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Literando no teatro

Literatura por Renata Barcellos em 2018-06-17 00:39:50

Hoje, 16 de junho, dia de comemoração da publicação da obra Ulisses, de James Joyce, no mundo todo, fomos assistir ao belo espetáculo Memórias de Fogo. Para nossa surpresa, antes do início da peça, houve uma “prévia” com Tchello d’Barros (responsável pela bela apresentação da poesia visual) na qual citou um pensamento de Borges: “O fato central de minha vida foi a existência das palavras e a possibilidade de tecê-las em poesia” para contextualizar a apresentação. Lembra o público sobre a data comemorativa, informou sobre a exposição Poesia visual, no primeiro andar, do Centro cultural da Justiça Federal (vale a pena conferir também) e convidou-nos a participar da mesa-redonda cuja temática é Poesia visual e experimental, na sala de leitura, no dia 5 de julho. Em seguida, chamou algumas pessoas da plateia. Por exemplo: a escritora e poetisa Chris Herrmann, que mora na Alemanha há 23 anos, autora de Borboleta - a menina que lia poesia, publicado pela Editora Patuá. Ela apresenta-se e declama três poesias: Diálogos, Textura e poesia homenagem à Meirielle. Por último, apresentou-nos um grupo de acadêmicos da Flórida. Uma dupla declamou em alemão e a outra apresentou poesia sonora.

Quando a peça inicia com tom misterioso, fúnebre, ao som de tempestade, percebemos tratar-se de uma proposta inovadora com as diversas linguagens: cênica, musical, visual... com ênfase na função poética. O resultado é maravilhoso. Parabéns ao diretor e roteirista, Sady Bianchin; e à Marcela Giannini, pelo texto!!! A seleção das músicas (cabe ressaltar também a bela interpretação de Laffayete Alvares Jr) e dos poemas declamados lindamente pelo elenco constituído por: Carolina da Rosa, Gleice Uchoa,  Marcela Giannini, Renata Egger e Sady Bianchin dialogam e apresentam a outra função de linguagem: a apelativa. Assim, através da poesia, da música e da coreografia, nota-se o tom de questionamento, de crítica social, de apelo...

Exemplo disso são o poema O amor, de Vladimir Maiakovski (também conhecido como “o poeta da Revolução”, frequentemente citado como um dos maiores poetas do século XX, ao lado de Ezra Pound e T.S. Eliot, bem como “o maior poeta do futurismo”, movimento que ajudou a criar), adaptado e musicado por Caetano Veloso e interpretado por Gal CostaRessuscita-me Ainda que mais não seja / Porque sou poeta / E ansiava o futuro / Ressuscita-me / Lutando contra as misérias /Do cotidiano / Ressuscita-me por isso...”; a letra da música Corsário, de João Bosco e Aldir Blanc com interpretação de Ney Matogrosso e, em seguida, de Elis Regina “Meu coração tropical está coberto de neve, / mas ferve em seu cofre gelado, a voz vibra e a mão escreve mar / bendita lâmina grave que fere a parede e traz / as febres loucas e breves que mancham o silêncio e o cais...” foi  inspirada em outro poema de Maiakovski “... Nestes últimos vinte anos /
nada de novo há / no rugir das tempestades. / Não estamos alegres, /é certo, /
mas também por que razão / haveríamos de ficar tristes?...”; e música Canteiros, de Raimundo Fagner: “Quando penso em você fecho os olhos de saudade / Tenho tido muita coisa, menos a felicidade / Correm os meus dedos longos / Em versos tristes que invento / Nem aquilo a que me entrego..” é inspirada no poema Marcha, escrito por Cecília Meireles: “Quando penso no teu rosto, fecho os olhos de saudade / Tenho visto muita coisa, menos a felicidade /Soltam-se meus dedos tristes Dos sonhos claros que invento Nem aquilo que imagino /Já me dá contentamento”; Pensamentos citados como: “O homem é do tamanho de seu sonho”, de Fernando Pessoa e ““A poesia é um ato de paz. O poeta nasce da paz como o pão nasce da farinha. O que mais se parece com a poesia é um pão ou um prato de cerâmica ou uma madeira delicadamente lavrada, ainda que por mãos rudes”, de Pablo Neruda.; e lindos poemas declamados, por exemplo, os versos abaixo de cujos poetas não mencionarei a autoria, a fim de incentivar o mergulho no mundo das letras, “a sede do saber”:

 

1-“Eles verão sonhos sonhados

Eles têm medo dos poetas que incomodam

Eles têm medo dos que andam com a cabeça madura”.

 

2-“Não tenho outro amor

A não ser a dos loucos revolucionários

Não quero saber de lirismo

Que não seja libertação”.

