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Yank

Literatura por Renata Barcellos em 2018-03-14 22:00:59

 

 

Ontem, dia 12 de março, tive a grata satisfação de assistir ao musical Yank (originalmente, um Off-Broadway, criado pelos irmãos David e Joe Zellnik). Fui sem recomendação dos grupos dos quais pertenço. Apenas fiz uma breve leitura de uma sinopse na qual trata-se da história de um soldado desajeitado que descobre o amor e sua sexualidade ao ser convocado para a Segunda Guerra Mundial e apaixonar-se por um colega de pelotão.. Despertou-me curiosidade na abordagem da temática. Não criei expectativas. Para minha surpresa, fiquei encantada. Nunca um me tocou tanto quanto esta. Ele não tem como base um texto literário. Mas é poético. A construção textual é exemplar. Embora já tenha assistido a diversas peças excelentes, esta foi a melhor pelo conjunto da obra (elenco, narrativa, direção, música, teatro...). Estou inebriada. Adoraria ter a habilidade de redigir uma apreciação com um toque poético como o do espetáculo. 

·         A peça Yank aborda a questão do amor proibido no militarismo (por causa do homossexualismo) de forma delicada. Recruta sem a menor habilidade para a guerra e com dificuldades para se relacionar com os outros de seu pelotão, o protagonista Stuart envolve-se com um deles: Mitch. A partir daí começa a trama que nos surpreende a cada ato, cena. Há um quê de poesia. Lembra-me a Segunda geração do Romantismo (cujas características são o amor platônico, sentimentalismo exacerbado, saudosismo dentre outras) com frases como “Não sei o que fazer, só penso em você”, “Ouço bater a porta. É você soldado. Não mudou nada em ti.  O seu olhar ainda brilha quando sorri. Vem me fazer suspirar...” e “Eu já tentei te esquecer. Lembrei de tua voz. Não me esqueci de você. Parece que estou preso a você. Estou louco por você”.  

A narrativa é constituída por 10 atores cuja interpretação é excelente mais 4 músicos. Cabe destacar o par romântico: Betto Marque, no papel de Mitch; e Robson Lima, no de Stuart. O texto traduzido por Menelick de Carvalho e Vitor Louzada comove, faz sentir prazer (no beijo de declaração – não houve um tom agressivo), dor (na separação) e medo (no interrogatório) com o desenvolvimento dos acontecimentos. É surpreendente a cada cena.

Vale ressaltar também a atuação de Leandro Terra (Art, o fotógrafo gay da revista militar Yank). Ele convida Stuart para trabalhar com ele como repórter, poupando-o do campo de batalha. Parabéns também a direção geral de Menelick de Carvalho e a musical de Jules Vandystadt. O enredo prende a atenção. Não senti o tempo passar. Há um intervalo entre um ato e outro de 15 minutos. Pareceu-me uma eternidade dada a vontade de saber como seria o desfecho. Não darei pistas aqui. Espero despertar a curiosidade para que se interesse em assistir ao musical.

Outro aspecto relevante é hibridismo da peça composta de narrativa, música e diário. Este é o responsável pela trama do texto. Neste, foram registradas as situações vivenciadas por Stuart. Com o registro das experiências de Stuart, verifica-se como a escrita tem o poder de libertar e/ou de aprisionar. A cena inicial e a final é a mesma: um rapaz lendo o diário de Stuart, adquirido em um sebo, imaginando o que teria de fato acontecido. Quem seriam aquelas pessoas cujos nomes apareciam pelas iniciais dos nomes. E, pela leitura, sentado no meio do palco, o leitor conclui: “ espero que tenha amado muito” e a mensagem é “o melhor jeito de amar é sem culpa”.

Quanto ao musical, as canções colaboram para o desenvolvimento da narrativa. As versões delas são de Menelick Carvalho e Vitor Louzada. Os músicos são ótimos. Fernanda Gabriela, a única mulher do elenco com um timbre lindo. E, para completar a composição, as coreografias de Clara da Costa expressam bem a essência da trama.

A voz de Robson Lima não é muito boa para musical. Mas a atuação estava perfeita. Deu o tom certo ao personagem. Foi capaz de despertar sentimentos como o amor e a dor. A escolha deste ator para substituição de Hugo Bonemer foi ideal. Ele tem a fisionomia angelical e inocente como o papel exige. O par composto por ele e Betto Marque, o texto traduzido e as músicas para composição dos personagens são responsáveis pela sutileza na abordagem do tema ainda um tabu para muitos na sociedade contemporânea. As cenas finais exigiam dramaticidade e ele foi capaz de fazê-lo de forma primorosa. Transmitindo assim veracidade.

Termino com um trecho de uma das músicas do espetáculo: “ Não consigo mais dormir, docinho. Só penso em você. Nada me distrai. Passo o dia a tua espera. Só penso em você”. E, assim, se sai do musical. A apresentação termina. Mas a essência adentra a alma, o ser.

Ficha técnica


Elenco: Hugo Bonemer, Betto Marque, Leandro Terra, Fernanda Gabriela, Conrado Helt, Dennis Pinheiro, Leonam Moraes, André Viéri, Alain Catein, Bruno Ganem, Robson Lima e Rhuan Santos.
Libretto e Letras: David Zellnik
Música: Joe Zellnik
Tradução e Versões: Menelick de Carvalho e Vitor Louzada
Direção Geral: Menelick de Carvalho
Direção Musical: Jules Vandystadt
Coreografias: Clara da Costa
Desenho de Luz: Daniela Sanchez
Direção de Arte: Vitor Aragão
Programação Visual: Thiago Fontin e Raphael Jesus
Assistência de Direção: Vitor Louzada
Assistência de Direção Musical e Regência: Ciro Magnani
Direção de Produção: Leandro Terra
Produção Executiva: George Luis
Assistência de Produção: Igor Miranda e Mayara Luana
Realização: Silhueta Produções
Assessoria de Imprensa: Ribamar Filho

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SERVIÇO: 

 

Terça e quarta, 20h. R$ 60. 130 min. Classificação: 16 anos. Até 2 de maio. Teatro dos Quatro – Rua Marquês de São Vicente, 52 – Gávea. 

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