Rede Mídia de Comunicação | Rede Sem Fronteiras

Você está em: Início > Notícias > Geral > LISBOA “saloia” e “alfacinha”

LISBOA “saloia” e “alfacinha”

Geral por Dulce Rodrigues em 2017-11-01 20:54:38

LISBOA “saloia” e “alfacinha”

As quintas que existiam no século XIX, e ainda nos inícios do século XX, nos arredores da cidade transformaram-se, no frenesim da urbanização, em horrendas “florestas” de betão sem qualquer estética urbanística e paisagística, verdadeiros dormitórios sem alma que agora se encontram integrados na área de Lisboa, como Amadora e Odivelas.

Era nessas quintas que se produziam os legumes, sobretudo alfaces, que os agricultores, conhecidos como “saloios”, vinham vender a Lisboa. Os saloios tiveram a sua origem nas comunidades mouras que saíram da cidade de Lisboa para as zonas rurais limítrofes após a fundação do Reino de Portugal e a conquista da cidade por Dom Afonso Henriques. Essas comunidades mouras eram maioritariamente descendentes dos Mouros da seita mauritânia de “Çalá” – aos quais se dava o nome de Çaloio. Dai a etimologia da palavra saloio. Possuíam uma cultura própria, vivendo da agricultura nas suas hortas e pomares e do comércio desses produtos agrícolas, que vinham vender a Lisboa. A região da Malveira ainda hoje é conhecida pela sua Feira da Malveira.

Por sua vez, as mulheres dessas zonas rurais ganhavam mais algum dinheiro como lavadeiras das famílias abastadas de Lisboa, secando ao sol, nas suas aldeias, as peças de roupa que lavavam para as suas “senhoras”. Desses tempos ficou o termo “Aldeia da Roupa Branca”, título dado a um filme dos anos 30 do século XX.

Os produtos agrícolas dessas regiões rurais não eram somente frutas e legumes, também aí se criavam coelhos, gado e aves de capoeira, o que deu lugar a uma gastronomia variada e rica, onde sobressaem as receitas de coelho, aves e porco. O queijo fresco ainda hoje é muito apreciado, mesmo no resto de Portugal – e devo confessar que sou uma grande consumidora! Quase não passa um dia em que não coma um, ou mesmo dois queijos fresco. É o único queijo que não faz engordar, sendo mesmo aconselhado para quem quer emagrecer!

A maneira de trajar dos habitantes dessas regiões rurais também era muito característica, incluindo o barrete e o colete – usados até há pouco tempo pelas pessoas mais idosas – vestuário que subsiste ainda nos trajes dos “forcados” que fazem a “pega” nas touradas.

Agora que falámos dos “saloios” e da sua relação com Lisboa, vejamos a origem de uma alcunha que certamente já ouviram muitas vezes quando nos referimos aos habitantes de Lisboa que, além de lisboetas, são também conhecidos por “alfacinhas”. Há várias versões para explicar a origem da alcunha, mas todas têm a ver com alface, cuja etimologia é a palavra árabe “al-chassa”. Uma das versões leva-nos de novo às zonas rurais circundantes de Lisboa, onde um dos produtos agrícolas mais cultivados era a alface. Diz-se que “alfacinha” pode ser uma referência à abundância da planta na região, ou ao facto de os habitantes dessas zonas comerem muitas alfaces. Na gíria popular, a alcunha teria acabado por se estender aos habitantes de Lisboa quando a cidade, na sua ânsia devoradora, englobou esses terrenos outrora férteis.

Há, porém, uma segunda versão: num dos cercos de que a cidade foi alvo aos longo da sua ocupação pelos Mouros em 711, ou 714, até à conquista cristã por Dom Afonso Henriques em 1147, os seus habitantes tinham como alimento quase exclusivo as alfaces das suas hortas e foi a partir de então que a palavra nasceu.

Uma terceira origem, desta vez literária, remete-nos para o livro “Viagens na Minha Terra”, de Almeida Garrett, onde se lê o seguinte: \"Pois ficareis alfacinhas para sempre, cuidando que todas as praças deste mundo são como a do Terreiro do Paço...\". O termo ficou consagrado e foi popularizado por outros autores como Aquilino Ribeiro, Miguel Torga, o que contribuiu para assimilar lisboeta a alfacinha, ou vice-versa.

Qualquer que seja a origem, o facto é que a alcunha ficou e ainda perdura, apesar de já não se cultivarem alfaces no Terreiro do Paço. Aliás, já nem sequer ali existem árvores como até há algumas décadas atrás, para dar sombra e frescura a quem por ali passa.

O termo “saloio” tem, em contrapartida, o significado pejorativo de campónio, rústico, manhoso, grosseiro, e a expressão “esperteza saloia” equivale a dizer que uma pessoa é velhaca. Por isso, meus amigos – amigas subentendidas, claro! – nunca usem esse termo ao dirigirem-se a um Português.

Tal como o nome de Lisboa mudou ao gosto dos povos que a conquistaram e habitaram (ler artigo anterior), também o Tejo, ao recuar as águas do seu leito, modificou a sua bacia hidrográfica, deixando a seco línguas de terra como aquela em que se encontra a Torre de Belém, inicialmente cercada pelas águas em todo o seu perímetro.

Dulce Rodrigues
http://about.me/dulcerodrigues

www.facebook.com/author.dulce.rodrigues

www.dulcerodrigues.info 

www.barry4kids.net

Deixe seu comentário, ele é muito importante para nós

* Seus dados não serão exibidos a terceiros.

Publicidade

Veja também