 

3- “Vou fazer um poema de retalhos

Poema machado

Poema demolidor”.

 

4-“O corpo do meu poema

É assombração

É boemia

É malandro da Lapa

Batalha com foice e martelo”.

 

5-“Penso que assumir a vida

É ser operário das palavras

Na madrugada ser do livro

Versos, barulhos e sangue

Feito poeta veloz”.

 

6-“Não é alegria, é histeria

Não é desejo, é saída de emoção

Não é mão dupla, é contramão”.

 

 

Ao final do mergulho no universo das letras, o elenco faz um apelo:

 

“Aprenda, não tenha medo! Esteja sempre a aprender!! Não será orientado nos discursos!! Não será cenário...”.

 

Dessa forma, percebemos que a seleção de textos, permite-nos refletir sobre as questões inerentes à vida (amor, água, medo...). E o título do espetáculo justifica-se: memórias são fundamentais ao combate e ao impedimento de mazelas sociais. E, na parte final, observamos a exaltação da esperança como símbolo de liberdade na música Fé cega, vaca amolada, de Beto Guedes:

 

“Plantar o trigo e refazer o pão de cada dia

Beber o vinho e renascer na luz de todo dia

A fé, a fé, paixão e fé, a fé, faca amolada

O chão, o chão, o sal da terra, o chão, faca amolada

Deixar a sua luz brilhar no pão de todo dia

Deixar o seu amor crescer na luz de cada dia

Vai ser, vai ser, vai ter de ser, vai se muito tranquilo”.

 

Nos agradecimentos, o diretor e roteirista, Sady Bianchin, diz que a proposta da peça trata-se de uma ode aos setores excluídos da sociedade. Especifica-os e termina com: “A arte é transformação da realidade”. Que venham as mudanças!!! Vale a pena conferir!!!

 

Foi uma excelente escolha para comemorar o dia de hoje, 16 de junho, Ulisses, de James Joyce (1882-1941). Ele é considerado como um dos maiores “estilista” em prosa do século. Em 1922, ano de publicação da obra fundamental na história do Modernismo, da Literatura inglesa. Trata-se de uma obra com 800 páginas, estrutura narrativa e psicológica e inovação da linguagem, diferente a cada capítulo. Dividida em 18 capítulos, a história é baseada na \\\\\\\"Odisséia\\\\\\\", de Homero, e se passa num único dia: 16 de junho de 1904, em Dublin. Abaixo um fragmento do episódio no qual há a famosa lembrança de Molly da proposta de casamento de Bloom e da aceitação dela

\\\\\\\"E como ele me beijou debaixo da muralha mourisca e eu pensei tanto faz ele como outro e depois pedi-lhe com os olhos para pedir outra vez e depois ele pediu-me se eu queria sim dizer sim minha flor da montanha e primeiro pus os braços à volta dele sim e puxei-o para baixo para mim para que pudesse sentir os meus seios todos perfume sim e o coração batia-lhe como louco e sim eu disse sim eu quero Sim\\\\\\\" (2005:796).

 

 Enceramos assim a noite de 16/6/2018, inebriados com muita música e literatura. Para os amantes das letras, ida obrigatória. Antes de entrar no teatro, suba a bela escada e confira a exposição de poesia visual. E VIVA A POESIA!!!

 

Ficha Técnica:

 

Direção e roteiro: Sady Bianchin

Texto: Marcela Giannini e Sady Bianchin

Ass. De Direção: Marcela Giannini

Direção musical:  Laffayete Alvares Jr

Preparação corporal: Carolina da Rosa

Poesia Visual: Tchello d’Barros

Concepção  da Luz: Sady Bianchin

Criação da luz: Carlos Canano

Operador de Luz: Bruno Caverninha

Figurino: Beth Araújo

Fotografia: Mariana Flor, Murillo Ribeiro e Tchello d’Barros

Assessoria de Imprensa: M&S Comunicação

Direção de Produção: Elissandro de Aquino

Produção executiva: Marcela Giannini

Ass. De Produção : Allana Lopes, Camila Monteiro, Isabele Trinta, Laura de Carvalho, Mariana Benedito, Patrícia Woujo e Renata A. Pfisterer. 

Elenco:

Carolina da Rosa, Gleice Uchoa,  Marcela Giannini, Renata Egger e Sady Bianchin.

Músicos:

Fillipe da Mata (violão)

Laffayete Alvares Jr (voz)

Lytho Santana (percussão)

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Laffayete Álvares Jr

Muito obrigado por nos assistir e pelas palavras elogiosas. Nesses tempos sombrios, Memórias de Fogo é de fato um apelo ao amor, em suas lógicas mais lúcidas, e à revolução, em nossa necessidade de mudanças tanto individuais, quanto, e principalmente, coletivas.

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