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Minha

Literatura por Renata Barcellos em 2018-07-05 15:42:38

Minha apresenta a história de um homem casado, pai de dois filhos, funcionário público, que divide seu tempo entre o trabalho, a casa e os compromissos sociais com as visitas diárias à esposa em coma, num leito de hospital, devido a uma cirurgia.  

O espetáculo Minha é intimista, transporta-nos à reflexão sobre a importância do companheirismo e do amor, a solidão, o abandono (“se não tem sentimento, tenha ao menos decoro. Finja”) e a iminência da morte a solidão. O autor Wilson Sayão elabora um belo texto para abordar temáticas atemporais. Mas muito presente na atualidade. Vivemos o Mal do século, não aquele da Segunda geração do Romantismo (inspirado em Byron) no qual se morria por AMOR. Hoje, morre-se por sua falta. O que gera a depressão e, infelizmente, muitas vezes, ao suicídio. Segundo a diretora Fátima Leite, a grande doença da é “não se sentir amado. Essa dor é muito difícil de compreender, de cuidar... Estamos morrendo de fome, de sede, de solidão”.

A peça surpreende desde o início. Não sentamos na plateia do teatro Dulcina. O cenário é constituído por uma maca, duas cadeiras, um véu e uma mala fica no centro do palco e as cadeiras ao redor. Ao entrar, a atriz Cynthia C. já se encontra deitada e a  música Na primeira manhã (de Alceu Valença) de fundo:

”Na segunda manhã que te perdi

Era tarde demais pra ser sozinho

Cruzei ruas, estradas e caminhos

Como um carro correndo em contramão

Pelo canto da boca num sussurro

Fiz um canto demente, absurdo

O lamento noturno dos viúvos”.

 

No início do monólogo, o marido Henrique, interpretado pelo ator Osvan Costa, chega ao leito da esposa depois de um almoço de aniversário. Começando assim a mencionar os fatos da realidade como a solidão entre pessoas. Em seguida, define o amor: “é a pessoa de quem você se lembra quando lhe perguntam o que é o amor. Ele é cego. Tem medo. É triste porque advinha que vai acabar um dia. Viril como a palavra”. Também vale destacar a delicadeza da cena na qual o ator passa a rosa pelo corpo da esposa. Pura poesia o texto como um todo. As músicas de fundo ao lado da narrativa foram bem escolhidas. Adequadas ao enredo. Um exemplo: Melodia sentimental

“acorda, vem ver a lua

que dorme na noite escura

que surge tão bela e branca

derramando doçura

clara chama silente

ardendo meu sonhar

As asas da noite que surgem

e correm o espaço profundo

oh, doce amada, desperta

vem dar teu calor ao luar

Quisera saber-te minha

na hora serena e calma

a sombra confia ao vento

o limite da espera

quando dentro da noite

reclama o teu amor

Acorda, vem olhar a lua

que brilha na noite escura

querida, és linda e meiga

sentir meu amor e sonhar”.

 

Podemos contatar assim que o texto de Wilson Sayão é repleto de referências. Como: músicas (Atrás da porta, Ausente, Melodia sentimental) Madre Tereza de Calcutá, Diana, Clara Nunes, dentre outras. A ideia de trazer como pano de fundo a morte da “princesa do povo” a fim de suscitar os temas abordados foi  excelente. Lady Di, morreu em acidente de carro em Paris, enquanto fugia dos paparazzi, em 31 de agosto de 1997.

Outro fato a ser destacado: a causa do coma da esposa. Passei a peça pensando qual seria. Quando para nossa surpresa, no final, há a revelação: “assim como Clara Nunes foi operar as varizes e morreu, você está aí assim”. A morte de cantora por insuficiência cardíaca devido a uma anafilaxia ao halotano ocorreu no dia 2 de abril de 1983, na Clínica São Vicente, no Rio de Janeiro.  

Cabe ressaltar que o projeto foi selecionado através do Edital de Espetáculos de Artes Cênicas e Música 2018, lançado pela Fundação Nacional de Artes – Funarte para ocupação de espaços da instituição. Vencedor dos prêmios Shell e Mambembe, Sayão escreveu a peça no final da década de 1990. O texto foi apresentado ao grupo Tá na Rua durante a oficina de leitura Studio A, ministrada pelo diretor Amir Haddad, em 2016. No ano seguinte, este incentivou Osvan Costa. De acordo com o ator, só aceitou depois da terceira leitura na qual escreveu alguns belos poemas. Confiram:


Comum de Dois

Você na sua liberdade

Me ensina

Eu na minha segurança

Te ensino

Você na sua emoção

Me ensina

Eu todo razão

Te ensino

 Você cabeça aberta ao vento

Eu pé plantado no chão

Duas sensibilidades reversas

Avessas às regras de convenção?

 Duas possibilidades concretas

De tijolo, telhado e tesão.

 

Sejamos cúmplices tais

Que nossos segredos possam ser gritados em caixa alta

Onde somente nossos ouvidos treinados

Decodifiquem nossa língua inventada

 

Quero fazer tudo

Contigo

 Depois de tudo

Quero fazer nada

Contigo

Estou a flor da pele

A flor dos pelos 

A flor dos poros

Tudo é um arrepio só


É o texto Minha o inspirou. Ele revela que, ao ler o texto, questionou-se: “Por que fazer minha?, Por que montar essa peça?... Na verdade, os porquês já tinham vindo em forma de poesia e, então, senti que era hora de mergulhar de cabeça, de voar no trapézio sem redes de proteção, de correr todos os riscos”.

Um pouco do autor do texto

Wilson Martins Sayão Filho (Rio de Janeiro9 de Junho de 1949), é um dramaturgo brasileiro. É formado em Direito pela Universidade do Estado da Guanabara (Hoje, UERJ) e autor de Obras dramáticas:

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