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IV Encontro Nacional da Cultura Latina do Brasil

Cultura por Renata Barcellos em 2018-07-26 01:15:59

Foi realizado do dia 19 a 21 de julho de 2018 o IV Encontro Nacional da Cultura Latina do Brasil, no Maranhão. Estou muito feliz em participar de um evento tão importante para o cenário cultural laitno, por conhecer aquela que já foi a capital do país, considerada a “cidade do amor” por ter autores como Gonçalves Dias, Sousândrade, Montello, Nauro Machado...; e, pessoalmente, a simpática, atenciosa e comprometida Dilercy Adler, (presidente da Sociedade de Cultura Latina do Brasil - SCLBR). Aproveito para agradecer: Merci, por proporcionarmos momentos de enriquecimento e de integração entre escritores de todo o país. Segundo ela, o encontro tem por objetivo “discutir a importância da cultura na atual conjuntura. A cultura é um grande instrumento de equalização social, e a SCLBR tem por objetivo aproximar os países latinos”.

Destaque do primeiro dia (19/7) foi a apresentação do belo conjunto Clarins ao vento com repertório nordentino. Em seguida duas enriquecedoras palestras sobre Sousândrade: uma da entusiasta professora Luiza Loba da UFRJ sobre a importância do autor no panorama da literatura épica internacional. Vale ressaltar que, ao discorrer sobre o seu objeto de estudo, ela demonstra paixão pela pesquisa realizada. E do professor José Neves do Maranhão sobre a obra Guesa do autor. Eis um fragmento:

 

Guesa errante

Eia, imaginação divina!

Os Andes
Vulcânicos elevam cumes calvos,
Circundados de gelos, mudos, alvos,
Nuvens flutuando – que espetác’los grandes!
Lá, onde o ponto do condor negreja,
Cintilando no espaço como brilhos
D’olhos, e cai a prumo sobre os filhos
Do lhama descuidado; onde lampeja
Da tempestade o raio; onde deserto,
O azul sertão, formoso e deslumbrante,
Arde do sol o incêndio, delirante
Coração vivo em céu profundo aberto!

Para quem nunca ouviu falar no autor brasileiro ou ainda pouco porque, infelizmente, não é trabalhado, muitas vezes, nas escolas públicas e nas privadas.

Sousândrade (1833-1902) autodidata, escritor e professor brasileiro pertencente ao Romantismo, ao modelo de Byron e ao indianismo. Destacou-se não só pela ousadia e originalidade pela escolha de temas sociais, nacionalistas e nostálgicos, como também pelo uso de palavras estrangeiras (inglês, francês, grego, tupi-guarani...) e de neologismos. Sua obra apresenta não só traços do Romantismo como também do Modernismo. Isso devido à construção poética com experimentações vanguardistas e ainda pelos temas explorados por ele. Segundo a professora Luiza Lobo, o autor é pioneiro em literatura comparada (ele 1884 e Mallarmé em 1888): “mostra unidade da América Latina inclusive do Caribe”.  Incompreendido pela crítica e pelo público de seu tempo, hoje, é reconhecido como um dos precursores da literatura moderna, ao lado de nomes internacionais como Charles Baudelaire e Edgar Allan Poe.

A sua obra passou a ser analisada a partir dos anos 50. Cabe destacar o importante estudo dos poetas e irmãos Augusto e Haroldo de Campos que publicaram “Revisão de Sousândrade”, nos anos 1960. Conforme Augusto de Campos:

 

 “(...) no quadro do Romantismo brasileiro, mais ou menos à altura da denominada 2ª geração romântica (conceito cronológico), passou clandestino um terremoto. Joaquim de Sousa Andrade, ou Sousândrade, como o poeta preferia que o chamassem, agitando assim, já na bizarria do nome, aglutinado e acentuado na esdrúxula, uma bandeira de guerra.”

Sousândrade publicou Harpas Selvagens (1875), Impressos (1868-1869) e O Novo Éden (1893). Seu longo poema, O Guesa, publicado em Londres por volta de 1884, é considerado sua obra-prima.

Terminou a noite com a inusitada performance teatral de Uimar Junior. Apresentou-se como o busto de Sousândrade fazendo sua própria autobiografia.   

 

20 de julho foi de muita produção, um dia ímpar. Começou com a mesa redonda cujo tema foi Integração cultural e latinidade foi na bela Academia Maranhense de Letras.  Foi uma rica contribuição do cacique Zeca (Marabá/PA) que nos proporcionou uma reflexão acerca da situação atual dos índios no Pará. Segundo ele, o seu povo vem lutando “pela permanência da sua língua materna”. No seu cântico, diz: “nós existimos, vamos resistir e lutar pela diversidade e pela língua materna”; de Joaquim Moncks (SCLB e POEBRAS), com quem tive o prazer de conviver e de muito aprender neste período do encontro, declamou o poema Pátria minha de Vinicius de Moraes e fez uma abordagem sobre a poética e o associativismo literário. Referiu-se a vários pensamentos como o de Platão: “a poesia nasce não pelo encanto mas pelo espanto”; de Francesco Cerrato (ACIB-MA) que fez um relato apaixonante sobre a atuação do Exército na Batalha Monte Castelo para libertação da Itália. Para ele, é importante “valorizar a ação dos militares brasileiros, ter ciência do que foi feito...” ; e de Paulo Tim (de SC), com quem tive também a satisfação de conversar e aprender, abordou a situação do Rio Grande do Sul sobre a questão da lusitanidade e da latinidade; com mediação de Deusdedit Leite Filho (MA).

Em seguida, com mediação de Antônio Ailton, a mesa redonda Leitura de poesia. Nós, poetas inscritos como eu, Erlinda Maria Bittencourt, Maria Setla de Oliveira Gomes e Carlos Brunno, declamamos algumas. Belo momento de integração e pura poesia de temas diversos.

À tarde, mais conhecimento, mesa redonda com o tema Mulheres na literatura com Maria Stela (MG) sobre a obra As meninas de Lígia Fagundes Telles, com Antôno Agenor Gomes (MA) a respeito de Maria Firmina dos Reis e o Boi Caramba para escravas, Jucey Santana (MA) analisa Mariana Luz, e eu apresentei a situação atual das mulheres escritoras nas instituições acadêmicas.

Às 16:30, tivemos o Sarau latino precedido de músicas de Hélio Bonfim. Excelente apresentação. Toca muito bem.

À noite, lançamentos coletivo de livros como o meu: Barcellos: prosa e verso com participação de Lucien Gilbert e da bela I Coletânea poética da sociedade de cultura latina do Brasil, organizada por Dilercy Aragão Adler. Foram momentos de muita integração e de confraternização. Em seguida, entrega de comendas e de diplomas de mérito cultural (do qual tive a honra de receber um).

No sábado, pela manhã, fizemos um passeio turístico de jardineira pelo Centro histórico, o literal e o Forte de Santo Antônio. Em seguida, almoçamos no Sesc. Foi ótimo para confraternização. Momentos de muito riso que ficaram na memória.

À tarde, houve reunião para definir novas metas e o futuro das SCLBs em cada estado. Depois, mesa redonda com Paulo Melo Sousa (MA), Clério Borges (ES) e Dilercy Adler (MA) com o tema As SCLs no Brasil e no estrangeiro.

Para finalizar, palestra cujo título é A dimensão política na cultura latina, com Joãozinho Ribeiro e linda apresentação do Bumba boi “Brilho do Sesc”. Ganhei até a blusa no sorteio.   

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