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11ª Mesa-redonda Poesia Visual Contemporânea

Literatura por Renata Barcellos em 2018-07-07 22:13:48

Ontem, 05 de julho de 2018, na Sala de cinema do Centro Cultural Justiça Federal – CCJF, a convite de Tchello d’Barros, assisti à 11ª mesa-redonda Poesia Visual Contemporânea. Este evento poético foi um verdadeiro curso em duas horas e meia de duração. Ele o definiu de forma exemplar como “antropomágico, fulinaímico e transcendental”. Foi parte integrante da programação de atividades da bela exposição itinerante e retrospectiva \"CONVERGÊNCIAS                   | A Poesia Visual de Tchello d’Barros” com curadoria de Sady Bianchin e texto crítico de Almandrade. 

O evento iniciou na exposição onde tiramos fotos, apresentamo-nos, trocamos contato, refletimos sobre a obra de Tchello (em especial eu e Maria Celia Vieira).  Logo após descemos para a mesa-redonda, com bela apresentação de Jorge Ventura (sempre descontraído), o encontro cuja curadoria e coordenação foi de Tchello d’Barros e  com as parcerias do jornal literário Plástico Bolha, da zine-revista Alfarrábios, da asse ssoria Domínio Fotográfico e Museu da Poesia Visual. Ao entrarmos, fomos recebidos pela performance Entre do simpático Gringo Carioca (quem tive o prazer de conhecer e conversar um pouco sobre poesia) de Entre, um texto que remete às questões da poesia visual: “Entre o além o e aquém o limite entre a fala e a escrita.... entre a ida e a volta o retorno entre a palavra e a imagem o signo...”.

Em seguida, abre os trabalhos declamando o poema Origami de seu recente livro “Palavra e Poesia”.

 

“Quando a ideia me perturba

entre o barulho e o silêncio

tudo é um só contrassenso

que inocência ou culpa

virá em vão me julgar

neste papel tumular?

reparto em dobras meus textos

discursos e manuscritos

(de abismos e de delírios)

nas páginas, palimpsestos

 

reparto também a folha

metade doutra metade

do que é múltiplo e arte

e antes que a ideia se recolha                                                   

e a angústia vire bolha

e o papel retorne seda

nas dobraduras das letras

o verso assim se desdobra

pois toda palavra é obra

pra muito além do poema”  (Ventura Editora, 2018).

 

E, antes de apresentar os participantes da mesa, discorre sobre a Poesia visual. Menciona as referências como  Almandrade, Fátima Queiros, Hugo Pontes, Joaquim Branco, Wlademir Dias-Pino . Este é responsável por uma das obras mais singulares da poesia visual no Brasil: Poesia/poema: Wlademir Dias-Pino, organizado por Rogério Camara e Priscilla Martins Parte da sua produção crítica e poética concebida foi entre os anos 1950 e início dos anos 1970, no auge dos movimentos da poesia concreta e do poema-processo. Depois desta breve introdução, apresenta os integrantes da mesa: Brenda Marques Pena, Igor Fagundes e Luiz Otávio Oliani e Sady Bianchin como debatedor.

A poeta Brenda Marques Pena (veio de Belo Horizonte, MG, prestigiar o evento - Mestrado em Poesia Sonora, é jornalista, performer,  autor do livro \"Poesia Sonora - História e Desdobramentos de uma Vanguarda Poética\"...) discorreu sobre como as provocações geram novos avanços. Diz ser agora um “momento propício” para a Poesia visual devido aos conflitos socioeconômico – cultural. Segundo ela, trata-se de “urgência por causa da falta de voz, da dificuldade das pessoas se ouvirem...”. Cita a obra Granada de Tchello, parte da exposição Convergências. Menciona Philadelpho Menezes e a sua relação com o movimento visual e sua ruptura. Questões presentes na época foram: “Quem é o dono da poesia visual?” e “Quem é o autor do movimento?”. Neste momento, Brenda refere-se a outra obra de Tchello: Ego para dizer sobre a autoria: “autoria não pode virar ego”. Para encerrar sua fala, cita um pensamento a fim de concluir que “se perder a raiz - a criação - a poesia sub-existe”.

