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O Cavaleiro Inexistente do escritor Italo Calvino é a obra recomendada na vitrine do Focus Cultural.

Literatura por Alberto Araújo em 2018-02-03 23:23:17
       
Nessa espécie de romance de cavalaria às avessas, Italo Calvino põe em marcha toda a sua habilidade construtiva e capacidade alegórica, mas também a sua verve humorística, para contar as aventuras e desventuras de Agilulfo Emo Bertrandino dos Guildiverni e dos Altri de Corbentraz e Sura, o cavaleiro inexistente da corte de Carlos Magno. Circundado por uma galeria de personagens que compõem um verdadeiro exército brancaleônico, Agilulfo serve com fé a causa da cristandade. De permeio, tem de lidar com uma querela em torno de sua nobre reputação, espelhada na armadura trazida sempre imaculadamente alva, embora paradoxalmente vazia. Como nos demais romances da trilogia Nossos antepassados, Calvino mergulha nos tempos heróicos da cavalaria medieval, vistos aqui em chave burlesca, utilizando como narrador uma freira confinada no convento, cuja penitência é justamente escrever a história desse cavaleiro sui generis.

 
INÍCIO DO LIVRO
 
  
SOB AS MURALHAS VERMELHAS DE PARIS perfilava-se o exército da França. Carlos Magno ia passar em revista os paladinos. Encontravam-se ali havia mais de três horas; fazia calor, era uma tarde de começo de verão, meio encoberta, nebulosa; quem usava armadura fervia como se estivesse em panelas em fogo baixo. É provável que, naquela fila imóvel de cavaleiros, alguém já houvesse perdido os sentidos ou cochilasse, mas a armadura os mantinha empertigados na sela de modo uniforme. De repente, três agudos de corneta: as plumas dos penachos agitaram-se pelo ar parado como depois de uma rajada de vento, e logo silenciou aquela espécie de rumor do mar que se ouvira até então, e era, deu para sentir, um ressoar das gargantas metálicas dos elmos. Finalmente, vislumbraram-no avançando lá do fundo, Carlos Magno, num cavalo que parecia maior que o natural, com a barba no peito, as mãos no arção da sela. Reina e guerreia, guerreia e reina, faz e desfaz, parecia um tanto envelhecido, desde a última vez que aqueles guerreiros o tinham visto.
 
Parava o cavalo diante de cada oficial e virava-se para examiná-lo de alto a baixo.
 
— E quem é você, paladino da França?
— Salomon da Bretanha, sire! — respondia o militar a plenos pulmões, erguendo a viseira e mostrando o rosto afogueado; e acrescentava alguma informação prática, do tipo: — Cinco mil cavaleiros, três mil e quinhentos soldados de infantaria, mil e oitocentos ajudantes, cinco anos de campanhas.
 
— Mão firme com os bretões, paladino! — dizia Carlos, e, toc-toc, toc-toc, aproximava-se de outro chefe de esquadrão.
 
— E-quem-é-você, paladino da França? — recomeçava.
— Ulivieri de Viena, sire! — escandiam os lábios assim que a grade do elmo se erguia. E direto: — Três mil cavaleiros escolhidos, tropa de sete mil homens, vinte máquinas de assédio. Vencedor do pagão Fierabraccia, graças a Deus e para maior glória de Carlos, rei dos francos!
 
— Muito bem, bravo vienense — dizia Carlos Magno; e aos oficiais do séquito: — Muito magrinhos aqueles cavalos, aumentem-lhes a ração. — E seguia adiante: — E-quem-é-você, paladino da França? — repetia, sempre com a mesma cadência: “Tata-tatatai-tata-tata-tatata...”.
— Bernardo de Montpellier, sire! Vencedor de Brunamonte e Galiferno.
 
— Linda cidade, Montpellier! Cidade das belas mulheres! — E dirigindo-se ao séquito: — Vamos tratar de promovê-lo. — Todas coisas que, ditas pelo rei, dão prazer, mas eram sempre as mesmas frases, há tantos anos.
 
— E-quem-é-você, com esse brasão que me é familiar?...
 


UM POUCO SOBRE O AUTOR 

 
Italo Calvino nasceu em Santiago de las Vegas, em 15 de outubro de 1923, foi um dos mais importantes escritores italianos do século XX. Nascido em Cuba, de pais italianos, a sua família retornou à Itália logo após o seu nascimento.
 
Formado em Letras, participou na resistência ao fascismo durante a Segunda Guerra Mundial e foi membro do Partido Comunista Italiano até 1956, tendo se desfiliado em 1957. A sua carta de renúncia ficou famosa em 1957 .
 
Sua primeira obra foi Il sentiero dei nidi di ragno (A trilha dos ninhos de aranha (título no Brasil) ou O atalho dos ninhos de aranha (título em Portugal)), publicada em 1947. Uma de suas obras mais conhecidas é Le città invisibili (As cidades invisíveis), de 1972, tendo como personagens Marco Polo e Kublai Khan. Faleceu em Siena, 19 de setembro de 1985.
 
 
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