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A mentira

Literatura por Renata Barcellos em 2018-06-20 08:26:38

Desde a divulgação da peça A Mentira (adaptação do romance homônimo, de Nelson Rodrigues (1912-1980), uma tragédia causada por mentiras e segredos), com bela direção e primorosa adaptação de Inez Viana, com realização da Cia OmondÉ, sabia que adoraria. Infelizmente, não pude ir à estreia. Fui segunda-feira ao Teatro Gláucio Gill. Antes do ESPETÁCULO (nas duas acepções do termo), sentei-me e observei como o público desta companhia (já assisti a trabalhos anteriores) é, de fato, diferenciado. Ao meu redor, pessoas comentando sobre a obra e outras peças (“papo cabeça”). Plateia lotada. Vários artistas prestigiando. Merecido!!!  

Confesso que este texto rodriguiano (repleto de surpresas) não conhecia. Nele, é apresentada a história de ma família constituída de pai, mãe, quatro filhas e três genros, moradores de na zona norte do Rio de Janeiro. Esta será desestruturada diante da notícia de que a caçula, Lúcia, de 14 anos, está grávida. Ela não revela de quem é o pai. A suspeita sobre quem seria o pai da criança será a mola propulsora de uma sequência de revelações de acontecimentos passados e desejos ocultos sob a aparente harmonia familiar. Em cena, a bela interpretação de atores e atrizes que se revezam nos vários personagens da trama. Essa escolha fez a diferença. Destaco a atuação do ator Júnior Dantas. A interpretação de Lucia por ele foi espetacular no momento no qual ela é descrita como dissimulada.  

Cabe ressaltar como surgiu esta obra-prima. Em 1953, a pedido de Samuel Wainer, Nelson Rodrigues começou a publicar em episódios, no Jornal Última Hora, aquele que seria seu primeiro romance assinado, sem o pseudônimo Suzana Flag. A obra consiste em 18 capítulos publicados na revista Flan. Vale ressaltar que só saiu como romance em 2003. Assim, dois anos antes da Lolita, de Vladimir Nabokov, Nelson criou Lúcia. A Mentira é atual por tratar de questões atuais como a gravidez na adolescência, a discussão do aborto, a misoginia. Segundo o ator Leonardo Brício, \\\\\\\"A doença familiar, as obsessões, a atração do pai pela filha, os elementos rodriguianos estão ali. O ser humano não deu certo. A gente tenta ser sadio nas relações familiares, mas existe a insalubridade. As doenças estão aí.\\\\\\\"

A diretora Inez Viana teve a sutileza de na adaptação manter a dinâmica do texto. A característica da Cia OmondÉ de mesclar narrativa com movimentação constante dos atores cuja atuação é inquestionável (todos sempre em cena) e, nesta proposta, em alguns momentos, músicas torna o texto híbrido e com resultado positivo. Tudo na dose certa. A escolha musical para acentuar a carga emotiva ao enredo da história foi ótima. Destaco Você Não Sabe, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, interpretada também por Maria Betania “Você não sabe que os anseios do seu coração / São muito mais pra mim / Do que as razões que eu tenha pra dizer que não / E eu sempre digo sim..”; Edith Piaf (amei) com A vida em rosa : “Qando ele me toma em seus braços / Ele me fala baixinho / Eu vejo a vida em rosa ...” e Brigas, de Aldemar Dutra: “Veja só / Que tolice nós dois/ Brigarmos tanto assim / Se depois / Vamos nós a sorrir / Trocar de bem no fim / Para quê maltratarmos o amor? O amor não se maltrata não...”. Ah, esta lembrei-me de minha avó. E, por fim, o toque de sempre: Leonardo Bricio e sua gaita.

Uma metáfora atravessou a encenação: outro elemento que chamou minha atenção desde o início: o pano de chão esfregado pelos atores ao longo da encenação. A narrativa foi desenvolvendo e fiquei pensando em sua simbologia. Para Viana, a mulher é “literalmente o pano de chão\\\\\\\", os diálogos parecem subtextos. É o que as pessoas pensam das outras, e não dizem. Nelson”. Ele realça a carga dramática.

A companhia tem sete belos espetáculos no repertório e muitos prêmios. Já escrevi sobre um deles: Nem mesmo todo o oceano (http://www.redesemfronteiras.com.br/noticia_ver.php?id=3417. Ela é composta por Carolina Pismel, Debora Lamm, Iano Salomão, Inez Viana, Jefferson Schroeder, Juliane Bodini, Junior Dantas, Leonardo Bricio, Luis Antonio Fortes e Zé Wendell. A Cia OmondÉ surgiu no final de 2009 da vontade da diretora e atriz Inez Viana em formar um grupo com atores e atrizes vindo de várias partes do Brasil, para o aprofundamento de uma pesquisa cênica, onde a diversidade, a brasilidade e o diálogo com a cena mundial contemporânea fossem concomitantemente estudados.  De acordo com ela, trata-se de “uma busca aos signos do teatro, infinitos se pensarmos na precisão de um gesto ou na magia do aparecimento de um objeto em cena, levando o espectador a ser cúmplice não-passivo, co-autor e não somente voyer do espetáculo”.

Vale a pena assistir!!! A temporada no Gláucio Gill não tem patrocínio - a pequena renda gerada por oficinas de leitura do texto para estudantes arca com os custos básicos. De acordo com a diretora Ines Viana, “para nós, neste momento do Brasil e do Rio, é um ato revolucionário estar em cena\\\\\\\". Em 2019, celebrarão 10 anos de atividades com a montagem de uma obra inédita de Ariano Suassuna, a convite de Dantas Suassuna. Sem dúvida, será mais uma magnífica adaptação.

 

Ficha técnica

 

Texto: Nelson Rodrigues

Direção e Adaptação: Inez Viana

Elenco: Leonardo Bricio, Inez Viana, Denise Stutz (revezando com Inez), Junior Dantas, Zé Wendell, André Senna, Elisa Barbosa, Lucas Lacerda

Assistente de Direção: Bruna Christine

Direção de Movimento: Denise Stutz

Iluminação: Ana Luzia De Simoni

Figurino: Virgínia Barros

Ambientação Cênica: Inez Viana

Assessoria de Imprensa: Ney Motta

Projeto Gráfico: André Senna

Fotos de Divulgação: Aline Macedo

Direção de Produção: Inez Viana

Produção Executiva: Junior Dantas e Lucas Lacerda

Realização: Cia OmondÉ

Serviço

Local: Teatro Gláucio Gill

Endereço: Praça Cardeal Arcoverde, s/nº, Copacabana, Rio de Janeiro
(próximo ao Metrô Cardeal Arcoverde)

Informações: (21) 2332-7904

Temporada: 15 de junho a 9 de julho de 2018

Dias e horários: Sextas, sábados,domingos e segundas,  às 20:00

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