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Réquiem para um rapaz triste

Literatura por Renata Barcellos em 2018-07-15 00:01:07

Réquiem para um rapaz triste surpreende desde o início: a peça não é dentro da Sala Baden Powell. Foi em uma toda pintada de preto na outra rua. Subimos a ladeira lateral. Uma experiência inusitada. Na entrada, a personagem Alice (interpretado muito bem por Rodolfo Lima) já encontrava-se na porta fumando. No espaço, três tablados com poucas cadeiras e o cenário: 1 cama de solteiro, 1 cadeira, 1 copo com água, livros no chão, 1 retrato de Caio de Abreu, 1 bolsa e muitas guimbas.

A peça é uma proposta intimista (tanto ocorre no teatro como em residências). Apresenta ao público a personagem Alice, baseada nas personagens femininas do autor Caio Fernando Abreu (1948-1996) e em uma familiar em quem se inspirou.  Trata-se de uma mulher solitária e fumante compulsiva. Durante a narrativa, dialoga com o público sobre suas escolhas, refletindo sobre temas como o amor, a falta, a solidão e a procura: “Quem é você para dizer se eu dei certo? Por acaso, você deu? Tem esperança?”. Tudo isso envolto por narrativa e descrição: “ É de noite. Estou em casa sozinha. Esperando alguém que não sei se vai chegar. Provavelmente, não”, “você cobre com sua boca meus ouvidos entupindo de poesia, versos interrompidos”....

Alice menciona sentimentos aflorados nela: angustiada: “Eu só queria ser feliz”; e amargurada: “obrigação de ter sido outra pessoa... nunca ninguém me doeu tanto como eu mesmo me doeu agora”.

Rodolfo Lima aborda temas existenciais de forma bem dosada. O texto é rico. Ele apresenta:  

 

Definições: amor é “árduo trabalho de formiga”;

Citações: CVV (Centro de Valorização da Vida realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, email e chat 24 horas todos os dias – número 188); “Viro a mesa, chamo uma RO RO e parto para outra”; “A vida só é possível reinventada” (Cecília Meirelles).

 

Recursos expressivos:

 

 -metáforas “roda da vida”;

-antíteses “completamente má ou boa”, “se você deixar de existir, eu continuarei existindo”;;

- comparações: “a perda do amor é igual a da morte” e “o que é verdade ou mentira”;

- paradoxo: “a morte está viva”

- sinestesia: “encostar o joelho quente na tua coxa”, “guardo o cheiro do teu corpo” e “o gosto podre de fracaso, de derrota”.

 

Pensamentos: “Quando não há remédio, melhor saída é o deboche” e “sossega, o amor não é para o teu bico”;

 

Ao terminar o espetáculo, Rodolfo Lima conversa com o plateia. Esclarece que o solo surgiu no final de 2002, aos 26 anos.  Através dos questionamentos de Alice, ele nos leva à reflexão e, por vezes, à identificação como: “o fato de ser só é inevitável. Independente de questões exteriores. Existem pessoas que nascem para serem sós na vida toda”.

 

 

Um pouquinho de Caio de Abreu

 

Caio Fernando Abreu (Santiago do Boqueirão, RS, 1948 - Porto Alegre, RS, 1996) foi crontista, romancista, dramaturgo, jornalista. Em 1963, publica seu primeiro conto O Príncipe Sapo, na revista Cláudia. Escreveu as seguintes obras: Inventário do Irremediável (1970), O Limite Branco (1971), O Ovo Apunhalado (1975), Pedras de Calcutá (1977), Morangos Mofados (1982), Triângulo das Águas (1983), As Frangas (1988), Os Dragões não conhecem o Paraíso (1988), Onde andará Dulce Veiga (1990), Ovelhas Negras (1995) e Pequenas Epifanias (1996). Por seu trabalho literário, recebeu os prêmios Fernando Chinaglia (1970), Status (1980), Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro (em 1984 e 1989), e seus textos foram traduzidos para diversas línguas. O gosto pelo não literal e as temáticas e linguagem transgressoras fizeram-no um dos escritores mais queridos da Literatura brasileira. A cultura pop, a atmosfera e a efervescência cultural dos anos 70 e 80 foram grandes referências para o escritor. 

  

Ficha Técnica


Inspirado nas personagens femininas de Caio Fernando Abreu.
Adaptação, interpretação, direção, figurino e ambientação cênica: Rodolfo Lima
Vídeo: Dedeco Macedo

Em cartaz de 6 a 29 de julho, sextas, sábados e domingos, às 19h, na Sala Municipal Baden Powell, em Copacabana.

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