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A noiva de cristal

Literatura por Renata Barcellos em 2018-03-25 07:40:14

Ontem, assistimos a uma peça totalmente paradoxal. O texto baseado em uma história real de uma familiar do autor e diretor Márcio Azevedo é um misto de drama e romance: há grande carga dramática e, ao mesmo tempo, muita sutileza. O enredo foi redigido por ele, primorosamente, em apenas 48 horas. A excelente atuação dos 4 atores dá veracidade à história e nos faz emocionar: Ana Guasque (de “Sobre Ancas”), Joana Izabel (de “Sonho de uma Noite de Verão”), Thaís Petzhold (de “SeteOito – Impermanências”), Caroline Vetori (de “Mani Maioca”) e Fabrício Zavareze, que vem de uma temporada em Porto Alegre.

O que mais impressionou-nos foi a habilidade como Márcio Azevedo elaborou a narrativa. Conseguiu abordar o tema da loucura e uni-la à literatura. Foi maravilhoso cada texto reconhecido e percebendo a função no desenvolvimento da história. São declamados 7 fragmentos de grandes autores: Luiz de Camões Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade... Mostrando assim à plateia como a poesia tem o poder de nos salvar, de nos libertar. É terapêutico. Humaniza o homem. Vale a pena conferir!!!!

O espetáculo trata de assuntos ainda (muitas vezes) não abordados socialmente com naturalidade e de forma adequada: loucura e tratamento psiquiátrico. No espetáculo, é narrada uma história que se passa na década de 1950. Dulce, uma mulher apaixonada, é abandonada pelo Fernando, noivo, às vésperas do casamento. O motivo só é revelado no fim do espetáculo. É surpreendente. Uma verdadeira prova de amor. Nesse momento, o público é levado a refletir sobre até que ponto uma mentira pode afetar uma vida? Neste caso, a família interferiu na vida e no destino de um ser humano – sobretudo excluindo-o socialmente. Assim, por não saber como ajudar Dulce (triste demais), decide interná-la em uma clínica psiquiátrica. Lá, fica 15 anos. Enlouquece por não compreender a atitude de Fernando. Passa os dias a espera dele até descobrir a verdade.   

O autor e diretor Márcio Azevedo revela que Dulce é a sua prima-avó. Segundo ele,

                                                   Ela esteve internada algumas vezes. Fui criado com ela                                                      

                                                e as únicas pessoas que não tinham preconceito eram                                       

                                              minha mãe e eu. Todo mundo tinha medo dela, porque ela

                                           “era louca”. Essa história mexe muito comigo.

E, quando pensamos que iriamos embora, ainda mais para nos enriquecer. Após o espetáculo, ontem, uma psiquiatra, o elenco e o autor e diretor propuseram um bate-papo sobre o texto e as questões abordadas. De acordo com Márcio Azevedo,

                                                            A gente tem feito debates com psiquiatras e pessoas da área.  

                                                    Uma das coisas que a gente tem percebido é que parece

                                                  que o sistema manicomial mudou, mas não mudou tanto.

                                                 Ainda existem manicômios com choque elétrico, tortura.                      

                                                  Todas as pessoas que têm alguma doença ligada à psiquê  

                                                  deveriam ver, porque o espetáculo aborda o preconceito,  

                                                 como as pessoas não tocam, tem medo e repudiam quem  

                                                 já passou por uma clínica.

A peça é um espetáculo!!! Especialmente, para quem é da área da saúde, para professor de Literatura, para roteirista/ escritor. A peça termina mas cola em nós. É paradoxal. Realmente, não poderia faltar Camões com o belíssimo poema Amor é fogo que arde sem se ver  declamado logo no início da peça:

 Amor é um fogo que arde sem se ver; 
É ferida que dói, e não se sente; 
É um contentamento descontente; 
É dor que desatina sem doer. 

É um não querer mais que bem querer; 
É um andar solitário entre a gente; 
É nunca contentar-se e contente; 
É um cuidar que ganha em se perder; 

É querer estar preso por vontade; 
É servir a quem vence, o vencedor; 
É ter com quem nos mata, lealdade. 

Mas como causar pode seu favor 
Nos corações humanos amizade, 
Se tão contrário a si é o mesmo Amor? 

Luís Vaz de Camões, in \"Sonetos\" 

 

FICHA TÉCNICA


Texto e Direção: Márcio Azevedo
Elenco: Ana Guasque, Joana Izabel, Thaís Petzhold, Caroline Vetori e Fabrício Zavareze
Design de Luz: Bathista Freire e André Winosviski
Cenografia: Zoé Degani
Figurinos: Zoé Degani e Márcio e Azevedo
Fotógrafo: Jorge Aguiar
Assistente de Direção:Fabrício Zavarezee Caroline Vetori
Trilha Sonora: Márcio Azevedo
Arte Gráfica: Gabriela Cima
Costuras: Atelier de Costuras Lori Peruzzo
Produção e Realização: Ana Guasque Artes & Entretenimentos, Rafael Carretero e 7 Marias Produções

Assessoria de Imprensa: Julyana Caldas – JC Assessoria

Gênero: Drama
Classificação: 16 anos

 

SERVIÇO

Entre 23/03/18 e 01/04/18
Sextas, Sábados e Domingos 19h
Teatro Glauce Rocha
Av. Rio Branco, 179 – Centro – RJ -
Informações: 21-2220-0259



 

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