O poeta Igor Fagundes (doutoramento em Filosofia, é professor universitário, ator, autor de \"Poética na Incorporação”....) já apresentou um discurso bem acadêmico. Fez-me lembrar das aulas sobre Saussure na graduação e no mestrado em Linguística ao discorrer sobre significado e significante. Fez-nos refletir sobre questões como:

                - o que se entende por poesia contemporânea?

             - o que significa ver o contemporâneo?

Igor Fagundes reflete sobre o significado da palavra contemporâneo (“em voga, em atividade, atual”), cita Mallarmé para dizer que compreender a contemporaneidade de cada obra é no seu tempo e no seu espaço de criação. Apresentou as quatro vezes, na história da arte ocidental, na qual a poesia visual aparece de uma forma consistente: durante o período alexandrino, na renascença carolíngea, no período barroco e no século XX (globalização, Psicanálise, vanguardas, “boom” da Poesia visual, avanço dos meios de comunicação...). O que mais relevante foi a questão do <escuro>. Segundo ele, é preciso ver “o escuro ativamente. Como se o excesso de luz nos cegasse... olhar e enxergar o seu escuro. A ausência de luz desinibe a visão.” Relacionou-o com a Poesia visual: “como parar no meio da pressa... nos permite parar para calar... escutar o seu silêncio”. Imediatamente, veio a lembrança de Ensaio sobre a cegueira de José Saramago. Não é um livro sobre uma doença de origem biológica, um castigo divino. Num determinado trecho, através da “mulher do médico, ele mostra o que pode significar a cegueira:

“a mulher do médico compreendeu que não tinha qualquer sentido, se o havia tido alguma vez, continuar com o fingimento de ser cega, está visto que aqui já ninguém se pode salvar, a cegueira também é isso, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança.”

E também de Ítalo Calvino, em Seis propostas para o próximo milênio, no qual elege a visibilidade como proposta importante e afirma: “Hoje somos bombardeados por uma tal quantidade de imagens a ponto de não podermos distinguir mais a experiência direta daquilo que vimos há poucos segundos na televisão.” (1990, p. 107) A exploração do campo visual em nossos dias é tão excessivo que temos dificuldade de até mesmo distinguirmos em que cada imagem está associada, nos sendo perigoso originar uma espécie de cegueira. Não falamos sobre cegueira patológica, mas uma que é capaz de não conseguirmos memorizar devido a essa poluição visual a qual estamos imersos.

Em seguida, o poeta e ensaísta Luiz Otávio Oliani  (graduação em Letras, é professor, antologista, tem escrito sobre a literatura local e tem no prelo seu novo livro: \"Palimpsestos, Outras Vozes e Águas”, de forma também bem acadêmica, começou abordando a origem da Poesia visual. Datando de 300 anos antes de Cristo e realizadas na Alexandria, as tecnofanias de Sírnias de Rodes constituem os primeiros poemas visuais conhecidos. São elas: \"O Machado\", \"As Asas\" e \"O Ovo\". Depois, discorreu sobre as três vanguardas: o Concretismo, Poema processo e Práxis e seus representantes e obras. Mencionou a obra Corruptocracia de Tchello, disse que a Poesia visual “fala por si” e “caminho ímpar na Literatura Brasileira” e revelou finalizou com “uma amostra da vitalidade é o encontro de hoje”.

O último componente da mesa a apresentar-se foi o poeta,ator e cineasta Sady Bianchin, curador da bela exposição de Poesia Visual \"Convergências\" e debatedor da mesa-redonda. Começou citando Drmmond “o amor pela poesia é privilégio de poucos”. Provocou os palestrantes acerca das reflexões sobre a dicotomia ontem e hoje, o conceito de contemporâneo, a questão do escuro... Ótimas citações como a letra da música Como nossos pais de Belchior “Ainda somos os mesmos. E vivemos. Ainda somos os mesmos”, “A vida só é possível reinventada” de Cecília Meirelles, Claro enigma de Drummond e a obra Abaporu de Tarsila do Amaral para pensar a temática do evento.

