade, como se fosse ontem e amanhã. (Crônica publicada no “Estadão” Caderno 2 de 29/07/87)


Caio Fernando Abreu (Santiago do Boqueirão, RS, 1948 - Porto Alegre, RS, 1996) foi crontista, romancista, dramaturgo, jornalista. Em 1963, publica seu primeiro conto O Príncipe Sapo, na revista Cláudia. Escreveu as seguintes obras: Inventário do Irremediável (1970), O Limite Branco (1971), O Ovo Apunhalado (1975), Pedras de Calcutá (1977), Morangos Mofados (1982), Triângulo das Águas (1983), As Frangas (1988), Os Dragões não conhecem o Paraíso (1988), Onde andará Dulce Veiga (1990), Ovelhas Negras (1995) e Pequenas Epifanias (1996). Por seu trabalho literário, recebeu os prêmios Fernando Chinaglia (1970), Status (1980), Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro (em 1984 e 1989), e seus textos foram traduzidos para diversas línguas. O gosto pelo não literal e as temáticas e linguagem transgressoras fizeram-no um dos escritores mais queridos da Literatura brasileira. A cultura pop, a atmosfera e a efervescência cultural dos anos 70 e 80 foram grandes referências para o escritor. Cazuza e Rita Lee foram grandes inspirações. Afirmou certa vez que esses dois amigos influenciaram mais sua obra do que grandes escritores como Graciliano Ramos, reafirmando o seu distanciamento com a forma canônica defendida pela Academia. A influência de diferentes tipos de texto fez com que sua linguagem se tornasse híbrida. Em algumas passagens da peça, é possível detectar características da poesia, do conto, da crítica literária …

A peça O Tempo é só Uma Questão de Cor está em cartaz na Sala Eletroacústica, da Cidade das Artes, no Rio de Janeiro, até 12/11. Vale a pena conferir!!! Afinal, como Caio dizia: “a vida é mágica… imagine, invente, voe!!! Não se perca!!! É pecado!!!









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