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“PENÉLOPE”

Literatura por Renata Barcellos em 2018-07-18 00:30:14

Hoje, foi exibido \\\\\\\"Penélope\\\\\\\" de Tchello d’ Barros (roteiro e direção), no evento Terça ConVerso, no Teatro Gláucio Gill, em Copacabana, realizado todas as terças-feiras, às 18:30. Trata-se de um videodança sobre afetos, de quando um grande amor pode estar além da distância, da ausência e da saudade.  É para assistir, apreciar a bela “intertextualidade poética” (segubdo Tchello) proposta da personagem mitológica à encenação: dança e refletir sobre esta questão apresentada: como aceitar os fios do destino que, aos poucos, vai tecendo suas tramas em nossas vidas?
Ao ler o título, de imediato, não me remeti à figura mitológica. Só quando li as palavras de Tchello d’ Barros sobre a original proposta. Foi realmente uma ideia pertinente reavivar a lendária Penélope. De acordo com ele, “a contemporânea e estilizada remete à amada do herói grego Ulisses, que não sabe se ele morreu na guerra de Tróia ou se retornará para seus braços. À beira-mar em sua ilha, na esperança de ver um certo barco retornando, seus olhos fitam a linha do horizonte marítimo. Ela dança para o amado...”.                                                                                             

Para quem não se recorda da obra Odisseia de Homero e das suas personagens: Ulisses e Penélope, um pouquinho de história: Penélope  (em grego: Πηνελόπη, transl.: Pēnelópē), na mitologia grega, é esposa de Ulisses, filha de Icário e de Periboea. Por 20 anos, ela esperou a volta de seu marido da Guerra de Troia. A longa viagem de retorno dele é o tema do livro. Penélope foi uma heroina mítica, cuja beleza não era maior que seu caráter e sua conduta. Filha de Icário, um príncipe espartano, ele pediu-a em casamento conquistando-a entre muitos competidores que participaram dos jogos instituídos por seu pai. Porém, depois do casamento, quando chegou o momento no qual a jovem esposa deveria deixar a casa paterna, seu pai Icário não aceitando a ideia de separar-se dela, tentou persuadi-la a permanecer ao seu lado e não acompanhar o marido a Itaca. Ulisses deixou que Penélope escolhesse e ela silenciosamente cobriu o rosto com um véu e seguiu o marido. Icário entendeu e mandou construir uma estátua do Pudor onde se havia separado da filha.
Através da figura mitológica, Penélope “a contemporânea e estilizada” simboliza aquela mulher à espera do ser amado. Idealiza uma situação que, provavelmente, nunca se materializará devido ao fato da outra pessoa só existir da maneira sonhada em sua mente. Na Psicologia, é tratado como um complexo. De acordo com Tchello d’ Barros, o que motivou-o a realizar o videodança foi a razão de “vivermos em um tempo de rarefação dos afetos, de relações rasas e descartabilidade no quesito do Amor. Em contraponto a esta tendência, busquei no arquétipo da rainha de Ítaca um modelo de amor duradouro, de um afeto que persevera, transcende tempo, distância e saudade. A heroína grega, em sua fidelidade amorosa contra tudo e contra todos, apresenta-se como um modelo dissonante da superficialidade das relações presente em nossa apressada contemporaneidade”. Isso fez-me lembrar deste pensamento de Bauman “a modernidade líquida em que vivemos traz consigo uma misteriosa fragilidade dos laços humanos – um amor líquido. A segurança inspirada por essa condição estimula desejos conflitantes de estreitar esses laços e ao mesmo tempo mantê-los frouxos.” (em Modernidade Líquida: sobre a fragilidade dos laços humanos).

Alguns poetas foram prestigiar o trabalho de Tchello d’ Barros e fizeram questionamentos e/ou apreciações como:

Jorge Ventura (presidente da APPERJ  -Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro), logo após a exibição, perguntou-lhe se foi fácil a transposição para a dança?

De acordo Tchello d’ Barros, “não é fácil. É prazeroso. Envolve cerca de 10 profissionais para a realização do vídeo filmado em Itacoatiara, em Niterói. o elemento positivo a ser destacado é a transposição para o audiovisual, para outras plataformas, a fim de inquietar, transcender, tocas as pessoas...”.

Jorge Ventura destacou a questão da “adaptação midiática. O movimento no lugar do verso expressa bem a angustia da espera”.

Em seguida, empolgada, Maria Fernanda indaga-lhe: Terá segunda parte? O retorno de Ulisses, o reencontro? Ele lhe responde que tem pensado na possibilidade do grande reencontro.

Depois, Monica relata-me que o videodança inspira” o desejo de amado. O sonho de retorno do amado. Persiste nele”. E, por fim, na nossa conversa ainda filosofa: “o prazer está no sonho. Quando se realiza, é frustrante”. Concordo com ela.

Celi Luz (autora de Em razão do amor) declara ser o videodança “emocionante. Releitura do amor .... a dança expressa a saudade da mulher apaixonada”.

Eliana Calisto (autora de Silêncio dos anjos) mencionou os fios “simboliza a trama de Penélope. Retrata poesia em dança”.  Vale destacar que, ao assistir ao videodança, o que mais me depertou a atenção foi isto: os diversos movimentos feitos por Penélope com os fios e sua expressão facial. Foi uma excelente metáfora para as agruras vividas por ela no período de espera do ser amado, Ulisses.

Luiz Otávio Oliani (professor e escritor, autor de 13 livros ) relata que \"Numa era de extrema liquidez, o videodança de Tchello d´Barros mostra a luta pelo amor através do tempo e da morte\".

 Monica Firme Maciel (Produção) destacou a originalidade da abordagem do tema amor pela lenda de Penélope e o fato da filmagem ter sido em um lugar lindo (praia de Itacoatira, Niterói). “Uma das mais lindas do mundo”, palavras dela.


Após essas impressões, o que dizer quando as imagens expressam mais que mil palavras? Posso declarar que embora o videodança seja de curta duração (05:30), ele expressa todo o dilema vivenciado por Penélope (bela interpretação de Natasha Janini) de forma sutil. É poesia em forma de movimento. É uma prova de ela estar por todas as partes. Parabéns Tchello d’ Barros pelo roteiro e pela direção e aos outros membros da equipe deste projeto.

Finalizo com uma citação de Bauman:

“Em todo amor há pelo menos dois seres, cada qual a grande incógnita na equação do outro. É isso que faz o amor parecer um capricho do destino - aquele futuro estranho e misterioso, impossível de ser descrito antecipadamente, que deve ser realizado ou protelado, acelerado ou interrompido. Amar significa abrir-se ao destino, a mais sublime de todas as condições, em que o medo se funde ao regozijo num amalgáma irreversível. Abrir-se ao destina significa, em última instância, admitir a liberdade no ser: aquela liberdade que se incorpora no Outro, o companheiro no amor” (Em AMOR LÍQUIDO, p. 11).

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Tchello d'Barros

Que maravilha esse texto, querida Renata! Muito obrigado!

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