Seguem algumas colocações pertinentes feitas por ele para reflexão:

“A realidade é mais dura que a imagem. Não basta colocar o pé na realidade, é preciso interpretá-la”.

“A arte única forma de combater a barbárie”.

“Tempo obscuro, apatia coletiva. Quando há manifestação, ainda há salvação”.

 

Para finalizar a mesa-redonda, a simpática e atenciosa Alpina Rosa, diretora do Centro Cultural da Justiça Federal elogia o evento e divulga o edital para inscrição de projetos e o horário de funcionamento da biblioteca, localizada no 2º andar, com acervo especializado em Arte e Cultura, de terça a sexta-feira, das 12h às 19h.

Para finalizar o encontro, uma parte musical, com quem a linda voz e interpretação da “voz de pássaro”, Laffayette Jr. (professor da UNIRIO, performer,músico e idealizador do Projeto Releituras Musicais – experimentos).

 

 O primeiro momento, sem letra, ele chamou de Silêncio Efêmero. Em seguida, brindou-nos com Jaguadarte (poema de Lewis Caroll - traduzido por Augusto de Campos e musicado por Arrigo Barnabé. Foi gravado por Tetê Espíndola)

 

Quem ama mas é só tem em seu ser uma dor

Que mói que roi que doi

Que dó Se há um Deus lá no céu

Nem sei se dá pra crer

Nem dá pra ver se ele crê em mim

Não sei se vai ter flor no dia do meu fim

Mas sob 7 pás de pó ali jaz mim

 

E, finalizou declamando 3 poemas monossílabos de Tchello.

 

Houve também a bela intervenção poética de Paulo Sabino com Preço atual em homenagem a Artur Gomes. Referiu-se ao sarau, ao palco, ao festival para dizer que assim como estes, o poema precisa de plateia. Escreve-se, declama-se, atua-se para ser lido e/ou ouvido.

E, para encerrar o evento, a sessão de autógrafos com o irreverente poeta, ator e cineasta Artur Gomes declamou algumas de suas poesias do livro lançado Juras secretas.

 

“Este teu olho que me olha

Azul safra

Ou mesmo verde

Esmeralda fosse

Pedra – pétala rara

Carne da matéria doce

Ou mesmo apenas fosse

Esse teu olho que me molha

Quando me entregas do mar

Toda alga que me trouxe. (Editora Penalux, 2018:89)

 

Segundo, Tchello, o livro do “vociferante” Artur Gomes tem “bela capa de Felipe Stefani, prefácio de Michele Sato e posfácio de Tanussi Cardoso, a Editora Penalux vem com “Juras Secretas” somar na literatura contemporânea brasileira com a mais nova sagaranagem fulinaímica”.

 

O evento foi tão enriquecedor que teria muito mais a relatar. Todos que estavam presentes (Marcelo Mourão – Maria Celia Vieira...) com certeza assim como eu devem estar ainda com a cabeça “fervilhando” de reflexões. Artur disse algo que sintetizou “a energia de ontem sobrepôs as paredes da sala, vazou pelos poros da argamassa”. E colou em nós.

Parabéns ao Tchello d’ Barros pela iniciativa e a todos os partcipantes!!! Que venham não só mais mesas-redondas sobre Poesia visual como também a disseminação e valorizaçãol!!

Finalizo com as palavras de Tchello d’ Barros:

Num período onde a Poesia Visual já consolida seu legado em livros didáticos e conquista espaço em ementas de cursos de Literatura, pesquisas acadêmicas e até mesmo no colecionismo do mercado de arte, estes encontros partem do princípio de que realizar exposições, produzir publicações e provocar discussões podem também ser formas de oportunizar mais opções de acesso à Poesia Visual, seja para quem quer alimentar esse sistema com suas criações, seja apenas para quem deseja fruir da poesia em todas as suas vertentes.”

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